domingo, julho 30, 2006

um bocadinho da trigésima sexta parte

Estacionei no Colombo e subi ao segundo piso. Faltavam cinco minutos. Saí do elevador e dei uma volta. E lá estava ela. Encostada a um corrimão a mexer no telemóvel.
- Ia-te mandar uma mensagem.
- Olá. Como estás?
- Estou bem mas tu pareces mal, Que se passou?
- Nem vais acreditar. Já te conto: Queres comer onde?
- Escolhe tu…
- Bacalhau gostas?
- Pode ser…
Entrámos num restaurante só com bacalhau que tinha aberto recentemente e fomos para o fundo do restaurante. Apetecia-me estar isolado e falar sem muita gente à volta.
Contei-lhe o episódio, e foi-me escutando com toda a atenção com se fosse um filme que estivesse a assistir. Sem me dar conta, estávamos a sorrir, e a fazer comentários heróicos a tudo aquilo. Passar-me o estado de nervosismo, de ansiedade e estava a sentir-me bem. Muito bem.
- Estou a almoçar com um herói. – disse soltando uma gargalhada.
- Ri-te, ri-te. Olha que foi bem complicado.
- O meu herói. - disse metendo a mão dela por cima da minha.
- Também não foi assim tanto. Saí-me bem. Só isso. Aí vem a cataplana de bacalhau. Preparada ?
- Parece deliciosa. Vais trabalhar de tarde?
- Não preciso e tu?
- Tirei o dia para ti…
Aquela disponibilidade, aquele ar simples de mulher, estavam a agradar-me imenso. Recordei o que me contara da sua vida. E dei comigo a pensar que gajo idiota manda fora uma mulher destas. Estava mais magra, notei que se produzira e que vinha com tudo. lol.
Mas ainda bem que veio. Estava a precisar de alguém assim naquele momento.
- E então o namoro? Vai continuar? – disse evitando olhar-me nos olhos.
- Nem sei. Não pensei nisso. Porque perguntas?
- Nada, curiosidade feminina apenas.
- Diz lá. Não tem mal. Mas conta-me, porque perguntaste?
- Gosto de ti. Eu sei que parece estranho. Mas fazes-me bem…
- Saímos uma vez. Falámos mais duas ou três. Não estarás a ter um devaneio no mundo paralelo? – disse sorrindo e provocando-a.
- Quem sabe. É capaz de ser. Tens razão.
- Estás muito mais magra. A fazer dieta?
- Nota-se?
- Sim. Muito mesmo.
- Já perdi 12 quilos…
- Estás melhor assim. Mas vê lá se desapareces.
- Ai, não sejas parvo…
- E a que se deve tal dieta?
- Quero conquistar-te...
Eu sou mesmo parvo. Faço as perguntas e depois lixo-me. A Isabel estava claramente a atirar-se para cima de mim. Já o tinha notado. E fiquei sem saber o que dizer.
- O gato tirou-te a língua.
- Digeria o que me disseste. Ainda não me habituei ao mundo paralelo. Tudo pode não passar de uma ilusão e depois? Damos umas quecas e que se passará depois?
- Não me queixei. Mas podemos ir dando umas quecas. Aceito o convite.
- Sabes bem que não era um convite…
- Estava a brincar…
- Desculpa o dia foi complicado. Tens razão.
- Razão em quê?
- Vamos dar umas quecas. É isso que queres?
- Como uma obrigação não. Quero se também quiseres.
- Eu quero…
trigésima quinta parte

A Cláudia não parava de chorar, e nem as brincadeiras do Filipe sobre o meu acto heróico a animavam. Fiz sinal ao Filipe e lá entendeu que estava a mais. E lá arranjou uma saída inteligente.
- Bem. Alguém tem de ir trabalhar. Fica descansado maninho, eu seguro o escritório.
- Se precisares de algo diz. – disse, levando-o à porta.
Voltei para dentro e Cláudia estava agora deitada de barriga para baixo, com a cabeça sobre os braços.
- Já passou. Queres que te vá buscar alguma coisa. – disse virando-a suavemente para cima.
- Não precisavas bater-lhe assim. – disse limpando as lágrimas.
- Olha lá. O gajo tinha uma faca, ameaçou-te, ameaçou-me até à Ana ameaçou e ainda o defendes?
- Ele não faria nada, apenas queria dinheiro…
- E eu ia lá saber. Aliás como sabia ele que eu tinha uma filha?
- Ele já cá veio duas ou três vezes. Levou dinheiro e foi-se. Era isso que ia acontecer.
- Não te armes em defensora dos fracos. Eu levei um pontapé, e fui ameaçado…
- Mesmo assim não precisavas quase de o matar.
- Olha parece que tudo isto tem a ver com o que sentes por ele: O gajo ameaçou meio mundo. E calhou eu conseguir defender-me e vens com essas merdas. Santa paciência…
- Não devias ter feito o que fizeste…
- Fiquemos por aqui Cláudia, já me chega de emoções e de ouvir coisas parvas. Fica bem.
E saí porta fora. Foda-se. Ainda o estava a defender. Já na rua liguei para o escritório para sintonizar a Judite com tudo, mas ela já sabia e disse-me para não me preocupar, que o Alberto trataria de tudo.
Sentia-me nervoso. Muito nervoso mesmo. Meio perdido. E sem saber quem teria razão, se a Cláudia ou eu. Que se lixe. Agarrei no telemóvel e apeteceu-me atirá-lo ao ar. Foda-se que merda de vida. Não me apetecia estar só. Mandei uma mensagem à Isabel a ver se queria almoçar.
”claro que sim, 13 horas no Colombo no piso 2”
A resposta animou-me. Estava meio perdido. Sentia-me longe de tudo. Só no meio de tanta gente. O toque do telemóvel ligou-me ao mundo.
- Tou, mãe diga.
- Que se passou estás bem?
- Sim já passou. Como soube desta confusão?
- O Filipe ligou e contou.
- Não se preocupe está tudo bem. O pai está bom?
- Sim. Só preocupado. Queres vir cá jantar?
- No fim-de-semana passo aí. Tenho muita coisa para fazer hoje. Um beijo
- Outro. Qualquer coisa liga.
Os meus pais eram assim. Apareciam, mal um dos rebentos estivesse aflito. Tinha de me organizar para ir a casa deles no fim-de-semana. Fazia mais de dois meses que nada dizia nem aparecia. O típico filho desnaturado. Mas com um espaço onde eles não se metiam. E isso agradava-me.

quinta-feira, julho 27, 2006

o resto da trigésima quarta parte

...
Boa. Aquele gajo era o João. De repente perdi o medo. Senti-me mais calmo e com vontade de lhe partir a tromba. Não fosse a merda da faca que tinha na mão.
- Tem calma João. Não farei e farei nada de mal.
- Cala-te meu. E passa a guita.
- Passo-te um cheque se desapareceres. Escolhe um valor e promete não voltar.
- Foda-se meu, és como o pai desta gaja. Resolves tudo com cheques. Vai-te foder. Ainda te espeto. Passa mas é a guita.
- Tem calma, está aqui. – disse eu meio nervoso entre o aproximar da faca e o ar meio louco do gajo.
Atirei tudo para o chão, dinheiro, relógio e telemóvel, na esperança que ao apanhar o pudesse pontapear.
- Tás a gozar meu. Apanha essa merda e mete em cima da mesa. Foda-se ainda te espeto. Tás armado em parvo. Vá depressa.
Baixei-me para apanhar tudo e senti um forte pontapé no estômago e as mãos dele no meu cabelo.
- Bico calado ou sangro-te aqui filho da puta…
- Tem calma, leva tudo e vai-te embora…
- O menino tá borradinho… Tás aqui tás a sangrar…
- Vai-te embora João. Por amor de Deus vai-te embora. – gritou a Cláudia sem parar de chorar. – Vai por amor de Deus.
- Não limpei o sebo ao teu pai mas limpo a este cabrão e à filha dele. Ouve-me bem. Eu limpo o sebo a este cabrão e à filha dele…
- Vai-te embora! Saí da minha vida de uma vez! Por favor João. – disse a Cláudia implorando e não parando de chorar.
Ao sentir que abrandou o apertar dos meus cabelos, levantei-me segurando a mão onde tinha a faca. Olhei-o nos olhos e sem pensar puxei da cabeça atrás e dei-lhe uma cabeçada monumental entre os olhos e o nariz. Fiquei meio tonto mas senti que deixara cair a faca e que caíra de joelhos no chão. Procurei a faca e agarrei-a num ápice. O sangue jorrava por entre os dedos, de tal maneira que se deixara de ver o rosto. Balbuciou qualquer coisa e caiu para o lado.
- Meu Deus. Que fizeste Miguel. Mataste-o… Ai meu Deus. Ele está morto. – disse a Cláudia a gritar.
- Cala-te e chama a policia, ou melhor o 112…
Parei, olhei à volta e agarrei no telemóvel. E liguei para o Filipe.
- Estou Filipe, vem depressa para a casa da Cláudia.
- Passa-se alguma coisa?
- Vem o mais depressa que consigas.
Como a Cláudia nada fizera, liguei o 112 e dei a morada. Pedi também para trazerem a policia e relatei o estado da vítima. Só então me debrucei sobre o desgraçado. Respirava, não estava morto. Fui à casa de banho e apanhei umas toalhas para o limpar. Limpei-lhe a tromba e de anormal aparentemente só um osso branco estava fora no nariz, meio espetado e partido em dois. Molhei-lhe a cara e tentei fazê-lo voltar a si. Tomei-lhe o pulso para ver se estava vivo. E esperei que chegasse o 112. Ouvida a sirene, fui à janela fazer sinal. Na rua estava também já o Filipe e um carro da polícia. E fui para o hall abrir a porta.
- Onde está o ferido? – perguntou um homem vestido de branco.
- Ali ao fundo no quarto. – disse eu apontando a direcção.
O Filipe vinha com dois agentes da PSP, que entretanto se me dirigiram e questionaram sobre o ocorrido. Um sentou-se comigo na sala e o outro foi ver o estado em que estava o João.
Tentei acalmar-me e ser racional. Perceber toda aquela confusão e ser lúcido e objectivo nas explicações de tudo o que ocorrera. Olhei a maca a passar e o João a levar uma máscara para ajudar a respirar.
Os dois agentes sentaram-se então comigo e perguntaram detalhadamente o que se tinha passado.
- Tenha calma. – disse-me um dos agentes. – Que se passou?
Detalhadamente contei tudo o que me lembrava e o que tinha acontecido. Todos os pormenores, e tudo o que achei importante.
- Agiu bem, mas com estes drogados nunca de deve arriscar: Valia mais deixá-lo ir. – confidenciou-me o agente mais velho. – Vão-se os anéis mas ficam os dedos.
- É como o meu colega diz. – disse o outro, meio a rir. – Era para a dose diária, não valem o esforço acredite. Mais dia, menos dia acabam num beco qualquer, com uma seringa entre os dedos dos pés.
Tinha-me esquecido da Cláudia e pedi aos agentes se a podia ir ver. O Filipe já lhe levara um copo de água e estava mais calma. Mal entrei abraçou-me e disse-me:
- Tive medo de te perder. Amo-te muito.
- Tem calma, já passou. O Filipe fica aqui contigo enquanto eu trato de tudo. – disse limpando-lhe as lágrimas.
Voltei à sala e os dois agentes já de pé, agiam como se nada fosse.
- Hoje à jogo da Liga dos Campeões, a ver se o Porto ganha ao Manchester. – disse com ar irónico.
- Vai ganhar. – Disse eu meio orgulhoso do meu clube.
- Já que mais ninguém ganha, que ao menos ganhem eles…
- Como os senhores agentes devem imaginar, nunca me vi envolvido numa situação destas, nem sei que passos dar.
- Tenha calma. Falta só dar-nos os seus dados e esperar. Normalmente, estes gajos não têm, onde cair mortos. E a si aconselho-o a não apresentar queixa. Só lhe vai trazer chatices. E a ter que encontrar o gajo mais vezes.
- Compreendo. Têm aqui um cartão meu, com todos os dados.
Pegou no cartão e mudou de cor.
- Senhor Engenheiro como está?
- Desculpe. Não me lembro de si, mas no meio desta confusão, compreenda.
- Tem razão. Desculpa peço eu. Sou o marido da sua secretária. A Judite Morais. Está a ver aqui. - disse apontando para o crachá – Alberto Morais.
- Peço desculpa. Não me recordava…
- Vá descansado e esqueça este episódio, nós tratamos de tudo…
- Tratam de tudo?
- Sim. – disse-me ele piscando o olho. – O senhor merece.
O colega estava meio aturdido com tudo, e meio incrédulo. Mas com um encontrão e um piscar de olho, percebeu o que eu não percebi nem relacionei.
- Foi este senhor que mandou as caixas de sardinhas para as festas dos Santos Populares. - disse com um ar pomposo. – E que mandou a minha Judite, para casa quando o meu do meio esteve com a Varicela. Nem um dia lhe descontou e ainda lhe ofereceu a consola de jogos.
- Senhor engenheiro. Fique descansado, trataremos de tudo. – disse o outro completamente transformado e com um ar venerado.
- Cumprimentos ao vosso senhor comandante. – disse acompanhando-os à porta.
um bocadinho da trigésima quarta parte

Acordei com um beijo doce da Ana. Olhei as horas e ainda não eram sete da manhã.
- Bom dia paizão. Levas-me à escola.
- Sim, posso levar. Mas que se passa?
- Nada. Queria falar contigo, só isso.
- Tudo bem, meia hora e saímos.
- Vou descer, despacha-te.
Olhei o espelho e tudo estava na mesma, sentia-me leve. Mas apenas isso. Fiz a barba, tomei um duche rápido e enviei-me num fato cinza escuro, com uma camisa cinza clara e uma gravata cerize. O pequeno-almoço estava prontíssimo, devorei duas torradas e esperei que a Ana fosse buscar um livro enquanto acabava o café.
- Vamos Ana, estamos atrasados. – gritei-lhe na escada.
- Um segundo, vou já.
- Vou para o carro, despacha-te.
Liguei o carro e meti-o na rua, já fora do portão. Cinco minutos depois lá veio a Ana. Reparei que ligeiramente pintada. E recordei o pedido de querer falar comigo. Mas aguardei que começasse ela.
- Queres música? – perguntei como se nada fosse.
- Já namoro. – disse bruscamente.
Olhei o espelho do carro e tentei agir normalmente, como se fosse a notícia mais normal do mundo.
- E quem é o felizardo?
- O Nuno… - disse meio a medo.
- Não conheço esse… quem é o rapaz?
- É filho de uma amiga da mãe…
- Que idade tem?
- Tem quinze anos…
- Quinze ? Olha lá que merda é esta tu tens nove anos. – disse eu quase histérico.
- Pai faço treze para a semana…
Treze? Treze? Para mim iria sempre ter nove… Aliás eu dizia a toda a gente que tinha nove. Para mim tem nove e mais nada.
- Que disse a tua mãe?
- Deu-me umas dicas e disse para quando tiver dúvidas falar com ela.
- Só isso? Começas a namorar e ela apenas diz isso. Deu-te umas dicas.
- Pai… nem te tenho visto. Só trabalhas e trabalhas. Querias que falasse com quem?
- Eu sei, desculpa. Logo falamos e porta-te bem com esse Bruno…
- Nuno pai, ele chama-se Nuno…
- Ou isso. Beijo, até logo. Chego cedo para conversarmos.
- Beijo. Até logo.
Via sair. Estava uma mulher. Uma mulher bonita como a mãe. Não tinha dado conta do que crescera. Senti-me triste, tinha perdido estas últimas semanas e meses da vida dela. Provavelmente os mais importantes. Tinha de parar e dar-lhe mais atenção.
Acelerei e meti-me no meio do trânsito para Lisboa, procurei aquele casal meio doido a ver se me animava a manhã… e ali estavam eles. Bem vindos sejam. Não se conseguia ouvir uma música de princípio ao fim, mas não importava, no meio da confusão, de todo aquele trânsito, valia tudo. Mesmo tudo. Quase que nem o toque do telemóvel ouvi.
- Tou… Miguel…
- Sim Cláudia diz…
- Vem ter comigo.
- Passa-se alguma coisa?
- Passa. Vem ter comigo.
- Estás onde? Em casa?
- Sim…
- Dez minutos. Até já.
Que se estaria a passar. Dei meia volta e fui em direcção a casa dela. Pela voz algo de estranho seria. Mil coisas me passaram pela cabeça. Seria o tal João que voltara do deserto, tal D. Sebastião. Só podia, nada de tão grave podia ser. Estacionei e subi a casa dela. Nem precisei tocar, a porta entre aberta já me esperava. Entrei e chamei-a.
- Cláudia…
- Estou no quarto, entra.
- Que se passa princesa?
Entrei no quarto e fui empurrado para o chão. Virei-me e deparei-me com um gajo mal-encarado, aparentemente drogado e fora de si.
- Passa-me a guita meu e não bufes!
- Tem calma meu… tudo bem, leva o que tenho…
- Nem meu, nem meio meu, passa tudo. Vá depressa. Esse relógio e o telemóvel. Vá despacha-te.
- Tem calma João. Leva tudo e vai-te embora. Por favor.
...
trigésima terceira parte

Nem acreditava no que fizera. Desci as escadas lentamente e tentei recordar. A imensidão de mãos, de bocas, de olhos, a mistura do cheiro. Por mais estranho que me sentisse continuava excitado. Imensamente excitado. Desci as escadas em passo de corrida e parei no passeio para sentir ao ar no rosto. Não me sentia tocar o chão. Na realidade não podia estar a tocá-lo. Nem acreditava no que me estava a acontecer. Na volta que a minha vida dera nos últimos dias, nas ultimas semanas.
Não sabia o que sentir. Se estaria no meio de um filme, de uma guerra ou de algo que ainda não percebera. Era quase fim de tarde, meti-me no carro e fui para casa. Precisava estar só. Muito só. Jantei no meio das aventuras da Ana, das histórias das colegas, de um mundo que me estava a passar ao lado. E fui-me enfiar no escritório.
Sentia voltarem os meus fantasmas, os meus medos, o meu passado. Percebia e não queria perceber. Mas algo de errado se estava a passar. Não era eu, não podia ser eu. Estranho era gostar do que se estava a passar. Gostar ou não, já nem isso sabia. Era tudo demasiado estranho.
Senti-me rodeado do meu velho companheiro, quente e frio, a cair no meu túnel. Sem volta, sem querer voltar. Sentia-me tremer, entrar num estado de ansiedade descontrolado e sem saber o que fazer. Corri à gaveta e engoli um comprimido velho conhecido. Esta merda tinha de passar, não podia ser real. Isto não podia voltar. Já tinha feito a minha travessia no deserto, não podia voltar. Não podia e não queria. Merda de vida esta. Que fui eu fazer. Merda. Merda. Merda.
Liguei o computador e entrei no chat quase por intuição. Queria parar de pensar. Tinha de parar de pensar.
- mensagem de menina34: olá miguel
- mensagem de menina34: estás bem
- mensagem para menina34: sim e tu
- mensagem para menina34: desculpa de momento nem sei quem és
- mensagem de menina34: lol
- mensagem de menina34: a Isabel
- mensagem de menina34: saímos uma vez
- mensagem de menina34: fomos à FNAC
- mensagem para menina34: desculpa Isabel
- mensagem para menina34: estava meio perdido
- mensagem de menina34: lol
- mensagem de menina34: eu notei
- mensagem de menina34: não gostaste mesmo de mim
- mensagem para menina34: desculpa
- mensagem para menina34: estava longe
- mensagem para menina34: problemas e mais problemas
- mensagem de menina34: tudo bem não tem mal
- mensagem para menina34: desculpa mais uma vez
- mensagem de menina34: queres falar ?
- mensagem para menina34: nem sei o que se passa
- mensagem de menina34: disseste: problemas mais problemas
- mensagem de menina34: podes falar
- mensagem de menina34: faz bem
- mensagem de menina34: acredita em mim
- mensagem para menina34: eu sei
- mensagem para menina34: mas nem sei o que tenho
- mensagem de menina34: tenta
- mensagem para menina34: a minha vida deu uma volta enorme
- mensagem para menina34: só isso
- mensagem de menina34: continua
- mensagem de menina34: estou aqui a ouvir
- mensagem de menina34: lol
- mensagem de menina34: ou melhor a ler…
- mensagem para menina34: a minha vida deu uma volta enorme
- mensagem para menina34: só isso
- mensagem para menina34: conheci montes de gente aqui
- mensagem para menina34: e fui com quase todas para a cama
- mensagem de menina34: comigo não… lol…
- mensagem para menina34: deves ter sido a única
- mensagem para menina34: de resto devo ter andado com todas
- mensagem de menina34: e ???
- mensagem para menina34: e não sou assim
- mensagem para menina34: nunca fui assim
- mensagem para menina34: e hoje sinto-me como se tivesse batido contra uma parede
- mensagem para menina34: vejo a merda toda que tenho feito
- mensagem de menina34: tem calma
- mensagem de menina34: há dias assim
- mensagem para menina34: para piorar comecei a namorar
- mensagem para menina34: e nem a ela a tenho respeitado
- mensagem para menina34: olha
- mensagem para menina34: nem sei que pensar
- mensagem para menina34: sinto-me mal com o que tenho feito
- mensagem para menina34: mas continuo
- mensagem para menina34: como se fosse uma droga
- mensagem para menina34: um vício que não consigo largar
- mensagem de menina34: sabes
- mensagem de menina34: aqui tudo é diferente
- mensagem de menina34: sem barreiras
- mensagem de menina34: sem fronteiras
- mensagem de menina34: habitua-te
- mensagem de menina34: um dia um rapaz mais velho
- mensagem de menina34: disse-me aqui no chat
- mensagem de menina34: bem vinda ao mundo paralelo
- mensagem de menina34: e é isso miguel
- mensagem de menina34: bem vindo ao mundo paralelo
- mensagem de menina34: aqui não há regras
- mensagem de menina34: vale tudo
- mensagem de menina34: ou quase tudo
- mensagem de menina34: e tens e vais encontrar de tudo
- mensagem de menina34: mulheres perdidas
- mensagem de menina34: casadas
- mensagem de menina34: divorciadas
- mensagem de menina34: fartas da vida que têm
- mensagem de menina34: dos maridos
- mensagem de menina34: dos filhos
- mensagem de menina34: de tudo
- mensagem de menina34: e pior que isso
- mensagem de menina34: que vão com duas cantigas
- mensagem de menina34: numa loucura qualquer
- mensagem de menina34: apenas para mudarem a vida
- mensagem de menina34: nem que seja por um segundo
- mensagem de menina34: por um minuto
- mensagem de menina34: é o mundo paralelo meu querido
- mensagem de menina34: bem vindo
- mensagem para menina34: não tinha pensado nas coisas assim
- mensagem para menina34: mas tens razão
- mensagem para menina34: procura-se aqui a felicidade
- mensagem para menina34: sem olhar a meios
- mensagem para menina34: sem olhar a fins
- mensagem para menina34: mas ela não está aqui
- mensagem para menina34: esta merda é mesmo um mundo paralelo
- mensagem para menina34: aqui não há nada
- mensagem para menina34: nem pode haver
- mensagem de menina34: haver há
- mensagem de menina34: criam-se amizades
- mensagem de menina34: já ouvi falar de casamentos
- mensagem de menina34: lol
- mensagem para menina34: lol
- mensagem de menina34: mas não deixará de ser um mundo paralelo
- mensagem de menina34: para 99% do pessoal
- mensagem de menina34: tem calma
- mensagem de menina34: isso passa
- mensagem de menina34: vai passar
- mensagem para menina34: já não sei nada
- mensagem para menina34: sinto-me mal
- mensagem para menina34: deprimido
- mensagem para menina34: só tenho feito merda
- mensagem de menina34: tens feito
- mensagem de menina34: mas pensa assim
- mensagem de menina34: fizeste a dois
- mensagem de menina34: houve uma outra parte
- mensagem de menina34: havia mais alguém
- mensagem de menina34: não foste só tu a querer
- mensagem de menina34: mais alguém quis…
- mensagem para menina34: eu sei
- mensagem para menina34: mas isso não apaga a merda que fiz
- mensagem para menina34: os erro que cometi
- mensagem para menina34: queria conhecer alguém
- mensagem para menina34: uma mulher
- mensagem para menina34: uma companheira
- mensagem para menina34: casar
- mensagem para menina34: ter mais filhos
- mensagem para menina34: não peço muito
- mensagem para menina34: e faço exactamente o contrário
- mensagem para menina34: ando de cama em cama
- mensagem para menina34: de mulher em mulher
- mensagem para menina34: e traio a mulher que pode vir a ser mãe dos meus filhos
- mensagem para menina34: queres que me sinta bem?
- mensagem de menina34: tem calma
- mensagem de menina34: é pior morrer
- mensagem de menina34: estás vivo
- mensagem de menina34: estamos vivos
- mensagem de menina34: e isso é bom
- mensagem de menina34: muito bom
- mensagem de menina34: nós nem a isso sabemos dar valor
- mensagem de menina34: procuramos tudo
- mensagem de menina34: em todo lado
- mensagem de menina34: e o mais simples
- mensagem de menina34: o mais bonito
- mensagem de menina34: deixamos escapar entre os dedos
- mensagem de menina34: alegra-te rapaz
- mensagem de menina34: pára
- mensagem de menina34: e tenta descobrir o melhor para ti
- mensagem de menina34: e aprende a viver neste mundo paralelo
- mensagem de menina34: é só isso que te falta
- mensagem de menina34: viver neste mundo
- mensagem de menina34: saber sobreviver neste mundo paralelo
- mensagem de menina34: lol
- mensagem para menina34: lol
- mensagem para menina34: obrigado
- mensagem de menina34: ora essa
- mensagem de menina34: por quem sois
- mensagem de menina34: sempre disponível para o meu amigo
- mensagem para menina34: obrigado a sério
- mensagem de menina34: lol
- mensagem para menina34: lol
- mensagem de menina34: tens o meu número
- mensagem de menina34: se quiseres liga
- mensagem de menina34: beijo
- mensagem para menina34: beijo

Olhei as horas, desliguei o computador e enfiei-me na cama. A Isabel tinha razão tinha de saber viver neste mundo paralelo. Como se de duas vidas se tratasse. Como se dois eus existissem. E aprender a parar, a dizer não, a saber fazer escolhas. A saber o que era bom para mim e o que era menos bom ou mesmo mau para mim.
Senti fugir a ansiedade, desanuviar-se o nevoeiro e deitei-me bem comigo mesmo. Tudo ia mudar. Tinha de mudar.
trigésima segunda parte

O fim-de-semana passara num instante. Meio anestesiado com aquela história, quase não dormi de domingo para segunda-feira. E aí estava mais uma semana de trabalho.
- Bom dia Judite…
- Bom dia engenheiro…
- Algum recado?
- Nada de importante, uma chamada do Porto e imensas dos Açores. Tem tudo anotado na secretária. Quer café?
- Sim pode ser.
Entrei na minha sala sem vontade de nada. De mesmo nada, mas tinha de ser. Procurei um CD mas nada que me agradasse. Sintonizei uma rádio e deixei ficar.
Sorri com metade das barbaridades que ouvia na rádio e pensei que fizeram bem escolher o rádio. Um casal de locutores não dizia duas seguidas, mas lá tinham a sua piada, e numa segunda-feira como esta, marchava tudo.
Enterrei-me no trabalho e deixei correr a manhã. Como se nada fosse, como se nada me tivesse sido aberto.
- Sr. Engenheiro, a Dra. Rute Sampaio na linha três.
- Passe…
Só cá faltava esta pensei para comigo…
- Bom dia engenheiro…
- Bom dia… novidades?
- Sim algumas. Podemos almoçar?
- Hoje? Complicado.
- Não te faças de difícil, quero falar contigo.
- Grandes avanços. Que novidades são essas? - perguntei para disfarçar.
- Vá não te faças de difícil, conheço um restaurante novo muito giro…
- Eu conheço muitos… e muito mais giros… - disse levando a conversa para a brincadeira.
- Quero que me comas toda…
Ai a minha mãe. Estas mulheres são piores que nós. Mas que raio de abordagem. Que a coma toda? Bem. Até comia, tinha sido muito boa a outra noite, mas assim, vindo do nada. Sem mais nada a adocicar.
- Onde e a que horas?
- No mesmo hotel? – ouvia dizer já meio eufórica.
- Sim. Mas pago eu.
- Concordo. Meia hora?
- Ok. Dentro de meia hora.
Bonito. São onze da manhã e vou para um hotel com a advogada que gere um dos maiores problemas da empresa. De facto não posso andar com o juízo todo. Não posso mesmo.
- Judite, desmarque a agenda e o mais importante passe para a Arquitecta Sónia. Não devo voltar tão depressa.
- Sem problema. Posso contactar em caso de urgência?
- Claro que sim. Até já.
Saí sem pensar. Mas a ideia de estar com a Rute agradava-me. Tinha sido bom e queria repetir. E repetir muitas vezes. lol. Devo estar louco mas que se lixe. Um toque de mensagem despertou estes devaneios:
”vem até minha casa tenho uma surpresa… filipa”
Grande merda. E não podia ser noutra altura. Tinha de ser logo agora. Merda. Isto só mesmo a mim. Agarrei no telemóvel e liguei a Rute.
- Estou Rute, surgiu um imprevisto e não posso ir, desculpa.
- Algo de grave?
- Sim. Um amigo com problemas. Depois falamos. Beijo.
Toca de inverter a marcha e voltar para Lisboa. Lapa, lá vou eu. A curiosidade quase me apertava o estômago, com aquela sensação meio estranha de algo de bom iria acontecer. Ou de mau, nunca se sabe. Tentava recordar as conversas com a Filipa, mas nada me vinha à cabeça. Pensei para comigo não há-de ser nada e lá fui.
Subi a escada devagar para não chegar cansado e bati ao de leve à porta.
- Um minuto, já vou. – ouvi, alguém gritando lá de dentro.
A porta abriu-se finalmente e ali estava ela a louca da Filipa, de camisa de noite e aparentemente nada por baixo. Meteu-se por detrás de mim e vendando-me os olhos, levou-me para a sala.
- Surpresa… - disse destapando-me os olhos. – Esta é a Rita, uma amiga de curso…
- Olá Rita, tudo bem?
- Olá Miguel. Sim e contigo.
- Também.
- Vá meninos, toca a despir, é dia de sexo a três… - disse a Filipa tirando a camisa e confirmando as minhas suspeitas. Nada tinha por baixo.
- Era esta a surpresa? – perguntei eu com as duas já à minha volta.
- Vá cala-te e deixa-te de merdas…

domingo, julho 23, 2006


trigésima primeira parte

O sol entrava por duas ou três filas irritantes dos estores. Olhei o relógio e eram quase nove da manhã. Senti um corpo nu ao meu lado. E aconcheguei-me. Adorava a sensação do corpo nu, quente e a colar-se ao meu.
Rodei na cama para ficar de frente para ela e adorei o rosto dela. Era fantástico. Meio brilhante, bem delineado e muito bonito. Deixei descair o lençol, passei a mão pelo peito e pela barriga. Encolheu-se e abriu os olhos.
- Bom dia princesa.
- Bom dia amor. – disse sem saber muito bem onde estava.
- Sou eu. – disse eu meio a brincar.
- Eu sei parvinho. Estou cheia de sono. Deixa-me dormir um bocadinho mais. – disse-me virando-se ao contrário. – encostas-te a mim.
- Assim, bem aconchegado? – disse eu aproveitando-me da situação e meio a rir.
- Sim amorzinho. – disse já de novo meio adormecida
- Dorme princesa.
- Amo-te muito João.
João? João? João? Foda-se. Que merda é esta. Mas quem raio é este João, afastei-me ligeiramente e estive para a acordar. Para a questionar naquele exacto momento. Mas senti-a a dormir profundamente e nada disse. Afastei-me mais um pouco e saí da cama.
Fui para a casa de banho e olhei o espelho. João ? Mas que merda é esta. Passaram mil imagens, mil histórias, mil confusões. Que raio, quem seria este João. Por dentro algo me roía. Não conhecia este sentimento, esta dor que vinha não sabia bem de onde. Desci ao escritório e abri uma das gavetas, tirei uma caixa velha conhecida e olhei a validade. Tirei dois comprimidos e meti-os na boca. Em passo largo fui à cozinha e bebi água.
Olhei a serra entre a janela. O velho monte da lua. Que tantas vezes me ouvira, que tantas outras me protegera e que agora nada dizia. Saí ao terraço e esperei ouvir o vento, o sol ou a lua mas nada. Estava só.
Subi ao quarto e acordei-a. Não aguentava mais.
- Cláudia acorda...
- Fogoooooooo. Estás chato hoje…
- Quem é o João, ou quem foi o João na tua vida?
- Que João, tás parvo ???
- Acabaste de me chamar João.
Olhei-a nos olhos e sentia-a fugir. Como se fosse possível fugir pelos pequenos raios de sol que entravam pela janela. Mas fugiu, estava longe. Muito longe. Fiquei a olhá-la e nada saiu. Aguardei uns instantes e nada. Nada mesmo.
- Estás bem? – perguntei a ver se a fazia voltar.
- Sim estou. Desculpa. Estava longe…
- Sim. Notei que estavas… queres falar sobre isso… sobre essa viagem e essa cara triste?
- Não é triste. É voltar a uma história que quase estava esquecida. Apenas isso.
- Estou pronto a ouvir.
Notei-a imensamente nervosa, como se dali viesse uma história de dragões e princesas. Acalmei-a e disse-lhe que estava tudo bem. Era passado. Podia falar e confiar em mim.
O João tinha sido o único homem da vida dela. Namorado dos 16 anos até os pais a mandarem para Lisboa. O homem da vida. A paixão que não se esquece, por ser a primeira, por ser a da descoberta, por ser a mais bela. Fui escutando, como uma criança escuta uma história de adormecer. Sem maldade, sem duvidar. Mas fui obrigado a exclamar:
- É bonito sem dúvida, mas porque fugiste? Estavas distante, presa a algo mais que isso.
- Sabes, quando meu pai me mandou para Lisboa, eu estava grávida. Só nós dois sabíamos. Estive um mês sozinha e ele veio depois. Os meus pais deixaram de o ver na terra e suspeitaram, e vieram sem nós esperarmos. Apareceram uma noite em casa. E o meu pai ia-o matando, ao tentar socorrê-lo, no meio da confusão, caí e perdi o bebé. Só nessa altura os meus pais souberam. Num hospital, dito por um médico que tinham perdido uma neta. A gravidez era já de cinco meses… - disse com as lágrimas a correrem pela face.
- Que aconteceu ao João? - perguntei meio incrédulo com tudo.
- O João desde essa noite, depois de saber a noticia, nunca mais soube nada dele. Evaporou-se. Nem na terra os pais sabem de alguma coisa. O dele entretanto morreu e ele nem ao funeral veio…
- Queres que te vá fazer um chá? Buscar um copo de água?
- Estou bem. Não precisas. – disse a limpar o rosto. – É esta a minha história. Agarrei-me aos estudos, ao trabalho no banco e segui a minha vida. Foste o segundo homem da minha vida…
- E se o João um dia voltar?
- Se voltar volta. Não me diz nada. Há muito tempo que não me diz nada. Deixou de dizer. Não se foge assim de uma paixão, de um amor. Olho para trás e sei, sinto que os meus pais tinham razão. Éramos muito novos, eu tinha dezoito, ele vinte.
- Mas os teus pais mudaram muito, nunca os encaixaria nesta história.
- O aborto foi complicado, estive entre a vida e a morte. Salvei-me eu mas o bebé não teve a mesma sorte. Os meus pais também cresceram com tudo aquilo. O mais complicado foi quinze dias depois, na saída, procurei o João e nada dele. Em lado nenhum. Até hoje, nunca mais soube nada dele.
Abracei-a forte, e apeteceu-me dizer que eu nunca fugiria. Mas calei-me. Apenas sussurrei: Está tudo bem agora, eu estou aqui.
trigésima parte

- Dormes de que lado da cama ? – perguntei-lhe enfiando uma t-shirt.
- Qual preferes ? Nunca pensei nisso.
- Eu prefiro que fiques ao meio virada para cima. – disse soltando uma gargalhada.
- Eu prefiro ao meio de gatas… - disse a Cláudia entrando na brincadeira.
- Hum… estamos de acordo, mas de aqui a uns anos não me apareças a miar…
Naquele momento, senti um aperto no estômago. Estava a ser incorrecto com ela e com todas as outras. Dizia ser divorciado e não sabia até que ponto as podia estar a iludir: Divorciado era, mas a namorada e com estes planos todos, quase me deveria considerar casado.
- Posso perguntar-te uma coisa princesa?
- Claro, esqueceste a nossa combinaçãozinha?
- Não, desculpa. Tens razão. Sabes, estava para aqui a pensar aonde tudo isto irá dar. O que acontecerá no futuro. Casar, viver juntos, sei lá. Já pensaste nisso ou nestas coisas? – disse enfiando-me na cama.
- Já. Mas nem sei que te diga. Adorava casar, não te vou mentir. Adorava ter mais filhos. Mas acho que o mais quero é ser amada e amar muito. Muito mesmo.
- Eu também. De facto é isso mesmo que quero. Hum… gostas de cócegas? Vou-te atacar…
- Não, amor olha que eu mijo-me toda…
- Então mija… - disse eu saltando para cima dela e começando o ataque.
- Pára, pára, faço tudo o que quiseres…
- Fazes mesmo?
- Mesmo… mesmo juro. – disse ela metendo uma cara muito séria.
Olhei-a nos olhos e sem pensar, saltei da cama e fui buscar a máquina digital ao escritório. Subi a correr e saltei de novo para a cama.
- Deixa-me fotografar-te nua…
- Sem nada, nadinha?
- Sim, sem nada…
Puxei a roupa da cama para os pés da cama e fui tirando fotos umas atrás das outras. Nos pormenores que ia destapando, nas peças de roupa que voavam sem sentido ou direcção. Perdi-me nos ombros. Depois no peito e nas ancas. Finalmente, perdi-me no corpo nu que tinha à minha frente.
Sentia-a ficar excitada, senti-me ficar excitado. E continuei, apanhando cada pedaço dela, sem dar conta que já era a minha t-shirt que voava, que já eram as mãos dela dentro dos meus boxers. A máquina aterrou suavemente em cima da roupa aos pés da cama. E continuei descobrindo cada pedaço do corpo dela. Cada rectângulo que guardara minutos antes.
- Somos loucos. – disse-lhe caindo estourado na cama.
- Eu sei. – disse ela saltando para cima de mim. – Mas quero mais…
- Não sei se vais conseguir. Já esta foi o que foi…
- Confia em mim… - disse deslizando por cima de mim.
Tentei concentrar-me e corresponder às expectativas. Abstraí-me de tudo e deixei-me ir. Na minha cabeça, corriam imagens de outros tectos, de outros locais, de outras mulheres. E sem dar conta estava de novo em acção.

sábado, julho 22, 2006

vigésima nona parte

A vida toma rumos complicados. Ou seremos nós a criá-los. Já não sei. Olhava o tecto de uma casa estranha, uma decoração engraçada e uma mulher nua ao meu lado. Sentia-lhe o cheiro, misturado com o meu, meio doce, meio quente, e senti-me perdido. Imensamente perdido.
Olhava uma borbulha no peito dela e senti vontade de correr: Tudo estava fora de controlo e senti-me mal. Acusava o Filipe de uma vida que nunca faria e estava pior que ele. Bem pior.

Senti a mão quente dela no meu peito e por magia deixei de pensar. Foi mágico, vindo do nada, tudo se foi, tudo se apagou, tudo perdeu vontade de pensar. Bem, tudo, tudo não. lol.
”aonde andas ??????”
Merda. Merda. Merda. Esquecera-me da Cláudia. Bonito e agora que iria dizer. Sem pensar, mandei uma mensagem, a dizer que viera ver uma obra a Lisboa e estava no trânsito. Com receio que ligasse, mandei outra a dizer que estava sem bateria mas que demorava, quinze minutos.
Bem teria a desculpa do IC19, embora não fosse por lá muitas vezes, arranjaria uma desculpa. Num ápice, vesti-me e saí. Quase sem tempo de nada dizer ou justificar. Apenas duas frases perdidas. Um depois ligo-te e adorei. Ou algo do género. Estava lixado. Nem consegui pensar. Que merda.
Pelo caminho, corria-me tudo na frente dos olhos. Não estava a habituado a mentir. Mas pensei para comigo: é simples tem calma, vamos fingir que estamos a dar um preço, e tudo vai correr bem. Esta ideia aliviou-me, nisso era bom e assim seria mais fácil mentir.
Meti-me na volta saloia e em vinte minutos estava em casa. A Cláudia estava no jardim com a Ana e os dois cães, no terraço a D. Madalena contemplava as duas e topou o meu ar atrapalhado, mas entrou para dentro e nada disse.
- Olá princesas… Desculpa amor, mas ligaram de Carnaxide e tive de ir lá e esqueci-me de ti. – disse sem corar e com um ar cansado.
- Não faz mal, tás cansado, vai trocar de roupa eu e a Ana vamos ajudar a pôr a mesa. – disse dando-me um beijo meigo e terno nos lábios.
- Olá paizão, tás fixe?
- Sim, princesa. Deixem-me ir tirar o pó da obra e volto já.
Subi ao terraço de três em três degraus, e cumprimentei a D.Madalena, sem se virar comentou a correr:
- Troque de roupa e meta um perfume. A sua princesa trouxe roupa e vai cá dormir.
- Vou tomar um duche rápido, estava muito pó na obra… - disse saindo da cozinha, para não obter resposta.
Já me conhecia e topara que algo de anormal se passara. Sorri e subi a escada. O pensamento de que ainda iria cheirar a minha roupa inquietou-me. Mas nem pensei mais. Despi-me e duche comigo.

Não sabia o que sentir a água quente na cara impedia o que quer que fosse. Sentia-me mal, ou melhor nem sentia nem bem nem mal. A Filipa era um mulherão, tinha valido a pena, ou melhor nem teria valido, a Cláudia era uma miúda impecável e não merecia nada disto. Que se lixe. Não há-de ser nada.
Olhei para o lado e assustei-me a presença da Cláudia atrapalhou-me e fiquei sem saber o que dizer.
- Estás cansado amorzinho? – disse ela muito meiga e doce.
- Sim, mesmo cansado. – disse, sem a olhar nos olhos. – Aquela obra ainda me vai fazer perder muito tempo.
- Tem calma, relaxa. Vem aí o fim-de-semana. Podes descansar. – disse não abandonando aquele ar calmo e meigo. – Que tal irmos jantar com calma, vermos um filme e umas massagens antes de dormires?
- A D.Madalena disse-me que trouxeste roupa…
- Se quiseres não durmo…
- Não sejas tonta, claro que quero. Apenas tudo isto é novo e está a acontecer depressa demais. Desculpa. – disse eu da mesma forma: calmo e meigo. – Fazes-me bem. Muito bem.
- Tu a mim também. Vá seca-te e anda comer.
- Pensei que me fosses secar. – disse sorrindo.
- Ai que o menino não presta. – disse ao sair, continuando a sorrir e atirando-me a toalha. – Vá despache-se.
Não sabia se tinha suspeitado, ou percebido algo. Receava o famoso sexto sentido das mulheres. Mas iria ser cuidadoso e gentil o resto da noite, não fosse o diabo tecê-las.
vigésima oitava parte

Uma nova mensagem despertou-me para a vida:
”quero estar contigo”
Boa. Alguém tirou o dia para me gozar. Mas quem será. Fechei os olhos para pensar, mas uma nova mensagem mos fez abrir:
”quero estar contigo, vou baldar-me às aulas, prepara o jacuzzi”
Fogoooooooooo. Estava a ver que não. Dei comigo a sorrir e a pensar na vontade de mistério das primeiras mensagens. Recostei-me na cadeira e imaginei-me com a Cláudia no jacuzzi. Imaginei o corpo dela, nu diante de mim. Gostava da sensação de a ter por cima de mim. Como se fosse minha dona, como se pudesse fazer de mim o que quisesse.

- mensagem de sonia_s: fugiste ?
- mensagem para sonia_s: não e tu
- mensagem de sonia_s: com vontade de fazer amor
- mensagem para sonia_s: eu também
- mensagem de sonia_s: que fazemos
- mensagem para sonia_s: estás doente…
- mensagem de sonia_s: quase curada
- mensagem para sonia_s: lol
- mensagem de sonia_s: nem sei como és
- mensagem para sonia_s: nem eu como tu és
- mensagem de sonia_s: como fazemos ?
- mensagem para sonia_s: o quê ?
- mensagem de sonia_s: para fazer
- mensagem para sonia_s: sexo ?
- mensagem de sonia_s: amor
- mensagem para sonia_s: isso faz-se assim
- mensagem de sonia_s: apetece-me muito
- mensagem para sonia_s: a mim também
- mensagem de sonia_s: vem ter a minha casa
- mensagem para sonia_s: lol
- mensagem para sonia_s: e se eu for um malfeitor ?
- mensagem para sonia_s: lol
- mensagem de sonia_s: és ?
- mensagem para sonia_s: não
- mensagem de sonia_s: então vem
- mensagem para sonia_s: isto não é normal
- mensagem de sonia_s: eu sei
- mensagem para sonia_s: então paremos por aqui
- mensagem de sonia_s: porque
- mensagem para sonia_s: porque isto não é normal
- mensagem de sonia_s: só por isso
- mensagem para sonia_s: achas pouco ?
- mensagem de sonia_s: acho
- mensagem para sonia_s: porque
- mensagem de sonia_s: tenho vontade tu tens vontade fazemos e pronto
- mensagem para sonia_s: e resolve-se assim ?
- mensagem de sonia_s: é uma das soluções
- mensagem de sonia_s: queres ?
- mensagem para sonia_s: quero
- mensagem de sonia_s: vem a minha casa
- mensagem para sonia_s: ainda tens o namorado atrás da porta
- mensagem para sonia_s: lol
- mensagem de sonia_s: lol
- mensagem de sonia_s: fazíamos a três
- mensagem para sonia_s: fazias ?
- mensagem de sonia_s: a três ?
- mensagem para sonia_s: sim
- mensagem de sonia_s: fazia, aliás já fiz…
- mensagem para sonia_s: e ???
- mensagem de sonia_s: foi bom
- mensagem de sonia_s: estava bebida
- mensagem de sonia_s: em casa de dois amigos
- mensagem de sonia_s: e alinhei
- mensagem de sonia_s: estranho de princípio
- mensagem de sonia_s: mas foi bom
- mensagem de sonia_s: repetia
- mensagem para sonia_s: ok
- mensagem de sonia_s: não me julgues uma qualquer
- mensagem para sonia_s: não disse nada
- mensagem de sonia_s: pensaste que é bem pior
- mensagem para sonia_s: não pensei
- mensagem de sonia_s: ok
- mensagem de sonia_s: em que ficamos
- mensagem de sonia_s: vens ?
- mensagem para sonia_s: vou
- mensagem de sonia_s: anota
- mensagem de sonia_s: é perto da Lapa

Isto está a complicar-se. Mas que se lixe. Nem pensei em mais nada. Meti-me no carro. Saí e fui em direcção ao centro da cidade. Nem sabia quem era a Filipa. Como seria. Apenas uma morada e um numero de telefone. Devo estar louco, pensei. Mas lá fui. Tudo na minha vida tinha mudado. E que mudanças.

sexta-feira, julho 21, 2006

vigésima sétima parte

Acordei sem sono, mesmo dormindo pouco mais que quatro horas. Era sexta-feira e descobri dentro de mim pouca vontade de ir trabalhar. Levantei-me, fui ao quarto da Ana e disse-lhe que a levava à escola. Ficou radiante, acabando com o sossego da manhã em casa.
Parecia dia de festa, sorri e pensei que o devia fazer menos vezes. Mas lá alinhei na festa. A D.Madalena agradeceu a minha oferta, porque assim teria mais tempo para a praça, já que ao sábado era infernal lá ir.
Brincámos com a dieta que iríamos fazer. E lá fui levar a Ana à escola. O jantar como era de prever foi o tema daquela meia hora. E suspirei de alívio ao deixá-la na escola. Precisava de tempo para mim. Muito tempo, e voltei para casa. Começava a primavera, seriam raros os dias agora que teria o meu nevoeiro.
Liguei ao escritório, e a Judite deixou-me descansado. Nada me perturbaria. Ainda bem, era mesmo isso que precisava. A chegar a casa, um toque de mensagem, ligou-me ao mundo.
”quero estar contigo”
Boa, não sei quem enviou. Não aparece destinatário. Tentei responder, a ver se dava, mas nada, e apaguei a mensagem. Como chegou, assim a esqueci. Mas fiquei inquieto, estranho. Pouco mais eram que dez da manhã. Mas como que impulsionado por uma mola lá liguei o computador.

- mensagem de sonia_s: oi
- mensagem para sonia_s: olá
- mensagem de sonia_s: de onde teclas ?
- mensagem para sonia_s: lisboa e tu
- mensagem de sonia_s: tambem
- mensagem de sonia_s: idd ?
- mensagem para sonia_s: 33 e tu
- mensagem de sonia_s: 25
- mensagem para sonia_s: não téclamos já ???
- mensagem de sonia_s: não creio
- mensagem para sonia_s: és capaz de ter razão
- mensagem para sonia_s: mas quase que diria que sim
- mensagem de sonia_s: como te chamas
- mensagem para sonia_s: miguel e tu
- mensagem de sonia_s: Filipa
- mensagem para sonia_s: prazer Filipa
- mensagem de sonia_s: prazer miguel
- mensagem para sonia_s: a trabalhar ?
- mensagem de sonia_s: de gripe em casa e tu
- mensagem para sonia_s: não me apeteceu
- mensagem de sonia_s: grandes vidas
- mensagem para sonia_s: tens razão devia ir mas estou estourado
- mensagem para sonia_s: e a semana foi complicada
- mensagem de sonia_s: acredito
- mensagem para sonia_s: que fazes na vida
- mensagem de sonia_s: estudo e trabalho e tu
- mensagem para sonia_s: engenheiro civil
- mensagem para sonia_s: que estudas e trabalhas
- mensagem de sonia_s: para professora e sou educadora de momento
- mensagem para sonia_s: vida complicada
- mensagem de sonia_s: sim
- mensagem de sonia_s: sou eu e a minha mãe e está desempregada
- mensagem para sonia_s: pois, mais uma
- mensagem de sonia_s: e com esta idade ninguém lhe dá trabalho
- mensagem para sonia_s: eu sei
- mensagem para sonia_s: todos preferem mais jovens
- mensagem de sonia_s: que gostas de fazer na vida
- mensagem para sonia_s: um pouco de tudo e tu
- mensagem de sonia_s: sobra-me pouco tempo
- mensagem para sonia_s: queixo-me do mesmo
- mensagem para sonia_s: falta de tempo
- mensagem de sonia_s: namoras ?
- mensagem para sonia_s: não e tu
- mensagem de sonia_s: também não
- mensagem de sonia_s: tens defeito
- mensagem para sonia_s: acho que não e tu
- mensagem de sonia_s: também não
- mensagem para sonia_s: lol
- mensagem de sonia_s: lol

Sem me dar conta, tinha mentido. Matutei naquela negação e estive para lhe dizer que namorava. Mas nada iria mudar. Era preferível manter o que dissera. De todas as conversas esta tinha sido diferente, não sei porquê. Mas tinha sido. Ou estava a ser.

- mensagem para sonia_s: em que pensas ?
- mensagem de sonia_s: nada e tu
- mensagem para sonia_s: isso não é resposta
- mensagem para sonia_s: algo pensarias
- mensagem para sonia_s: combinemos não mentir
- mensagem para sonia_s: e contar tudo ? alinhas ?
- mensagem de sonia_s: sim
- mensagem de sonia_s: alinho
- mensagem para sonia_s: sejamos uns livros abertos
- mensagem de sonia_s: ok sejamos
- mensagem para sonia_s: lol
- mensagem de sonia_s: lol

Isto está a ficar bonito. Sem querer, estava excitado, com uma vontade estranha de sair de casa e ir de encontro aquela rapariga. Era estranho, tive para lhe dizer que ia embora, trabalhar, sai. Mas fiquei, e subi a parada.

- mensagem para sonia_s: falar de tudo sem limites ?
- mensagem de sonia_s: é esse o acordo
- mensagem de sonia_s: estás à vontade
- mensagem para sonia_s: ok
- mensagem de sonia_s: e então
- mensagem de sonia_s: não dizes nada
- mensagem para sonia_s: apetece-me falar de sexo
- mensagem para sonia_s: saber a tua vida
- mensagem de sonia_s: pergunta
- mensagem de sonia_s: combinamos abertura e sinceridade
- mensagem de sonia_s: vamos a isso
- mensagem para sonia_s: quantos namorados até hoje ?
- mensagem de sonia_s: 3 e tu
- mensagem para sonia_s: 4
- mensagem de sonia_s: lol
- mensagem para sonia_s: lol
- mensagem para sonia_s: todos com sexo ?
- mensagem de sonia_s: sim todos tiveram sexo comigo
- mensagem de sonia_s: mas prefiro dizer amor
- mensagem de sonia_s: sexo é frio
- mensagem para sonia_s: alinhas em tudo na cama ?
- mensagem de sonia_s: sim
- mensagem para sonia_s: o que é sim ?
- mensagem de sonia_s: não tenho tabus
- mensagem para sonia_s: anal ? oral ?
- mensagem de sonia_s: alinho em tudo
- mensagem de sonia_s: mesmo tudo
- mensagem para sonia_s: uma loucura que tenhas feito
- mensagem de sonia_s: deixa-me pensar
- mensagem para sonia_s: pensa
- mensagem de sonia_s: fotos de sexo com o segundo namorado
- mensagem para sonia_s: lol
- mensagem para sonia_s: gostaste ?
- mensagem de sonia_s: sim
- mensagem de sonia_s: foi excitante
- mensagem de sonia_s: muito excitante
- mensagem para sonia_s: lol
- mensagem de sonia_s: aliás
- mensagem para sonia_s: diz
- mensagem de sonia_s: estou excitadíssima agora
- mensagem de sonia_s: e tu
- mensagem de sonia_s: estás ?
- mensagem para sonia_s: não diria excitado
- mensagem de sonia_s: então ?
- mensagem para sonia_s: com vontade
- mensagem de sonia_s: muita ?
- mensagem para sonia_s: sim
- mensagem de sonia_s: pena esta gripe
- mensagem para sonia_s: lol
- mensagem de sonia_s: lol

Parara no tempo. Sem dar conta passava já da hora de almoço. Estava perdido com alguém que nem conhecia, com a qual provavelmente nunca me iria cruzar. Mas ali, estávamos mais próximos que qualquer casal. Mais íntimos que muitos namorados, e continuámos. Louco, como nunca me imaginara. Por momentos preso no tempo.
Na tal viagem ao principio do tempo. Onde não há nada. Nem antes nem depois. Nada. Como se vindo do nada estivesse separado dela pelo écran, com a vontade de meter a mão no azul que estava à minha frente e puxá-la para mim. Para fazer amor ali. No chão, no ar, no cabo que nos ligava e tornava tudo tão fascinante.
vigésima sexta parte

Passamos à sala. Sentia tudo rápido demais mas estava feliz. Sentia-me feliz e contente, sem saber exactamente porquê, mas sentia. Momentâneo ou não, a verdade é que fazia tempo que não me sentia assim.
A Cláudia estava radiante, nunca a vira tão feliz. Aliás, nunca a imaginar tão maternal, tão meiga e tão preocupada com a Ana e comigo. Sabia-a responsável e muito adulta. Mas estava a surpreender-me imenso.
- Miguel posso fazer-lhe uma pergunta mais íntima ?
- Sim, claro. Diga Sr. João.
- Tire o Senhor. Quer ter mais filhos ? – disse ansiando a minha resposta.
- Os que a Cláudia quiser. – disse sem pensar.
- Muito bem, temos genro! – exclamou, voltando a soltar mais uma forte gargalhada.
- Estaremos por Lisboa mais uns dias, se quiser podíamos encontrarmo-nos mais vezes, que me diz ? – perguntou a Nandinha.
- Claro, quando quiserem. – disse eu olhando para a Cláudia, e notando nela um ar de aprovação do tamanho do mundo.
A noite acabou, com as mulheres na cozinha a tagarelar sobre casamentos, e nós no escritório a falar de negócios. Da impressão inicial, o Sr. João, ou melhor o João tinha conseguido mudar quase tudo. Homem de negócios batido e experimentado, tinha sabido investir o que ganhou em França. Soube expandir, e diversificou. Exactamente a minha filosofia. Não acreditava neste governo, mas também só acreditava nele.
Ao segundo copo de James Martin’s, já me contara quase tudo. Até demais achava eu, Mesmo sem querer continuava a não contar nada de mim, ou o menos possível. Quisera saber a minha cor politica, mas desviei o assunto e nas entre linhas desculpei-me com saber o geral e o essencial de politica. Sobre os negócios da empresa aflorou, mas apercebeu-se que nada era adiantado e foi percorrendo o passado e contando histórias de negócios.
Perto da uma da manhã, lá se decidiram ir. E entre um beijo, disse à Cláudia para me ligar mal chegassem. A Ana quase dormia, e bastou deitá-la na cama. Desci e sentia-me estranho, quase a voar para o altar. Abri a porta do terraço, olhei a serra e pensei: fazes-me falta.

Nesta turbulência toda esquecera o meu nevoeiro, as histórias que me contava e todos os lugares onde me levara. Estranhava como em segundos a vida pode mudar. Cruzei os braços e deitei-me na cama de rede. Não me sentia completo. Depois de tudo, algo me faltava. Algo não encaixava. Não era possível ter deixado uma monotonia do tamanho do mundo, viagens fantasmagóricas e loucas, e num ápice planear uma vida normal e pacata.
Planear ou estarem a planear para mim. Sem correr nenhuma aragem este pensamento gelou-me. Que se estaria a passar. Algo me estava a ultrapassar no meio disto tudo. Mas deixei fugir o medo. Estava sem sono e voltei ao escritório. Levei os dois copos à cozinha. E liguei o computador. Queria ter sono, mas não tinha. E esperei que chegasse.

- mensagem de fofinha5: estava com saudades tuas
- mensagem para fofinha5: procurei-te mas não te vi
- mensagem de fofinha5: é complicado
- mensagem de fofinha5: ele não me largou naquela noite
- mensagem para fofinha5: entendo
- mensagem para fofinha5: como estás
- mensagem de fofinha5: estou bem e tu
- mensagem para fofinha5: também
- mensagem de fofinha5: e a foto
- mensagem para fofinha5: gostei
- mensagem de fofinha5: mentiroso
- mensagem para fofinha5: a sério que gostei
- mensagem de fofinha5: não vale mentir
- mensagem para fofinha5: não me conheces
- mensagem para fofinha5: mas não sou de fazer favores
- mensagem de fofinha5: ainda bem
- mensagem para fofinha5: és bonita
- mensagem de fofinha5: não me iludas
- mensagem para fofinha5: não estou a iludir
- mensagem de fofinha5: ok
- mensagem para fofinha5: adorei ver-te
- mensagem para fofinha5: e quase corri o teu corpo com os olhos
- mensagem de fofinha5: mentiroso
- mensagem para fofinha5: eu a falar verdade e tu não acreditas
- mensagem de fofinha5: se o dizes
- mensagem para fofinha5: adorei, a sério
- mensagem de fofinha5: numa frase
- mensagem de fofinha5: resume o que achaste
- mensagem para fofinha5: comia-te toda…
- mensagem de fofinha5: lol
- mensagem para fofinha5: lol

quarta-feira, julho 19, 2006

vamos a meio do nosso romance

altura de balanços, lol lol lol

mails para: apenasparasexo@sapo.pt

e mais uma parte...

vigésima quinta parte

Eram sete e pouco quando chegámos a casa. Notava a Cláudia diferente e senti que estava mais inibida pela presença dos pais. Não consegui tirar os olhos dela, nem daquele corpo fantástico, que estava debaixo daquele vestido.
Fiz as honras da casa e apresentei tudo da cave ao sótão: Sabia que por ali não deixariam de gostar de mim. Mas quase a terminar, pensei para mim que fizera mal. Teriam de gostar de mim pelo que sou. Não pelo que tenho.
Sempre muito formais, os pais dela quase não soltavam uma palavra. Senti o estacionar de um carro e demorei um pouco mais no quarto da Ana. Seria o anel a chegar e não quis que descobrissem. A D.Madalena trataria de tudo, como sempre.
Descemos para o salão do rés-do-chão, e senti uma solenidade no ar, muito estranha para o meu gosto…
- Presumo Miguel que me queira falar em particular. - disse finalmente o criador da solenidade.
- Penso que não seja necessário Sr. João. Não sou de me envergonhar, ou de corar a falar. Entramos para a sala de jantar ?
- Sim claro, as meninas e senhoras primeiro. – disse ele apercebendo-se que eu não dava parte de fraco.
- Tem uma casa muito bonita Miguel. – disse a Nandinha, Fernanda, mas tudo bem que seja a Nandinha.
- Vantagens de profissão e uma grande ajuda da minha filha.
A Cláudia nada dizia. E tudo aquilo me começava a enervar. Levantei-me e fiz sinal à Cláudia para me acompanhar. Pediu licença ao Pai e segui-me.
- Que merda é esta princesa ?
- Desculpa amorzinho, é a parte negra da família, os meus pais souberam que namorava e vieram a correr para Lisboa.
- Tudo bem, como queres que aja. E os trate ?
- Olha, já reparaste que não sou como eles. Quero-te a ti e amo-te muito. Não te esqueças disso. - disse beijando-me.
Entrados na cozinha, a D.Madalena fez-me sinal sobre o local do anel e disse sorrindo ?
- Menino quer que meta a farda ?
- Nada disso. – disse sorrindo. – Meta mas é um lugar na mesa e venha para a sala.
- Sim, D.Madalena venha jantar connosco. - disse a Cláudia.
- Comam lá, que eu cá me arranjo. Vou chamar o motorista da menina e comemos aqui os dois. Fiquem descansados.
Fomos para a sala, e estranhámos os sorrisos. Os três sorriam, quase à gargalhada. Era estranho depois de toda a formalidade. E a Cláudia questionou-os:
- Contem lá queremos rir....
- A Anita perguntou como nos havia de tratar, e o teu pai disse para ela estar à vontade. E ela ficou. – disse a Nandinha ainda a sorrir.
- E chamou-nos avózinhos… - disse o Sr. João soltando uma gargalhada.
- Peço desculpa pelo comportamento dela. – disse eu meio envergonhado.
- Nada disso Miguel. É com grande alegria que vejo que a minha filha teve muito bom gosto na escolha que fez. Fico feliz. Muito feliz. Gostava de a levar ao altar. Mas não troco nada pela felicidade dela. Parece-me um homem às direitas e criar uma filha sozinha não é para todos. E Anita é uma neta querida, muito querida. – disse soltando um novo sorriso. – Posso tirar a gravata ? Importa-se Miguel ?
- Nada mesmo, se permitir que tire a minha também Sr. João.
- A casa é sua, e trate-me por João. – disse não contendo nova gargalhada.
- Trouxe um tinto alentejano da adega. Prefere outro ?
- Tens bom gosto já tinha reparado, vou pela tua escolha…
Já está. Pensei eu. No rosto da Cláudia via agora a miúda que conheci, de repente mudou e começou a conversar. Até a Nandinha me parecia normal. Passados uns minutos parecíamos uma família normalíssima a jantar.
Pais protectores mas respeitadores da vontade da filha. Agradava-me a ideia e sem saber de onde e porquê estava felicíssimo e lá veio o discurso:
- Antes de passarmos à sobremesa, devo dizer-vos, que estou a adorar ter tido a oportunidade de vos conhecer. E gostava que soubessem que tudo farei para fazer a vossa filha feliz. O que sentimos um pelo outro é verdadeiro e mútuo. E porque assim é, gostaria de assinalar este dia com uma pequena lembrança para a Cláudia. – passei por trás dela e coloquei-lhe o embrulho em frente.
- Oh Miguel, não precisavas. - disse ela corando.
Ao abrir o embrulho notei os olhos dela encherem-se de água, e ao mostrar à mãe, também os desta ficarem iguais. O pai levantou e deu-me um abraço, e finalmente deixou a solenidade de parte e deu-me um abraço dizendo:
- Gostava de ter tido um filho homem, mas se casares com ela dás-me essa alegria.
A Cláudia beijou-me ternamente. Terna e demoradamente. E a Ana exclamou:
- Posso servir a sobremesa ?
- Claro, minha filha. – disse a Nandinha sorrindo. – Eu ajudo-te.

terça-feira, julho 18, 2006


vigésima quarta parte

Eram quase seis da tarde e tinha ficado de ir buscar a Ana à escola. Detestava aquela farda do colégio, mas tinha sido uma escolha dela e limitara-me a respeitar. Era assim desde pequena. Tinha poder de escolha e decisão, depois não valia tentar voltar a trás. Já sabia que eu não cedia a alterações de percursos.
Entrou no carro eufórica. Mas isso era normal. Entrava sempre. Abriu a mala do carro, despejou as três ou quatro mochilas e sacos que trazia, e começou logo com perguntas.
- Vamos buscar a Cláudia ? Será que ela se chateia de a chamar Cláudia?
- Acho que se chateia se lhe chamares madrasta. – disse-lhe sorrindo.
- Então como lhe vou chamar ?
- Boa pergunta. Mas essa pergunta tens de a fazer a ela não achas ?
- Oh. Podias ajudar, fico envergonhada…
- Envergonhada tu ? Deixa-me rir. – disse eu já a gozar para a descontrair.
- Vais ter filhos dela ?
Pois. Era de esperar. Desta cabecinha ainda não tinha vindo nenhuma complicada. Mas aí estava a primeira.
- Gostavas de ter irmãos ?
- Eu adorava. – disse ela com um sorriso de orelha a orelha.
- Então quem sabe, façamos uma encomenda.
- Vão adoptar ? Pensei que os fizessem…
Isto está mais complicado do que pensei. Sem dar conta a pirralha crescera imenso e conseguia deixar-me a pensar.
- Claro que vamos fazer. Estava a brincar…
- Tavas era a ver se me enganavas. Já começaram a treinar ? – perguntou com um ar descontraidíssimo.
- Olha lá que conversas são essas ? Estamos muito saída da casca.
- Oh paizinho não fiques envergonhado, eu sei como é…
Naquele momento senti perder metade da vida dela. Na escola entre colegas já deviam falar de tudo e eu a fazer dela uma inocente. Era este medo que tinha. Que crescesse e eu não desse conta. Já está. Tenho de me preparar e começar a falar com ela sobre tudo.
Enviei uma mensagem à Cláudia dizendo que já a esperava na porta do prédio e aguardei. Estava ansioso. Virei-me para trás e descontraidamente fui conversando com a Ana sobre a Escola, tentando ao máximo desviar a atenção do acontecimento. Apenas o toque da mensagem de resposta da Cláudia me interrompeu.
”tenho uma surpresa para ti, espero que não te zangues”
Boa. Zangar não me zango, mas que fiquei com o coração aos pulos fiquei. Já trouxer a Ana sem ela saber. Que seria a surpresa dela. Virei-me para trás e recomendei à Ana que se portasse bem. E reparando naquela cara de princesa ansiosa, sabia que se portaria.
Olhei a porta do prédio ansioso e nada. Passado uns minutos vi sair um casal e logo atrás a Cláudia. Magnifica, deslumbrante, como nunca a vira. Nem consegui olhar para mais lado nenhum. Fitei o olhar nela e quase me perdia.
Nem me apercebi que o casal se dirigia também a nós. Porra quem são estes agora ? Sai do carro e fui na direcção dela.
- Olá princesa. Estás deslumbrante.
- Olá amor. Queria apresentar-te os meus pais.

Pais ??? Pais ??? Pais ??? Merdaaaaaaaaaaa… Só mim, sim isto só a mim. Não isto não acontece a mais ninguém. Tentei não dar parte de fraco. E manter a minha postura. Mas apetecia-me gritar: E gritar bem alto.
- Prazer. Miguel Lopes. – disse estendendo a mão ao pai.
- Prazer. João Carrasqueira. A minha esposa Maria Fernanda Carrasqueira.
- Esta menina que está ansiosa no carro é a Ana. – que ao meu sinal parecia uma mola e saltou do carro.
- Olá, eu sou a Ana.
Todos sorrimos e por momentos senti quebrar o gelo. Mantivemos a conversa ali mesmo no passeio por mais uns instantes, até que questionei sobre o jantar.
- Como fazemos Cláudia ?
- Desculpa Miguel, mas ontem falei com a minha mãe e vieram a correr, chegaram à meia hora, faz como preferires.
- Se não se importarem de arriscar, penso que em casa deverá haver comer para todos, se bem conheço a D.Madalena, fez comer para dez. – disse sorrindo. – Se o Sr. João preferir, posso reservar o restaurante que pretender em minutos.
- Ora essa. Trate-me por João. E o comer, não somos de cerimónias. Que preferes Nandinha ?
- A Cláudia que decida ? Que preferes minha querida ?
- Vamos para casa do Miguel.
- Em que carro vamos ? – perguntei à Cláudia.
- Vai no teu que eu vou no deles, depois para voltar é mais simples.
- Ok, até já então.
Saí e avancei uns vinte metros para lhes dar tempo de entrarem e virem atrás. A Ana estava como eu. Calada e estupefacta. Esta noite ia ser uma aventura.
Liguei a correr para casa e informei a D.Madalena do facto de irem mais duas pessoas. Mas esta logo me descansou. Tentei parar e pensar se algo faltaria. Por norma não. A casa costumava ter de tudo. Do bom vinho a boa comida, por mais estranhos que fossem, não haviam de se queixar.
Reparei então que vinham num AUDI A6, com motorista. Boa, é só novidades hoje. Procurei o número do Rafael e liguei-lhe a correr:
- Estou Rafael ? Miguel Lopes. Estás bom.
- Olá Miguel sim e tu como estás.
- Estou bem mas a precisar de um grande favor teu.
- Para ti todos. Diz-me que precisas.
- Um anel tipo noivado com um diamante…
Do outro lado fez-se silêncio durante vários segundos.
- Repete lá ? Esta merda da linha deve estar trocada.
- Um anel tipo noivado com um diamante…
- Não leves a mal mas repete lá…
- Percebeste bem, é isso mesmo, e tens meia hora para o ter em minha casa e entra pela cozinha sem dar nas vistas.
- Tudo bem amigo. Tens de me contar essas novidades todas depois. – disse ele meio a duvidar de mim. – Olha lá que tipo e preços de anel ?
- Tipo noivado sei lá, com um diamante. Olha o mais caro e mais bonito que tiveres. Confio em ti.
- Meia hora e está em tua casa. Que embrulho queres ? Olha deixa estar, confia em mim…
- Ok. Até já.
Atrás a Ana sorria. E senti no ar que me ia fazer uma pergunta complicada.
- Paizinho…
- Sim, diz princesa…
- A Cláudia está grávida ?
- Claro que não. De onde foste tirar essa ideia.
- Nada. A lado nenhum.
- Vá diz lá.
- Por causa do anel e de os pais dela virem a correr.
- Não te preocupes. Só não quero que pensem que somos uns quaisquer. E sempre é para a namorada do pai. Quando fores tu a namorar vai ser igual.
mais uma parte explicativa

não pretendo fazer sofrer ninguem
com a "pausidade" com que vou adicionando novos textos
e novas partes...

no entanto
as novas partes
vão surgindo
pelos comentários na caixa de mail
apenasparasexo@sapo.pt
lol

injusto ???
não ???

apenas a completar o terceiro romance
e a precisar de ajuda
lol...

m

segunda-feira, julho 17, 2006

vigésima terceira parte

- Sr. Engenheiro. Chegaram os advogados do consórcio.
- Dois minutos. Chame o Filipe e encaminhe-os para a sala de reuniões grande. Está preparada a sala ?
- Claro, esteja descansado.
Levantei-me, segurei o dossier e respirei fundo. Vamos lá poupar dinheiro. Era isto que me fazia sorrir e estar bem na vida. No meu pensamento, voavam lá bem longe, ansiedades, nevoeiros, túneis e medos. Bem, hoje seria a apresentação oficial da Cláudia, mas antes esta reunião. Vamos a isto.
- Boa tarde meus senhores. Engenheiro Miguel, Arquitecta Sofia… E a mim já conhecem, podem tratar por Filipe. – a apresentação típica do meu maninho. - Falta o Sr. Matta, mas está em Washington como sabem.
- Boa tarde, para quem não me conhece sou a Rute Sampaio, coordenadora do escritório, à minha esquerda o Dr. João Malaquias e à minha direita a Dra. Susana Santos. Como sabem, a situação das expropriações não correram como previsto. Estão atrasadas e mais do que isso com previsões incomportáveis para as vossas previsões iniciais. A nossa proposta como podem ver, é simples. Resolver o problema em três meses. Sem muitas perguntas da vossa parte.
Fitei então os três advogados, nunca o fazia de início fosse com quem fosse, gostava de os ouvir e sentir como se sentavam, como entravam nas negociações, fossem elas de que tipos fossem.
Mas que raio. Esta Dra. Rute Sampaio é a minha Rute. Foda-se que merda é esta. Olhei-a de frente, bem fitada a ver se me fitava também. Como relia a proposta, interrompia e interroguei-a directamente:
- Esses pormenores contratuais pouco me interessam. Diga-me como consegue este prazo e que tipo de meios vai utilizar.
- Como vos referi… - disse ela levantado a cabeça e fitando-me nos olhos. – Esse é um problema nosso… mas desculpe a pergunta era ?
Bingo. Olhara para mim e conhecera-me. Corou ligeiramente e baixou a cabeça folheando algo e fingindo procurar algo.
- A pergunta era simples e directa. Não autorizo o uso da força, nem métodos intimidatórios. Estamos entendidos ?
- Calma Miguel. – disse o Filipe não percebendo o que se estava a passar.
- Nem calma nem meias calmas. Fui claro, esta empresa tem uma postura e não será num consórcio que a irá abandonar. Apenas isso. Estamos entendidos ?
- Sr. Engenheiro. Dá-me dois minutos em privado. – pediu a Rute, a Dra. Rute. lol.
- Os que quiser. Filipe, Sofia deixem-nos a sós.
O Filipe levantou-se e segredou-me ao ouvido: Não comas a gaja, é a mulher do outro e saiu sorrindo. Já a sós voltei à carga.
- Caríssima, a questão é simples e fui bem claro. Não me envolvo em questões menos claras. Estamos entendidos ?
- Desculpa Miguel.
- Não precisas de pedir desculpa.
- Então deixa-te de merdas. – disse ela meio exaltada.
- Não são merdas, apenas frisei que não me quero, nem quero envolver as minhas empresas nesse tipo de esquemas.
- Eu sei que ficaste com má impressão de mim…
- Não fiquei, esqueci… Apenas isso…
- Deixa-me terminar. Embora possa ter-te induzido em erro, iremos conseguir resolver este assunto porque o meu marido vai cobrar uns favores a dois dos inquilinos que controlam o restante grupo. Nada demais. Sobre o resto…
- Esquece o resto. O resto é passado.
Levantei o telefone e pedi à Judite para mandar entrar toda a gente. Ficamos a olhar-nos de frente. Imóveis, serenos e os dois perdidos naquele quarto de hotel. Era tudo estranho. Mas era isso mesmo. Passado.
- Adorei estar contigo. – disse ela entre dentes.
- Não precisavas pagar o hotel…
- Perdoa-me
- Esquece. É passado.
O ar apreensivo de toda a gente ao entrar era engraçado. Deviam esperar ver sangue ou algo mais. Sorri e disse ao Filipe:
- Fecha o contrato. Tenho de sair.
- Tudo bem. Está tudo acertado ?
- Sim a Sra. Dra. Rute Sampaio tem os pormenores.
- Tudo bem continuemos então.
- Boa tarde então meus senhores. – disse eu a sair.
Senti o olhar dela atrás de mim. Mas nem pensei mais. Saí e sem pensar corri para casa. Tinha mais coisas para fazer. Meti o rádio alto na Best Rock e pensei: era mesmo uma música destas que precisava neste momento.
vigésima segunda parte

Raio de despertador. Porque raio não se avaria à segunda-feira. Sem pensar, enfiei os chinelos e corri para a casa de banho. Durante anos sonhara ter uma barba à homem. Agora adoraria ter aquela cara de miúdo que fora minha. Dois dias seguidos sem fazer a barba, ia ser giro agora cortar estes pêlos de aço. Que merda. Ainda por cima a uma segunda-feira. Meti o creme de barbear e deixei-o estar a ver se amolecia o arame farpado. Fui ao closet tirar um fato cinza escuro, uma camisa azul e uma gravata com riscas largas azuis e vermelhas. Tirei uns sapatos e meti umas meias pretas dentro.
Passei a máquina a ver se tinham amolecido. Mas nada. Mais um minuto e tem de ser. Fui a um dos camiseiros onde tinha os boxers e fiquei a olhar. Boa. Qual vestir. Uns com morangos. Ou com uns tubarões. Nunca se sabe o andamento do dia.
Nesta perda de tempo, lá fiz a barba a correr, tomei banho e desci a correr. Na cozinha já me esperava o meu pequeno-almoço. Um iogurte magro, duas torradas e uma peça de fruta. Pensei para mim: bem não é aqui que engordo.
No primeiro andar já a D.Madalena preparava a Ana. Ainda gritei para lhe dar um beijo, mas a princesa estava no banho. Disse-lhe adeus e desci a escada para a garagem. Olhei os carros e decidi-me pelo jipe. Mais jovem mais desportivo. Um dos sonhos que sempre tivera. Como um puto que tem um doce, entrei no meu X5 e saí à campeão.
Estava bem. Sentia-me bem. E essa ideia alegrava-me imenso. O desvio pela Sintra rural, metia-me em Lisboa num instante e nem a imensidão de buracos me tirou a alegria.
Como sempre teria a minha Judite esperando com um sorriso de orelha a orelha e com a pergunta do café na ponta da língua. Subi a escada com este pensamento. E lá estava ela.
- Bom dia Judite…
- Bom dia engenheiro… Café ?
- Cinco minutos e traga, deixe-me fazer uma chamada rápida.
Entrei na minha sala, e parecia diferente, maia alegre, mais jovem, melhor decorada. Mas era tudo impressão. Estava tudo na mesma. Com os meus três quadros. A foto da Ana e uma série de impressões a três dimensões de obras que realizáramos.

- Bom dia princesa…
- Bom dia Miguel.
- Acordei-te ?
- Sim, que horas são ?
- Quase oito…
- Merda, beijo amor, tenho meia hora para estar no banco.
- Beijo, vai devagar.
Quer dizer, quando ligo é esta a resposta que tenho. Bem, estava atrasada mas podia ser mais doce. Que se lixe.
- Judite…
- Sim Engenheiro.
- Traga o café.
- Sim senhor, de seguida.
Liguei o computador e abri a caixa de mails da empresa para responder às questões colocadas no site. Tinha oito mails e fui respondendo, enquanto bebia o café.
- Quer ver o seu dia na agenda Engenheiro ?
- Sim traga a agenda. Quero ver o resto da semana.
- De importante tem na terça os compradores do lote de Odivelas, solicitaram a reunião para tentar um desconto relativamente à sua propostas dos três milhões de euros. Na quinta reúne com a nova empresa de advogados do consórcio dos Açores.
- Mas quem são esses novos advogados. Os outros não serviam ?
- O Engenheiro Filipe e o Sr. Matta, acharam que a Alves & Associados estavam a perder muito dinheiro com as expropriações, e estes foram recomendados pelo Sr. Vereador, deixei-lhe uma nota com a proposta deles.
- Ligue-me ao Filipe.
Detestava não saber todos os pormenores. Mas confiava no Filipe. Aliás sempre confiara, mas como quem não quer a coisa ia tirar as dúvidas.
- Estou Filipe. Bom dia.
- Bom dia. Fogo. Estava a dormir.
- Ok, tudo bem. Olha lá quem são os novos advogados para o consórcio e para as expropriações?
- Eh pá, foram aconselhados por aquele tal Vereador, esquece-me o nome.
- Sim sei quem é.
- A mulher dele coordena esse escritório de advogados, e em processos deste género tem mostrado resultados. Muito resultados.
- E quanto nos vai custar isso ?
- Menos que os outros, com a dupla vantagem que o gajo nos fica a dever um favor. - disse o Filipe ainda ensonado.
- Bem feito maninho. Dorme descansado que eu seguro o escritório de manhã.
Dissera a frase chave: mais barato. E com a vantagem de termos um favor a cobrar. De facto tudo estava a correr bem. Era destas segundas-feiras que adorava ter.
A manhã passara a correr. Quase nem dera conta. Apenas uma mensagem da Ana me fizera rir e às gargalhadas:
”como é a minha madrasta”
De facto só daquela cabeça. Mas tinha razão. Ainda não resolvera esse problema: E que problema. Não havia de ser nada. Sorri e continuei mergulhado em projectos e papéis.
vigésima primeira parte

O jantar quase dava comigo em louco. Tantas eram as histórias, as aventuras de ambas, que nem se aperceberam de mim. Ali fiquei a olhá-las, e a encher-me de carne que a D. Madalena trouxera da terra.
Por momentos, estava ali e com a cabeça noutro local. Quase que todos os meus pensamentos voavam para a minha caixa de mails. E para a curiosidade sobre a tal fofinha. Sem abrir a boca lá fui mastigando aquela confusão toda, tanta coisa acontecera naqueles dias.
- Já vi que nem não por mim, vou tomar o café no escritório. – disse levantando-me e saindo.
- Ai menino tem de arranjar uma namorada. – disse a D.Madalena antes de eu sair da cozinha.
Não parei, segui mais alguns metros. Mas como se duma força estranha se tratasse, voltei atrás, meti a cabeça na cozinha e disse.
- Não preciso arranjar. Já namoro. E chama-se Cláudia.

O silêncio foi total. Quase como uma bomba vinda de um local distante e que tudo arrasara, o mesmo efeito tinham tido as minhas palavras. Segui para o escritório ouvindo ao longe uns cochichos meus conhecidos.
A Ana trouxe-me o café. E antes de sair comentou em tom de voz solene:
- Se precisares de alguém para falar, estou aqui prontinha.
Sorri com a fedelha e disse-lhe que ia trabalhar, depois falaríamos. Abri o mail. E pela primeira vez, foram angustiantes aqueles breves segundos para aceder à caixa de mails. Mas lá estava ela. A bendita foto.
Uma mulher jeitosa. Muito jeitosa. Alta, bem delineada. A notarem-se os quase quarenta anos. Mas mesmo assim um mulherão. Tentava ler naquela foto tudo o que me dissera. Como se pudesse sentir. Como se pudesse encarnar tudo o que me dissera. Mas não. Não passava de uma foto de uma estranha.
Ampliei a foto e fiquei a olhar demoradamente cada pedaço do rosto dela. Cada pedaço do corpo dela. Os sinais. As madeixas. O contorno do peito. O pneuzito que se notava. As pernas. Os tornozelos. E entrei no chat. Por momentos queria vê-la, toca-la, senti-la. Mas não a encontrei. Procurei e nada. Nada mesmo.

- mensagem de menina34: recordada de mim ?
- mensagem de menina34: lol
- mensagem para menina34: olá, como estás ?
- mensagem de menina34: bem e tu
- mensagem para menina34: também
- mensagem de menina34: nunca mais disseste nada
- mensagem de menina34: assustei-te assim tanto
- mensagem de menina34: ou tens tido muito que fazer ?
- mensagem para menina34: apenas muito que fazer e tu
- mensagem de menina34: também
- mensagem de menina34: as aulas continuam
- mensagem para menina34: e tá tudo bem mesmo ?
- mensagem de menina34: sim
- mensagem de menina34: porque duvidas ?
- mensagem para menina34: nada, desculpa
- mensagem de menina34: alguma coisa foi
- mensagem para menina34: nada a sério
- mensagem de menina34: tá tudo bom
- mensagem de menina34: a vida continuo
- mensagem de menina34: não morro
- mensagem para menina34: não sejas assim
- mensagem para menina34: foi a minha primeira vez estava muito nervoso
- mensagem de menina34: não precisas desculpar-te mais
- mensagem de menina34: eu entendo
- mensagem para menina34: que raio de feitio esse
- mensagem para menina34: era sexo que querias ? se era dizias
- mensagem de menina34: sim queria
- mensagem de menina34: e contigo fazia
- mensagem de menina34: fazia mesmo
- mensagem para menina34: e depois
- mensagem para menina34: que acontecia
- mensagem de menina34: fazíamos e pronto
- mensagem de menina34: somos crescidos
- mensagem de menina34: não precisavas casar comigo
- mensagem para menina34: lol
- mensagem de menina34: lol
- mensagem para menina34: estou cansado, vou dormir
- mensagem para menina34: beijo
- mensagem de menina34: eu também
- mensagem de menina34: beijo
- mensagem de menina34: quando quiseres diz
- mensagem para menina34: lol
Não saia da minha ideia aquela mulher jeitos que tanto procurara. Ficou gravada o fato de ser alta e bem delineada. Perto dos quarenta, mas muito charmosa. Tentara tocar-lhe com os olhos, tentara senti-la, mas nada. E a busca que fizera a nada levara. Não conseguia adormecer com todas estas ideias.
Apenas um toque de mensagem me despertou mais que aquela fotografia:
”dorme bem meu amor”
Sorri e virei-me para o lado. Esquecera por instantes que namorava. Logo que tinha uma namorada. Estava desabituado. Pensei que ia ser giro. Mas estava mesmo desabituado. Uma namorada. lol.

domingo, julho 16, 2006

vigésima parte

Acordei meio perdido, o sol entrava pelo quarto dentro, e nem dera conta da sua entrada. Olhei as horas ou eram dez e dez ou dez para as duas. Fechei os olhos e pensei que se lixe.
No quente da almofada recordei o turbilhão dos dias anteriores. Tanta coisa e tão pouca. Bem, já namorava. Menos mal. Estava em forma, o que me agradou de sobremaneira, mas tinha de fazer uma dietazinha. Finalmente chegara a hora.
Impossível. Lá fora a buzina de um carro despertou-me. Chegara a Ana. A minha Ana. De um salto saí da cama e vesti uns calções para lhe vir abrir a porta. Lá estava ela, a minha princesa. Mais morena, e de repente mais mulher. Estava crescida.
- Olá princesa, como correu a viagem ?
- Foi boa paizinho. Mas estou muito cansada e cheia de fome.
- Deixa-ma ajudar-te e vamos já comer alguma coisa.
- Conta-me quero saber tudo…
Já morria de saudades dela e nem tinha dado pela sua ausência. Ao levarmos as coisas dela para o quarto, fomos interrompidos por uma voz nossa conhecida.
- Onde estão os meus meninos ? – gritou do hall do rés-do-chão a D.Madalena.
- Onde estais vós minhas crianças que morro de saudades.
Boa. Chegara o Duende dos doces. Em corrida lá descemos a escada e entre beijos e abraços, lá tive que levar nas orelhas:
- O menino está mais magro. Muito mais magro. Eu já vou ver o frigorífico a ver o que comeu. E tu minha linda. A tua mãe alimentou-te ?
- Sim, comi muitas espetadas. – disse a Ana histérica e contando apressadamente quase toda a viagem.
Tinha minha família de volta. Sem notarem escapei-me ao escritório. MAS ao longe ainda ouvi: O jantarinho está pronto às oito, não se atrase menino.
Continuei a ouvir ao longe a voz das duas a contarem as aventuras que tinham vivido e senti-me feliz. Já me faziam mesmo falta e não tinha dado conta disso. O toque de mensagem do telemóvel despertou-me e fui ver quem seria:
”tenho muitas muitas muitas saudades tuas”
Li a mensagem e parei. Era da Cláudia. Fiquei a olhar e nem soube o que fazer. Por momentos lembrei a tarefa de ter que informar e contar à Ana. E que tarefa ia ser. Mas abri o teclado e respondi:
”eu também tenho beijo”
Liguei o computador para ver os mails. E claro está, passar a correr no chat. Estava a tornar-se num vício. Não sabia se bom ou mau. Mas era já um vício.

- mensagem de fofinha5: olá
- mensagem para fofinha5: olá
- mensagem para fofinha5: dormiste bem ?
- mensagem de fofinha5: sim e tu
- mensagem para fofinha5: também
- mensagem para fofinha5: o marido voltou ?
- mensagem de fofinha5: já de manhã como sempre
- mensagem para fofinha5: e tu que lhe disseste
- mensagem de fofinha5: nada fingi nem notar
- mensagem para fofinha5: e que vais fazer
- mensagem para fofinha5: deixar correr as coisas ?
- mensagem de fofinha5: tenho 38 anos
- mensagem de fofinha5: não posso começar de novo
- mensagem para fofinha5: nunca é tarde
- mensagem de fofinha5: não sei
- mensagem de fofinha5: sinto que para mim é
- mensagem de fofinha5: e se arranjo um ainda pior
- mensagem de fofinha5: este ao menos não chateia
- mensagem de fofinha5: nem me bate como alguns fazem
- mensagem para fofinha5: tens medo de quê afinal
- mensagem de fofinha5: de ficar sozinha
- mensagem de fofinha5: de acabar sozinha
- mensagem para fofinha5: isso todos temos, não achas ?
- mensagem de fofinha5: sim eu sei
- mensagem de fofinha5: se ao menos de fosse embora de vez
- mensagem para fofinha5: entendo-te
- mensagem de fofinha5: assim resolvia-se tudo
- mensagem de fofinha5: e acabava este martírio…
- mensagem para fofinha5: tens de ter força, e seguir o que achares certo
- mensagem de fofinha5: é complicado
- mensagem de fofinha5: não sou capaz
- mensagem para fofinha5: é a tua vida
- mensagem para fofinha5: a tua vida felicidade
- mensagem para fofinha5: daqui a 10 anos olhas para trás e que verás ?
- mensagem para fofinha5: pensa
- mensagem para fofinha5: vida só tens esta
- mensagem para fofinha5: ou aproveitas
- mensagem para fofinha5: ou vai escorrer-te entre as mãos
- mensagem para fofinha5: sem retorno
- mensagem de fofinha5: tens razão
- mensagem de fofinha5: mas ninguém me ia querer…
- mensagem para fofinha5: porque dizes isso ?
- mensagem de fofinha5: tens mail ?
- mensagem para fofinha5: sim
- mensagem para fofinha5: anota: mr…
- mensagem de fofinha5: vou-te enviar a minha foto vais perceber
- mensagem para fofinha5: ok
- mensagem para fofinha5: vou jantar
- mensagem para fofinha5: depois comento… beijo
décima nona parte

Depois do jantar fui levar a Cláudia. Tinha imensas coisas para estudar e ainda de dar uma arrumação na casa. A Ana chegaria no outro dia sem hora marcada e era melhor não nos encontrar assim vindos do nada. Teria de falar com ela, com calma e explicar esta nova fase.
Por momentos recordei as últimas conversas com a Cláudia. Tinha partilhado os meus medos, os meus pânicos, a ansiedade que me tinha rodeado nos últimos tempos. Talvez não tivesse percebido. Talvez fossem confusões a mais para uma miúda tão nova. Até eu tantas vezes não me percebia.

A ideia de toda a gente que me rodeava me achar normalíssimo e apenas mais um no meio de todo este universo não me assustava. Nunca me tinha assustado.
Assustava-me sim, estar e sentir-me tantas vezes à beira da loucura. Logo eu, que me achava, ainda mais que os outros normalíssimo. Achava engraçado e confuso a forma como me apareciam todas estas ideias. Todos estes metaforismos loucos e dementes.
Sentia por vezes ser só eu a tê-los, a vivê-los. Ser só eu o louco, o demente. O túnel que servia para as minhas quedas verticais, sem capacete e sem limite. O nevoeiro que me levava para longe, sem retorno ou sentido. E esta criação do mundo, sem nexo ou sentido que por vezes parecia querer explodir dentro da minha cabeça. Tantas vezes regredia que sentia um dia poder explodir.
Estava velho. Hipocondríaco talvez. Ou até mais que isso. Provavelmente a ficar louco. E a prova estava à vista. Metera-me num quarto de hotel com uma estranha. Casada e que me dera um fora. Passado umas horas, noutra cama, começava a namorar com uma miúda. Que mais poderia acontecer.
Sentia o chão fugir debaixo dos pés. A cabeça quase a explodir. De facto eram mudanças a mais para a minha vida em tão curto espaço de tempo. Sentia-me à beira de um ataque de ansiedade. Subi ao quarto, abri a gaveta do meu camiseiro, e tirei uma velha embalagem de anti-depressivos. Tirei um e na casa de banho engoli-o com um trago de água na mão.
Olhei-me ao espelho. Estava no limite da juventude. Homem feito. Uma barriguita a mais, mas nada que não remediasse num instante. Era isso mesmo. Uma dieta vinha a calhar. Deitei-me no quarto a olhar o tecto. Passaram milhares de imagens. Milhares de ideias. A tamanha velocidade que perdi metade. Por breves segundos imaginei-me dentro de um filme. Meio louco, meio perdido.
Pensei ter tomado outra coisa qualquer e voltei a abrir a gaveta, mas não. Tinha sido mesmo um anti-depressivo. Fogo, nada resulta. Queria descansar um pouco e sinto-me completamente ao contrário. Demora a fazer efeito, e neste pensamento adormeci.
Acordei a meio da noite. Olhei o relógio e eram três da manhã. Estava despertíssimo e sem sono nenhum. Mesmo nenhum. Desci ao rés-do-chão e bebi um copo de leite. Sentei-me na sanita com um jornal já com algumas semanas e não sentia o sono chegar.

Recortei uma publicidade do jornal e fui arquivá-la ao escritório. Liguei o computador para ver cor e luz. Sem mais nada. Apetecia-me apenas ver cor e luz. Mas mecanicamente entrei no chat. Como que por magia. Nem quase pensara no acto que cometia. lol.
Estava pouca gente, muito pouca gente.

- mensagem de fofinha5: oi
- mensagem para fofinha5: olá
- mensagem de fofinha5: já teclamos ?
- mensagem para fofinha5: não sei
- mensagem para fofinha5: devíamos ?
- mensagem de fofinha5: não, mas não me pareces estranho
- mensagem de fofinha5: idade ?
- mensagem para fofinha5: 34 e tu
- mensagem de fofinha5: 38
- mensagem para fofinha5: que fazes na vida ?
- mensagem de fofinha5: prof e tu
- mensagem para fofinha5: engenheiro
- mensagem de fofinha5: casado ?
- mensagem para fofinha5: não
- mensagem para fofinha5: divorciado e tu
- mensagem de fofinha5: casada
- mensagem para fofinha5: o marido deixa andar por aqui ?
- mensagem de fofinha5: que tem ? ninguém me tira bocado
- mensagem para fofinha5: sim eu sei
- mensagem de fofinha5: nem sei onde anda
- mensagem de fofinha5: disse que ia sair com uns amigos
- mensagem de fofinha5: e ainda não chegou
- mensagem de fofinha5: deve andar enrolado com uma puta qualquer
- mensagem de fofinha5: é o costume
- mensagem para fofinha5: pode não ser…
- mensagem de fofinha5: apanho-lhe mensagens todos os dias
- mensagem para fofinha5: e depois que mal tem
- mensagem de fofinha5: mensagens a dizer que adoraram a noite anterior
- mensagem de fofinha5: não acredito no pai natal
- mensagem para fofinha5: entendo-te
- mensagem de fofinha5: tou farta disto
- mensagem de fofinha5: farta mesmo…

Recordei a Rute por instantes. Percebia agora a solidão a que muitas pessoas podem estar votadas mesmo casadas. E aí se calhar é bem pior. Não me tinha dado conta disso.

- mensagem de fofinha5: vou dormir estou cansada
- mensagem para fofinha5: como te chamas
- mensagem de fofinha5: Ana e tu
- mensagem de fofinha5: Miguel

- mensagem de doidaporsexo: olha quem é ele
- mensagem para doidaporsexo: olá doidinha como estás
- mensagem de doidaporsexo: bem e tu
- mensagem para doidaporsexo: também
- mensagem de doidaporsexo: queres sexo?
- mensagem para doidaporsexo: lá estás tu com isso
- mensagem para doidaporsexo: tou de barriga cheia não ia conseguir
- mensagem para doidaporsexo: lol
- mensagem de doidaporsexo: que jantaste
- mensagem para doidaporsexo: ahahahahahahahahahah
- mensagem para doidaporsexo: barriga cheia de sexo
- mensagem de doidaporsexo: ah ok
- mensagem para doidaporsexo: calha a todos
- mensagem de doidaporsexo: recorda-me a tua idade ?
- mensagem para doidaporsexo: 34
- mensagem de doidaporsexo: 23
- mensagem para doidaporsexo: eu sei, não esqueci
- mensagem para doidaporsexo: andas assim tão carente
- mensagem de doidaporsexo: queres saber a verdade ?
- mensagem para doidaporsexo: se quiseres contar sim
- mensagem de doidaporsexo: tive um namorado até hoje e íamos casar
- mensagem de doidaporsexo: há seis meses apanhei-o na casa que comprámos com a minha melhor amiga…
- mensagem para doidaporsexo: parece uma novela
- mensagem de doidaporsexo: eu sei
- mensagem para doidaporsexo: e depois
- mensagem de doidaporsexo: depois acabamos
- mensagem de doidaporsexo: e embora te pareça doida
- mensagem de doidaporsexo: nunca mais estive com ninguém
- mensagem para doidaporsexo: e toda essa conversa ?
- mensagem de doidaporsexo: ideias parvas
- mensagem de doidaporsexo: queria vingar-me dele
- mensagem de doidaporsexo: mas nem isso merece
- mensagem para doidaporsexo: acreditei em ti
- mensagem de doidaporsexo: todos acreditam
- mensagem de doidaporsexo: e ficam loucos comigo
- mensagem de doidaporsexo: homens… enfim…
- mensagem para doidaporsexo: prefiro-te assim mais calma
- mensagem de doidaporsexo: tens razão
- mensagem de doidaporsexo: foi uma decepção mas passou
- mensagem de doidaporsexo: tem de passar
- mensagem para doidaporsexo: ainda gostas dele
- mensagem de doidaporsexo: não sei
- mensagem de doidaporsexo: tem dias que sim
- mensagem de doidaporsexo: outro que não
- mensagem de doidaporsexo: não sei
- mensagem para doidaporsexo: tem calma tudo passa
- mensagem de doidaporsexo: eu sei
- mensagem de doidaporsexo: és simpático sabias
- mensagem para doidaporsexo: sabia
- mensagem para doidaporsexo: lol
- mensagem de doidaporsexo: convencido
- mensagem para doidaporsexo: estava a brincar
- mensagem para doidaporsexo: desculpa
- mensagem de doidaporsexo: vamos dormir ?
- mensagem para doidaporsexo: sim é tardíssimo
- mensagem de doidaporsexo: bjs
- mensagem para doidaporsexo: beijo

uma parte explicativa

Com alguma surpresa tenho assistido a uma série de confusões e a uma série de comentários que depois de os ter gerenciado, arquivei e decidi tornar não públicos.

Que fique claro que o blog não passa de uma tentativa de um dia ter escrito um romance... nada mais.

Nada do que poderão ter lido ou vir a ler tem algo a ver com a realidade.

Como se costuma ler no fim dos filmes: Tudo o que aqui puder ser comparado com a realidade não passa de uma simples coincidencia... nada mais.

Alguns novos e novas amigas tem enviado textos para eu ler e dar uma opinião... lol...

Não passo de um curioso nada mais.

Quando quiserem escrever aqui deixo um mail: apenasparasexo@sapo.pt

A foto é da serra... da minha serra... vista de casa...

Mas não inventem... as partes estão concluidas, ou melhor o romance está terminado... a pouco e pouco irão descobrir o resto... lol...

Que Deus vos dê o dobro do que me desejam...

m
décima oitava parte

- Enfim sós. – suspirou a Cláudia com um sorriso.
- Sim, finalmente sós.
- Alguma ideia ? – perguntou-me ela com aquele ar insaciável de sexo.
- Sim, apetece-me sexooooooooooooooooooooooooooo… - disse eu levantando a voz e dando um ar de louco à minha expressão.
- Hum, e nada mais ?
- Vamos para o terraço ver a serra, queres ?
- Gosto da ideia. Podemos usar aquela cama de rede ?
- Claro que podemos. Aguenta com os dois. Boa, era mesmo isso que me apetecia. – disse correndo para o terraço.
A serra estava na mesma, esta fase da Primavera, ora trazia dias de nevoeiro, ora tinha dias de céu lindo e que cheiravam a verão. Seria de mim, mas cheirava a verão. Olhei o jardim, a piscina ainda coberta, e algumas tulipas a começarem a abrir.
- Falavas sério ? Não vamos esconder nada um ao outro? – perguntou ela olhando a serra.
- Falava. Ou preferes que assim não seja ?
- Prefiro. Aliás adoro que assim seja Miguel.
- Sabes Cláudia, para mim não faria sentido de outra maneira. Temos alturas ou se preferires momentos na vida, em que há coisas que são imprescindíveis. A confiança, a lealdade, a amizade para mim serão isso mesmo. Sempre imprescindíveis.
- Posso fazer-te uma pergunta Miguel.
- Claro tontinha, podes fazer todas.
- Divorciaste-te porquê ? – perguntou-o meio nervosa.
- A mãe da Ana quis ir tirar um mestrado a Inglaterra, no primeiro ano foi fácil e até foi giro, com as viagens para cá e para lá. No segundo ano, tudo mudou. Comecei a sentir a falta dela, e acredito que ela também de mim. Mas a distancia complicou tudo. Um dia disse-me que andava confusa em relação a nós. E uma coisa levou a outra. Nesse mesmo ano acabámos por nos divorciar.
- Casaste cedo, não foi ?
- Casar não. Mas a Ana nasceu relativamente cedo. Só dois anos depois casámos, mas já vivíamos juntos à 3 anos. Ela veio de fora de Lisboa estudar, tinha uma casa só para ela. E no último ano dos nossos cursos, fomos viver juntos. Mais perguntas ? – disse-lhe sorrindo.
- Posso fazer todas ? Mesmo todas ?
- Sim já te disse que sim.
- E não te ris ?
- Não diz lá.
- O que mais te agrada em mim ?
Naquele momento, abracei-a forte, como à muito tempo não fazia a alguém. Consegui estar feliz e sentir um misto de medo e tristeza.
- Fazes-me bem. Estás a fazer-me bem. E isso para mim é importante. Muito importante.
- Sabes, achava-te muito fechado. Sombrio. Muito dono de ti percebes ?
- Acho que toda a gente pensa isso de mim. Depois do divórcio as coisas foram complicadas. Não sei se passei por uma depressão, mas deve ter sido algo do género. Sem nenhuma razão, passei a ter medo da morte, de me acontecer algo e a Ana ficar sozinha, parvoíces desse tipo…
- Continua…
- Foi isso. Talvez tristeza, medo, angustia… Passei a ficar triste por coisas parvas e que não faziam sentido nenhum.
- Que coisas parvas ?
- Não te ris ?
- Claro que não tontinho.
- Começou a afectar-me por exemplo a criação da vida.
- Como assim ?
- Sei lá, saber de onde tudo isto veio, como começou a vida no nosso planeta. E antes de tudo isto que existe existir, o que existia…
- Não percebo…
- Imagina o momento da criação da vida como a conhecemos e concebemos…
- Sim…
- Imagina agora o que existiria antes disso. Algo teria de existir. E muito antes disso, algo mais teria de existir… É esse vazio de nada, como se no princípio algo tivesse que existir que me assusta. Às vezes dou comigo a voltar atrás no tempo e a esbater num vazio enorme que me assusta. Que não me dá respostas…
- Já tinha reparado que gostas de ter respostas para tudo. – disse na tentativa de me responder.
- Sim eu sei. A nossa cabeça, o nosso subconsciente é algo que não conseguimos dominar, nem controlar.
- E mais coisas te assustam Miguel.
- Sei lá. Coisas doidas e sem sentido…
- Conta-me quero saber…
- Coisas parvas. Provavelmente devo andar hipocondríaco. Ou então deve ser da idade. Tenho medo que me dê uma dessas vulgares doenças e me leve desta para melhor, e que passe a ser mais um numero que entra numa taxa qualquer de mortalidade.
- É certo que todos temos de morrer. Mas essa não deve ser a nossa maior preocupação. – passou a mão pela minha cabeça e continuou. – Ser feliz, estarmos bem connosco próprios, atingir os nossos objectivos na vida, um após outro. Para isso mesmo, sermos felizes.
- Eu sei princesa. Mas que queres. Este é o Miguel que não conhecias. Que provavelmente ninguém conhecia.
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