a trigésima oitava parte
Sentia falta de trabalhar. Tinha dado pouco valor a algumas coisas. E decidira durante a noite que o deveria fazer. Parar e pensar. Estar mais atento aos pormenores que nunca me diziam nada e dedicar-me às coisas mais pequenas do meu dia a dia.
- Bom dia Judite. Como está.
- Bom dia engenheiro.
- Traga dois cafés e venha à minha sala.
Percebi o espanto na cara dela. Trabalhava à mais de três ou quatro anos comigo e seria o primeiro café a dois.
- Ainda não lhe agradeci o favor que o seu marido me fez.
- Não precisa. Ora essa, já me ajudou o bastante.
- Está há quanto tempo comigo aqui na empresa?
- Faz oito anos em Setembro…
- Sim é isso falhei por um ano… – interrompi eu. – A agenda de hoje como está?
- Complicada. E ainda tem de receber a Dra. Rute Sampaio que nem a consegui encaixar. Conte com ela lá para o meio da tarde. Não esqueça que para a semana tem de ir aos Açores e decidir a equipa que vai consigo.
- Estava esquecido. Chame-me a Sónia para me fazer um ponto da situação do projecto, marque hotel para os dois. Confira depois com ela.
Tinha de ir conferir o local da obra e reunir com o empreiteiro. Estava completamente esquecido.
- Estou Filipe. Olha lá, não podes ir por mim aos Açores?
- Não posso. Aliás nem estou por dentro do projecto, o homem indicado és tu. Leva a Sónia e diverte-te. A miúda tem um fraco por ti.
- Não sejas parvo. Lá estás tu.
- Olha lá oh parvalhão só tu não reparas.
Este gajo tinha cada saída. A Sónia era a arquitecta mais antiga que tínhamos. Mas fora isso, mais nada sabia dela, até pensei que fosse casada. Aliás, quase tinha a certeza de que era casada.
- Engenheiro está aqui a Arquitecta Sónia.
- Mande-a entrar.
Bastaria olhar para a mão dela e procurar a aliança.
- Olá Sónia. Bom dia. Como está o projecto dos Açores.
- Quase pronto engenheiro. Ainda com muita coisa para analisar. Em especial a estrutura e as redes de esgotos domésticos e pluviais. Mas de resto está tudo praticamente decidido para mostrar aos americanos e ao Sr. Matta.
- Mandei marcar hotel para os dois para a semana com a Judite, confirme os dias e veja com o namorado ou marido se pode ir. – disse eu esperando uma resposta e tendo notado a falta da aliança.
- Não há problema, não padeço desses males.
- Que males?
- Maridos e namorados…
- Tudo bem, verifique as datas com a Judite. E faça uma impressão de tudo para eu verificar.
- Depois de almoço estarão na sala de reuniões.
- Tem compromisso para almoçar? Podíamos aproveitar a hora de almoço para ver algumas coisas.
- Tudo bem. À uma hora no estacionamento da empresa.
De facto, pouca ou nenhuma atenção dava às pessoas que me rodeavam. E muito pouco ou nada sabia deles. Da minha filha à minha empregada. Da secretária à uma arquitecta que trabalhava comigo desde o principio da empresa. Até com os meus pais, pouca ou nenhuma relação já tinha.
Recostei-me na cadeira e olhei para a minha vida. Nas mudanças dos últimos dias, e no que tinha desperdiçado. Não podia fazer nada sobre o passado. Mas para o futuro podia tentar mudar. E nada melhor que o almoço para começar.
Revi mais um monte de papéis e deixei uma série de notas para o Filipe. Ao meio-dia liguei para a extensão da Sónia e disse-lhe:
- Vamos sair já. Quero ir a um local que não vou há muito tempo.
- Cinco minutos.
- Até já.
Desci ao estacionamento e liguei o carro. Olhei pelo espelho e vi-a chegar em passo apressado.
- Vamos?
- Sim. Mas que local é esse. – questionou ela.
- Direcção Cascais. Objectivo Guincho. – respondi eu sorrindo.
- Estamos muito animados hoje. Sim senhor. Há muito tempo que não o via assim.
- Eu sei Sónia. A trabalharmos há tanto tempo juntos e não sabia nada de si. É imperdoável eu sei.
- Não tinha que saber, mera relação patrão versus empregada.
- Eu sei que dou a entender que não me apercebo do que se passa à minha volta. Mas decidi mudar. Quero dar mais valor a todas as pequenas coisas que me rodeiam.
- Estou perdida. Está a falar de quê.
- A falar que nunca dei valor às pessoas que trabalham comigo. Como a Sónia por exemplo.
- Por momentos assustou-me. Pensei que se ia declarar.
- E se fosse?
- Eu sou lésbica. Nunca reparou.
- Não. Desculpe, não tinha dado por nada.
Calei-me e fiquei sem saber o que dizer, era um tema que me deixava normalmente sem saber o que dizer. E ainda por cima dito assim. Ainda pior.
- Estava a brincar consigo. Não sou lésbica. – disse sorrindo e continuou. – Apenas me apeteceu brincar consigo, ando há anos a mostrar-lhe o meu interesse e nunca se apercebeu pois não?
- Não. Desculpa Sónia. Nunca dei conta.
- Eu sei. Tens mil coisas nessa cabeça e não dás atenção a mais nada a não ser ao trabalho, nem a ti próprio dás atenção. Mas não faz mal.
- Sinto-me isolado na empresa. Sei que sou visto como o boss e pronto. Não permito mais nada. Nem deixo ninguém aproximar-se.
- Toda a gente nota e sabe isso. O Filipe pelo contrário já as correu quase todas. Poucas devem faltar. – disse sorrindo.
- Deves faltar tu e a Judite?
- Sim, e talvez a Dona Manuela.
- Quem é essa?
- A senhora da limpeza.
- Ah. Já sei. – disse eu sem saber de facto de quem falávamos e continuei. – Mas não me vais dizer que tens andado este tempo todo à espera que te convidasse para sair?
- Queres a verdade?
- Sim, claro.
- Andei sim. Não me perguntes porquê. Houve alturas em que me fartei de ver a minha vida reduzida ao trabalho e a ver-te por escassos minutos. Mas depois descobri que era feliz assim.
- Estranha felicidade…
- Eu sei. Mas valeria a pena namorar, pensando noutra pessoa. Ou arranjar um namorado para esquecer um amor ou uma paixão?
- Tens razão. Mais vale tarde que nunca.
Nunca imaginaria esta conversa com a Sónia, muito menos com a abertura que ambos estavámos a ter. Éramos amigos, fazíamos uma grande dupla. Mas daí a estar a falar de amor com ela ia um grande passo. Um passo de facto muito grande.
Escolhido o Porto de Santa Maria, apressei-me a sair do carro para a poder olhar com atenção. Ficara curioso com aquela declaração e com toda aquela franqueza. De facto, tinha mesmo andado a dormir em relação a gente à minha volta.
Nada faláramos de trabalho. Perdêramo-nos na conversa que tinhas acabado de ter no carro e deixámos correr o resto da tarde. Rimos com alguns episódios da vida da empresa. E fiquei a conhecer a história da vida dela. Simples, dedicada e mulher de um só homem. Exactamente o que eu procurava pensei para comigo.
Sentia falta de trabalhar. Tinha dado pouco valor a algumas coisas. E decidira durante a noite que o deveria fazer. Parar e pensar. Estar mais atento aos pormenores que nunca me diziam nada e dedicar-me às coisas mais pequenas do meu dia a dia.
- Bom dia Judite. Como está.
- Bom dia engenheiro.
- Traga dois cafés e venha à minha sala.
Percebi o espanto na cara dela. Trabalhava à mais de três ou quatro anos comigo e seria o primeiro café a dois.
- Ainda não lhe agradeci o favor que o seu marido me fez.
- Não precisa. Ora essa, já me ajudou o bastante.
- Está há quanto tempo comigo aqui na empresa?
- Faz oito anos em Setembro…
- Sim é isso falhei por um ano… – interrompi eu. – A agenda de hoje como está?
- Complicada. E ainda tem de receber a Dra. Rute Sampaio que nem a consegui encaixar. Conte com ela lá para o meio da tarde. Não esqueça que para a semana tem de ir aos Açores e decidir a equipa que vai consigo.
- Estava esquecido. Chame-me a Sónia para me fazer um ponto da situação do projecto, marque hotel para os dois. Confira depois com ela.
Tinha de ir conferir o local da obra e reunir com o empreiteiro. Estava completamente esquecido.
- Estou Filipe. Olha lá, não podes ir por mim aos Açores?
- Não posso. Aliás nem estou por dentro do projecto, o homem indicado és tu. Leva a Sónia e diverte-te. A miúda tem um fraco por ti.
- Não sejas parvo. Lá estás tu.
- Olha lá oh parvalhão só tu não reparas.
Este gajo tinha cada saída. A Sónia era a arquitecta mais antiga que tínhamos. Mas fora isso, mais nada sabia dela, até pensei que fosse casada. Aliás, quase tinha a certeza de que era casada.
- Engenheiro está aqui a Arquitecta Sónia.
- Mande-a entrar.
Bastaria olhar para a mão dela e procurar a aliança.
- Olá Sónia. Bom dia. Como está o projecto dos Açores.
- Quase pronto engenheiro. Ainda com muita coisa para analisar. Em especial a estrutura e as redes de esgotos domésticos e pluviais. Mas de resto está tudo praticamente decidido para mostrar aos americanos e ao Sr. Matta.
- Mandei marcar hotel para os dois para a semana com a Judite, confirme os dias e veja com o namorado ou marido se pode ir. – disse eu esperando uma resposta e tendo notado a falta da aliança.
- Não há problema, não padeço desses males.
- Que males?
- Maridos e namorados…
- Tudo bem, verifique as datas com a Judite. E faça uma impressão de tudo para eu verificar.
- Depois de almoço estarão na sala de reuniões.
- Tem compromisso para almoçar? Podíamos aproveitar a hora de almoço para ver algumas coisas.
- Tudo bem. À uma hora no estacionamento da empresa.
De facto, pouca ou nenhuma atenção dava às pessoas que me rodeavam. E muito pouco ou nada sabia deles. Da minha filha à minha empregada. Da secretária à uma arquitecta que trabalhava comigo desde o principio da empresa. Até com os meus pais, pouca ou nenhuma relação já tinha.
Recostei-me na cadeira e olhei para a minha vida. Nas mudanças dos últimos dias, e no que tinha desperdiçado. Não podia fazer nada sobre o passado. Mas para o futuro podia tentar mudar. E nada melhor que o almoço para começar.
Revi mais um monte de papéis e deixei uma série de notas para o Filipe. Ao meio-dia liguei para a extensão da Sónia e disse-lhe:
- Vamos sair já. Quero ir a um local que não vou há muito tempo.
- Cinco minutos.
- Até já.
Desci ao estacionamento e liguei o carro. Olhei pelo espelho e vi-a chegar em passo apressado.
- Vamos?
- Sim. Mas que local é esse. – questionou ela.
- Direcção Cascais. Objectivo Guincho. – respondi eu sorrindo.
- Estamos muito animados hoje. Sim senhor. Há muito tempo que não o via assim.
- Eu sei Sónia. A trabalharmos há tanto tempo juntos e não sabia nada de si. É imperdoável eu sei.
- Não tinha que saber, mera relação patrão versus empregada.
- Eu sei que dou a entender que não me apercebo do que se passa à minha volta. Mas decidi mudar. Quero dar mais valor a todas as pequenas coisas que me rodeiam.
- Estou perdida. Está a falar de quê.
- A falar que nunca dei valor às pessoas que trabalham comigo. Como a Sónia por exemplo.
- Por momentos assustou-me. Pensei que se ia declarar.
- E se fosse?
- Eu sou lésbica. Nunca reparou.
- Não. Desculpe, não tinha dado por nada.
Calei-me e fiquei sem saber o que dizer, era um tema que me deixava normalmente sem saber o que dizer. E ainda por cima dito assim. Ainda pior.
- Estava a brincar consigo. Não sou lésbica. – disse sorrindo e continuou. – Apenas me apeteceu brincar consigo, ando há anos a mostrar-lhe o meu interesse e nunca se apercebeu pois não?
- Não. Desculpa Sónia. Nunca dei conta.
- Eu sei. Tens mil coisas nessa cabeça e não dás atenção a mais nada a não ser ao trabalho, nem a ti próprio dás atenção. Mas não faz mal.
- Sinto-me isolado na empresa. Sei que sou visto como o boss e pronto. Não permito mais nada. Nem deixo ninguém aproximar-se.
- Toda a gente nota e sabe isso. O Filipe pelo contrário já as correu quase todas. Poucas devem faltar. – disse sorrindo.
- Deves faltar tu e a Judite?
- Sim, e talvez a Dona Manuela.
- Quem é essa?
- A senhora da limpeza.
- Ah. Já sei. – disse eu sem saber de facto de quem falávamos e continuei. – Mas não me vais dizer que tens andado este tempo todo à espera que te convidasse para sair?
- Queres a verdade?
- Sim, claro.
- Andei sim. Não me perguntes porquê. Houve alturas em que me fartei de ver a minha vida reduzida ao trabalho e a ver-te por escassos minutos. Mas depois descobri que era feliz assim.
- Estranha felicidade…
- Eu sei. Mas valeria a pena namorar, pensando noutra pessoa. Ou arranjar um namorado para esquecer um amor ou uma paixão?
- Tens razão. Mais vale tarde que nunca.
Nunca imaginaria esta conversa com a Sónia, muito menos com a abertura que ambos estavámos a ter. Éramos amigos, fazíamos uma grande dupla. Mas daí a estar a falar de amor com ela ia um grande passo. Um passo de facto muito grande.
Escolhido o Porto de Santa Maria, apressei-me a sair do carro para a poder olhar com atenção. Ficara curioso com aquela declaração e com toda aquela franqueza. De facto, tinha mesmo andado a dormir em relação a gente à minha volta.
Nada faláramos de trabalho. Perdêramo-nos na conversa que tinhas acabado de ter no carro e deixámos correr o resto da tarde. Rimos com alguns episódios da vida da empresa. E fiquei a conhecer a história da vida dela. Simples, dedicada e mulher de um só homem. Exactamente o que eu procurava pensei para comigo.
