quinta-feira, julho 27, 2006

o resto da trigésima quarta parte

...
Boa. Aquele gajo era o João. De repente perdi o medo. Senti-me mais calmo e com vontade de lhe partir a tromba. Não fosse a merda da faca que tinha na mão.
- Tem calma João. Não farei e farei nada de mal.
- Cala-te meu. E passa a guita.
- Passo-te um cheque se desapareceres. Escolhe um valor e promete não voltar.
- Foda-se meu, és como o pai desta gaja. Resolves tudo com cheques. Vai-te foder. Ainda te espeto. Passa mas é a guita.
- Tem calma, está aqui. – disse eu meio nervoso entre o aproximar da faca e o ar meio louco do gajo.
Atirei tudo para o chão, dinheiro, relógio e telemóvel, na esperança que ao apanhar o pudesse pontapear.
- Tás a gozar meu. Apanha essa merda e mete em cima da mesa. Foda-se ainda te espeto. Tás armado em parvo. Vá depressa.
Baixei-me para apanhar tudo e senti um forte pontapé no estômago e as mãos dele no meu cabelo.
- Bico calado ou sangro-te aqui filho da puta…
- Tem calma, leva tudo e vai-te embora…
- O menino tá borradinho… Tás aqui tás a sangrar…
- Vai-te embora João. Por amor de Deus vai-te embora. – gritou a Cláudia sem parar de chorar. – Vai por amor de Deus.
- Não limpei o sebo ao teu pai mas limpo a este cabrão e à filha dele. Ouve-me bem. Eu limpo o sebo a este cabrão e à filha dele…
- Vai-te embora! Saí da minha vida de uma vez! Por favor João. – disse a Cláudia implorando e não parando de chorar.
Ao sentir que abrandou o apertar dos meus cabelos, levantei-me segurando a mão onde tinha a faca. Olhei-o nos olhos e sem pensar puxei da cabeça atrás e dei-lhe uma cabeçada monumental entre os olhos e o nariz. Fiquei meio tonto mas senti que deixara cair a faca e que caíra de joelhos no chão. Procurei a faca e agarrei-a num ápice. O sangue jorrava por entre os dedos, de tal maneira que se deixara de ver o rosto. Balbuciou qualquer coisa e caiu para o lado.
- Meu Deus. Que fizeste Miguel. Mataste-o… Ai meu Deus. Ele está morto. – disse a Cláudia a gritar.
- Cala-te e chama a policia, ou melhor o 112…
Parei, olhei à volta e agarrei no telemóvel. E liguei para o Filipe.
- Estou Filipe, vem depressa para a casa da Cláudia.
- Passa-se alguma coisa?
- Vem o mais depressa que consigas.
Como a Cláudia nada fizera, liguei o 112 e dei a morada. Pedi também para trazerem a policia e relatei o estado da vítima. Só então me debrucei sobre o desgraçado. Respirava, não estava morto. Fui à casa de banho e apanhei umas toalhas para o limpar. Limpei-lhe a tromba e de anormal aparentemente só um osso branco estava fora no nariz, meio espetado e partido em dois. Molhei-lhe a cara e tentei fazê-lo voltar a si. Tomei-lhe o pulso para ver se estava vivo. E esperei que chegasse o 112. Ouvida a sirene, fui à janela fazer sinal. Na rua estava também já o Filipe e um carro da polícia. E fui para o hall abrir a porta.
- Onde está o ferido? – perguntou um homem vestido de branco.
- Ali ao fundo no quarto. – disse eu apontando a direcção.
O Filipe vinha com dois agentes da PSP, que entretanto se me dirigiram e questionaram sobre o ocorrido. Um sentou-se comigo na sala e o outro foi ver o estado em que estava o João.
Tentei acalmar-me e ser racional. Perceber toda aquela confusão e ser lúcido e objectivo nas explicações de tudo o que ocorrera. Olhei a maca a passar e o João a levar uma máscara para ajudar a respirar.
Os dois agentes sentaram-se então comigo e perguntaram detalhadamente o que se tinha passado.
- Tenha calma. – disse-me um dos agentes. – Que se passou?
Detalhadamente contei tudo o que me lembrava e o que tinha acontecido. Todos os pormenores, e tudo o que achei importante.
- Agiu bem, mas com estes drogados nunca de deve arriscar: Valia mais deixá-lo ir. – confidenciou-me o agente mais velho. – Vão-se os anéis mas ficam os dedos.
- É como o meu colega diz. – disse o outro, meio a rir. – Era para a dose diária, não valem o esforço acredite. Mais dia, menos dia acabam num beco qualquer, com uma seringa entre os dedos dos pés.
Tinha-me esquecido da Cláudia e pedi aos agentes se a podia ir ver. O Filipe já lhe levara um copo de água e estava mais calma. Mal entrei abraçou-me e disse-me:
- Tive medo de te perder. Amo-te muito.
- Tem calma, já passou. O Filipe fica aqui contigo enquanto eu trato de tudo. – disse limpando-lhe as lágrimas.
Voltei à sala e os dois agentes já de pé, agiam como se nada fosse.
- Hoje à jogo da Liga dos Campeões, a ver se o Porto ganha ao Manchester. – disse com ar irónico.
- Vai ganhar. – Disse eu meio orgulhoso do meu clube.
- Já que mais ninguém ganha, que ao menos ganhem eles…
- Como os senhores agentes devem imaginar, nunca me vi envolvido numa situação destas, nem sei que passos dar.
- Tenha calma. Falta só dar-nos os seus dados e esperar. Normalmente, estes gajos não têm, onde cair mortos. E a si aconselho-o a não apresentar queixa. Só lhe vai trazer chatices. E a ter que encontrar o gajo mais vezes.
- Compreendo. Têm aqui um cartão meu, com todos os dados.
Pegou no cartão e mudou de cor.
- Senhor Engenheiro como está?
- Desculpe. Não me lembro de si, mas no meio desta confusão, compreenda.
- Tem razão. Desculpa peço eu. Sou o marido da sua secretária. A Judite Morais. Está a ver aqui. - disse apontando para o crachá – Alberto Morais.
- Peço desculpa. Não me recordava…
- Vá descansado e esqueça este episódio, nós tratamos de tudo…
- Tratam de tudo?
- Sim. – disse-me ele piscando o olho. – O senhor merece.
O colega estava meio aturdido com tudo, e meio incrédulo. Mas com um encontrão e um piscar de olho, percebeu o que eu não percebi nem relacionei.
- Foi este senhor que mandou as caixas de sardinhas para as festas dos Santos Populares. - disse com um ar pomposo. – E que mandou a minha Judite, para casa quando o meu do meio esteve com a Varicela. Nem um dia lhe descontou e ainda lhe ofereceu a consola de jogos.
- Senhor engenheiro. Fique descansado, trataremos de tudo. – disse o outro completamente transformado e com um ar venerado.
- Cumprimentos ao vosso senhor comandante. – disse acompanhando-os à porta.
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