sábado, setembro 23, 2006

quadragésima primeira parte

Eram quase oito da noite, dera bem com a Brandoa, e com a rua que me indicara, estacionei no início da rua e procurei o número trinta e um, segundo esquerdo.
Lá estava, olhei o prédio. Uma construção recente e bem enquadrada. Toquei à campainha e logo se abriu a porta. Subi a escada e lá estava ela, toda atarefada, e logo a fugir para a cozinha.
- Entra e fecha a porta. – ouvia dizer já ao fundo.
- Trouxe vinho… queres que o meta onde?
- Desculpa… entra para a cozinha. É tinto ou branco?
- Tinto… convinha abrir já e deixá-lo respirar um pouco…
- Na segunda gaveta, tira um saca-rolhas…
- Queres ajuda?
- Não precisas ajudar… safo-me sempre bem. Só que hoje meti-me a fazer uma coisa que não fazia à muito tempo e ainda nos arriscamos a ir comer fora… – disse a sorrir.
- Que estás tu a fazer conta lá?
- Bacalhau à Braz, com salada…
- Hum, e onde foste saber que é o meu preferido?
- Tenho as minhas fontes…
- Imagino, a Judite telefonou para casa e perguntou à Dona Madalena…
- Não. Enganado, foi o Filipe que me disse.
- O Filipe, nunca liga a nada nem fixa nada… ia lá saber o que eu gosto de comer…
Abri o vinho e enchi dois copos pela metade, sentei-me e olhei para as habilidades culinárias da Sónia com vontade de me rir. E meti-me com ela:
- Há quanto tempo não cozinhavas?
- Oh, não comeces, os meus pais moram em frente, é mais fácil ir lá comer todos os dias. Depois com os horários que faço, nem sempre tenho tempo para cozinhar em casa.
- Falou a sindicalista. – protestei a sorrir.
- A sério. E depois cozinhar só para mim é chato.
- Sim tens razão…
- Vai conhecer a casa. Estás à vontade… Enquanto termino o jantar…
Sai para o hall e reparei na sala, nos dois quartos e a típica casa de banho a dar para o centro da casa. Comecei pela sala e olhei os DVD’s, os dois quadros pintados por ela. Olhei pela janela para o prédio em frente e imaginei os pais a rezar para a filha acertar com o jantar que ia dar ao patrão.
Entrei num dos quartos e acertei no de dormir, adorei os tons de azul e um outro quadro que me fazia lembrar o mar. Abri a porta do outro e deparei-me com um santuário de projectos, esquiços e maquetes. Uma enorme mesa com um computador e imensas folhas rabiscadas, meio desenhadas, meio pintadas. Olhei uma parede nua e fiquei com a sensação que faltava ali algo. Aliás notei a marca do pó. Olhei à volta, e quase estive para a questionar. Mas detive-me e passei uns quadros que estavam encostados à parede. Mas nenhum me pareceu daquele lugar. Olhei de relance para detrás da estante e bingo. Lá estava ele.
Virei-o para mim e olhei-me pintado a aguarela. Com menos uns anos e ainda de bigode e pêra que usara durante uns anos. Pendurei-o na parede e encaixava perfeitamente. Sentei-me e rodei a cadeira para me ver melhor. Estava como nunca me tinha imaginado. Saboreei o vinho e respirei fundo.
Olhei-me melhor, os detalhes do rosto, a suavidade das pinceladas e senti-me chorar. Melhor do que qualquer comentário, as minhas lágrimas diziam tudo.
Tantas vezes temos a felicidade nas mãos e a deixamos fugir. A deixamos escapar entre as mãos. Que parvo fora nunca me ter apercebido do que se passava à minha volta. Não dava importância a quem devia e cada vez mais só via o trabalho.
- Estás aqui. – disse ela pregando-me um valente susto.
- Contemplava-me. – disse olhando o quadro.
- Oh, não devias. Não era suposto descobrires ou ficares a saber.
- Sim eu sei. Até o escondeste…
- Foi sem intenção… não queria que me imaginasses louca ou demente a implorar para te ter. Um dia há-de passar…
Levantei-me da cadeira, pousei o copo e abracei-a. Abracei-a forte
- Queres que passe? – disse-lhe ao ouvido.
- Não…
Afastei-a ligeiramente e ficámos de faces coladas. Senti vontade de a beijar, mas medi o passo. Tentei sentir se cá dentro era aquilo que queria. Encostei a minha testa na dela e disse-lhe:
- Tenho medo. Sinto que te quero e não sei se quero. Sinto que te desejo e não sei se desejo. A minha vida tem sido complicada, muito diferente do que imaginas. Ando meio perdido e não te queria arrastar comigo…
- Não te pedi nada…
- Eu sei. Apenas não queria que sofresses. Que andasses a criar mais ilusões. Não te queria usar e deitar fora. Só isso.
Calei-me na esperança que dissesse algo, e no meio do silêncio continuei.
- Sabes, nestes últimos meses tenho feito asneira atrás de asneira, às vezes sinto que devia parar. Travar a fundo e encostar como se fosse um carro. Mas não sei se consigo. Ter-te agora seria como entrares na minha vida e entrares num carro a duzentos à hora…
- Escuta, não te pedi nada… nem pedirei. Não tens que te sentir obrigado a nada. Um dia passa e ainda havemos de nos rir de tudo isto. Anda vamos jantar. – disse dando-me a mão.
Entrei na cozinha com duas velas enormes em cima da mesa e sorri. O ambiente perfeito. A mulher perfeita e eu armado em parvo.
- Adoro velas. – disse ela justificando o ambiente.
- Está muito giro, não sejas tontinha. E até se vê bem para comer. – disse eu a sorrir. – Ainda não tocaste no vinho.
- Façamos um brinde.
- Sim, façamos. – concordei eu.
- Aos amores impossíveis…
- Só aos amores, aos que são verdadeiros e que duram contra tudo e todos…
Bebemos e sentámo-nos. Olhei a cara dela meio triste. Estaria à espera de algo mais. Mas senti-me impotente. Não conseguia. Na minha cabeça corriam mil pensamentos, mil imagens, sem nenhum se deter e dar-me um sinal.
- Afinal cozinhas bem...
- Tem um bocadinho de sal a mais. – disse ela corando.
- Nada disso, está óptimo.
Bem, estar salgado estava, mas com o vinho comia-se bem. Pena fora não ter trazido duas garrafas.
- Não metas mais vinho, não estou acostumada…
- Vá, dividimos o resto. E tu já estás em casa…
Acabamos o vinho no sofá da sala e a conversar pormenores do projecto dos Açores. Olhei as horas e ela meteu-me à vontade.
- Não precisas fazer sala…
- Nada disso. Precisava só de ir ver um mail. Posso?
- Ah. Desculpa fui parva. Vai enquanto arrumo a cozinha…
Num salto fui ao escritório e entrei no chat. Olhe a porta a ver se âo entrava e procurei a maria76.

- mensagem para maria76: olá
- mensagem de maria76: olá
- mensagem para maria76: tou no escritório ia sair para casa
- mensagem para maria76: mas entrei
- mensagem para maria76: porque não tinha o teu número
- mensagem de maria76: número para?
- mensagem para maria76: vou ao porto este fim-de-semana
- mensagem para maria76: e pensei
- mensagem de maria76: e pensaste mal…
- mensagem para maria76: ok
- mensagem para maria76: desculpa
- mensagem de maria76: lol
- mensagem de maria76: tava a brincar
- mensagem de maria76: anota…
- mensagem de maria76: 93…
- mensagem de maria76: e vai para casa descansar
- mensagem para maria76: ok
- mensagem para maria76: beijo
- mensagem de maria76: outro

Saí do chat e entrei no site da empresa, não fosse ela ver o histórico. Fechei as janelas e fui ter com ela à cozinha.
- Fui ao Sapo ver a que horas era o jogo do Porto no domingo, vou ver e faço uma reunião pelo Filipe. Venho na segunda pela tarde…
- Terça à noite vamos para os Açores.
- Sim, eu sei, a Judite comentou-me.
- Queres café?
- Sim, normal sem açúcar.
- Eu sei. – interrompeu ela.
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