
trigésima primeira parte
O sol entrava por duas ou três filas irritantes dos estores. Olhei o relógio e eram quase nove da manhã. Senti um corpo nu ao meu lado. E aconcheguei-me. Adorava a sensação do corpo nu, quente e a colar-se ao meu.
Rodei na cama para ficar de frente para ela e adorei o rosto dela. Era fantástico. Meio brilhante, bem delineado e muito bonito. Deixei descair o lençol, passei a mão pelo peito e pela barriga. Encolheu-se e abriu os olhos.
- Bom dia princesa.
- Bom dia amor. – disse sem saber muito bem onde estava.
- Sou eu. – disse eu meio a brincar.
- Eu sei parvinho. Estou cheia de sono. Deixa-me dormir um bocadinho mais. – disse-me virando-se ao contrário. – encostas-te a mim.
- Assim, bem aconchegado? – disse eu aproveitando-me da situação e meio a rir.
- Sim amorzinho. – disse já de novo meio adormecida
- Dorme princesa.
- Amo-te muito João.
João? João? João? Foda-se. Que merda é esta. Mas quem raio é este João, afastei-me ligeiramente e estive para a acordar. Para a questionar naquele exacto momento. Mas senti-a a dormir profundamente e nada disse. Afastei-me mais um pouco e saí da cama.
Fui para a casa de banho e olhei o espelho. João ? Mas que merda é esta. Passaram mil imagens, mil histórias, mil confusões. Que raio, quem seria este João. Por dentro algo me roía. Não conhecia este sentimento, esta dor que vinha não sabia bem de onde. Desci ao escritório e abri uma das gavetas, tirei uma caixa velha conhecida e olhei a validade. Tirei dois comprimidos e meti-os na boca. Em passo largo fui à cozinha e bebi água.
Olhei a serra entre a janela. O velho monte da lua. Que tantas vezes me ouvira, que tantas outras me protegera e que agora nada dizia. Saí ao terraço e esperei ouvir o vento, o sol ou a lua mas nada. Estava só.
Subi ao quarto e acordei-a. Não aguentava mais.
- Cláudia acorda...
- Fogoooooooo. Estás chato hoje…
- Quem é o João, ou quem foi o João na tua vida?
- Que João, tás parvo ???
- Acabaste de me chamar João.
Olhei-a nos olhos e sentia-a fugir. Como se fosse possível fugir pelos pequenos raios de sol que entravam pela janela. Mas fugiu, estava longe. Muito longe. Fiquei a olhá-la e nada saiu. Aguardei uns instantes e nada. Nada mesmo.
- Estás bem? – perguntei a ver se a fazia voltar.
- Sim estou. Desculpa. Estava longe…
- Sim. Notei que estavas… queres falar sobre isso… sobre essa viagem e essa cara triste?
- Não é triste. É voltar a uma história que quase estava esquecida. Apenas isso.
- Estou pronto a ouvir.
Notei-a imensamente nervosa, como se dali viesse uma história de dragões e princesas. Acalmei-a e disse-lhe que estava tudo bem. Era passado. Podia falar e confiar em mim.
O João tinha sido o único homem da vida dela. Namorado dos 16 anos até os pais a mandarem para Lisboa. O homem da vida. A paixão que não se esquece, por ser a primeira, por ser a da descoberta, por ser a mais bela. Fui escutando, como uma criança escuta uma história de adormecer. Sem maldade, sem duvidar. Mas fui obrigado a exclamar:
- É bonito sem dúvida, mas porque fugiste? Estavas distante, presa a algo mais que isso.
- Sabes, quando meu pai me mandou para Lisboa, eu estava grávida. Só nós dois sabíamos. Estive um mês sozinha e ele veio depois. Os meus pais deixaram de o ver na terra e suspeitaram, e vieram sem nós esperarmos. Apareceram uma noite em casa. E o meu pai ia-o matando, ao tentar socorrê-lo, no meio da confusão, caí e perdi o bebé. Só nessa altura os meus pais souberam. Num hospital, dito por um médico que tinham perdido uma neta. A gravidez era já de cinco meses… - disse com as lágrimas a correrem pela face.
- Que aconteceu ao João? - perguntei meio incrédulo com tudo.
- O João desde essa noite, depois de saber a noticia, nunca mais soube nada dele. Evaporou-se. Nem na terra os pais sabem de alguma coisa. O dele entretanto morreu e ele nem ao funeral veio…
- Queres que te vá fazer um chá? Buscar um copo de água?
- Estou bem. Não precisas. – disse a limpar o rosto. – É esta a minha história. Agarrei-me aos estudos, ao trabalho no banco e segui a minha vida. Foste o segundo homem da minha vida…
- E se o João um dia voltar?
- Se voltar volta. Não me diz nada. Há muito tempo que não me diz nada. Deixou de dizer. Não se foge assim de uma paixão, de um amor. Olho para trás e sei, sinto que os meus pais tinham razão. Éramos muito novos, eu tinha dezoito, ele vinte.
- Mas os teus pais mudaram muito, nunca os encaixaria nesta história.
- O aborto foi complicado, estive entre a vida e a morte. Salvei-me eu mas o bebé não teve a mesma sorte. Os meus pais também cresceram com tudo aquilo. O mais complicado foi quinze dias depois, na saída, procurei o João e nada dele. Em lado nenhum. Até hoje, nunca mais soube nada dele.
Abracei-a forte, e apeteceu-me dizer que eu nunca fugiria. Mas calei-me. Apenas sussurrei: Está tudo bem agora, eu estou aqui.

2 Comments:
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