quarta-feira, outubro 11, 2006

quadragésima segunda parte

Estas viagens pela A1 em direcção ao Porto tinham o condão de me esvaziar a cabeça. A preocupação de procurar BMW’s de cor escura ou SUBARU’s de cor berrante conseguiam de facto afastar tudo o resto.
Fazia parte da viagem sempre acima dos 220Km/hora, dizendo a verdade sempre perto dos 240, mas se visse alguém ou se passasse por aglomerados de carros reduzia sempre bastante. Agora se nada ma aparecesse à frente tinha a sensação de poder levantar voo.
E hoje era um desses dias, estava ansioso por chegar. Mandara uma mensagem à Maria a dizer:
”são dez da manhã e vou a caminho do porto queres almoçar?”
Estava quase em Coimbra quando recebi a resposta:
”acabei de acordar sim quero”
Boa. Encostei na primeira bomba e respondi de imediato:
”encontramo-nos onde? diz local e hora… vou a conduzir…”
Meti-me de novo à estrada e fui aguardando. Passaram uns longos minutos até que lá veio a resposta:
”porta da FNAC do norteshopping uma hora”
Não teria de ir tão apressado, pensei. Passava pouco das onze da manhã e já passara Coimbra. Olhei o céu, as arvores à minha volta e pensei: mais uma viagem ao mundo paralelo.
Tudo isto funcionava como uma droga, quanto mais fazia, mais queria fazer. Olhei-me no retrovisor e ainda pensei duas vezes em voltar para trás. Pensei mais que duas, estava sem rumo e senti-me assustado.
Tinha estado com a Sónia a pensar como seria a Maria, preocupado em ter o contacto dela par anos podermos encontrar. Passara o resto da noite a falar de trabalho, fugindo as todas as sugestões dela. E vinha fazer trezentos quilómetros para ter com uma estranha que nunca vira. Com a qual apenas trocara umas frases, uns pensamentos e pouco mais. Devo estar louco, só pode.
Sem dar por mim estava a entrar no Porto, pouco passava do meio-dia e meti-me a caminho do Norteshopping, queria chegar mais cedo e esticar as pernas. Estacionei, gratuitamente dentro do shopping ao contrário de Lisboa e subi.
Fui reparando em todas as mulheres pequenas que passavam por mim e imaginei a Maria a olhar para todos os homens altos com que se cruzasse.
Já não era um mundo paralelo. Era um jogo de encontros e desencontros, de sexo e busca desenfreada de felicidade. Era isso que procurava ali. Apenas sexo e felicidade.
Fui circulando com esta imagem e tentando justificar-me a mim próprio o que estava a fazer. Felicidade não era, não podia ser. Sexo! Sim, só podia ser sexo. O jogo como fizera com a Isabel. A vontade de ter uma estranha nua ao meu lado. A corrida desenfreada de ter tudo isto. Parei e olhei uma livraria.
Não olhei a montra nem os livros. Vidrei-me na ideia que me arrefecera por instantes. Afinal que procurava eu. Sexo e mais sexo. Conquistar pelo mero prazer de conquistar, mas logo de seguida perdia o interesse. Recordei um pensamento que tivera à uns tempos atrás, tudo não era mais que um campeonato, uma época de caça, ou uma simples lide.
Julgava-me diferente da maioria dos homens, mas este mundo paralelo despertara o jogador, o caçador que havia dentro de mim. E estava a lidar com tudo isto. A lidar, até ter o bicho de frente, nu, insegura, nas minhas mãos. E depois? Depois perdia o interesse. A Rute perdera o interesse. A loucura da Filipa parecia mais interessante e largara da mão a Rute. O jogo com a Isabel tinha sido mais excitante e já nem me lembrava do rosto da Filipa.
Como eu deve haver mais, pensei. Jogadores do mundo virtual. Caçadores sem piedade de bichos perdido. Sem rumo ou sentido e que a tudo se entregam. E haverá bicho mais belo que a mulher? Claro que não, conseguem ser em tudo melhor que nós. Nada haverá onde lhes consigamos fazer frente. Mas não vivem sem nós. Não conseguem mesmo viver sem nós. E se algumas acasalam. A maioria, uma larguíssima maioria não o faz. Não vive sem nós, não respira sem nós. E passam uma vida a fazer o que queremos, sem exigir nada, sem pedir nada. Tantas vezes sem uma flor, sem o mais simples agradecimento.
Sentia-me mal. Merda. Que estou a fazer. Correcto ou incorrecto o certo é que gosto. Está-me no sangue. Cresceu e não consigo tirá-lo de mim. Não me vejo sem a camuflagem esperando mais uma vítima. Sem evitar este ou aquele flanco e logo ataca pelo contrário.
Olha as montras e deixa-te de merdas. Se tu queres elas também o querem. Não obrigaste nenhuma até hoje, pensei, tentando justificar-me.
- Olá.
- Olá…? – respondi meio perdido.
- És o Miguel?
- Sim. Tu a Maria?
À minha frente tinha uma miúda, perto dos trinta. Pequenina como uma boneca, de cabelo escuro e olho vivo. De casaco largo, e meio desajeitada, quase fazendo lembrar um palhaçito.
- Sim, mas todos me tratam por Margarida.
- Como preferires..
- É quase uma e meia, pensei que tivesses desistido e resolvi dar uma volta. – disse interrompendo-me, e continuou sorrindo. – Eras o único que por aqui andavas com ar de mouro e meti-me contigo.
- Perdi-me a olhar a montra…
- Gostas de livros?
- Apenas de ler e tu…
- Também… para escrever não tenho jeito.
- Somos dois… vamos almoçar?
- Queres ficar aqui ou ir a outro lado?
- Tanto faz, conheço pouco, escolhe…
- Que gostas de comer?
- Quase tudo. Ou mesmo tudo. A sério tanto faz.
- Vamos a Leça. Lá temos mais escolha e estamos perto.
- Tenho o meu carro aqui, nestas escadas… é só descer.
- Ok vamos.
Seguimos em passo apressado e fomos na direcção de Leça.
- É mais fácil falar no chat. – resmunguei eu sorrindo.
- Somos dois estranhos é uma verdade, mas isso resolve-se, combinemos falar como se lá estivéssemos.
- Ok.
- Falar de tudo?
- Ok falemos de tudo. – disse eu de novo a sorrir.
- Em que pensas?
- Lá estás tu. Só sabes essa?
- É para falar como se lá estivéssemos…
- Hum, em que penso?
Sorri e olhei o espelho. Sem pensar provoquei-a.
- Qual seria o número do teu soutien…
- 36… só isso?
- Que não me apetece ir comer a Leça…
- Então?
- Ir para um hotel e comer-te…
- Logo assim?
- Não foi para isso que viemos?
- Foi e não foi…
- Foi ou não?
- Deixa-me explicar.... – respondeu meio nervosa. – Agradas-me. Mas logo assim para um hotel é estranho…
- Eu sei. Estava a ver o que dizias…
- Mas agrada-me… vamos. – disse já corada e nervosa.
- Queres mesmo?
- Fogo já disse que quero… tás trengo?
Oh por quem sois. Mortinho estava eu por tirar o casaco e tudo o resto. Nem dei conta do registo e de subir o elevador. Quanto mais do hotel para onde fomos. Senti fazer stop a meio de uns pisos e apalpá-la toda. E ser todo revisto e mexido. O quarto dava para o meio da cidade, mas isso pouco importava, corri o cortinado, arranquei literalmente a roupa dela e senti a minha voar.
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