
vigésima quarta parte
Eram quase seis da tarde e tinha ficado de ir buscar a Ana à escola. Detestava aquela farda do colégio, mas tinha sido uma escolha dela e limitara-me a respeitar. Era assim desde pequena. Tinha poder de escolha e decisão, depois não valia tentar voltar a trás. Já sabia que eu não cedia a alterações de percursos.
Entrou no carro eufórica. Mas isso era normal. Entrava sempre. Abriu a mala do carro, despejou as três ou quatro mochilas e sacos que trazia, e começou logo com perguntas.
- Vamos buscar a Cláudia ? Será que ela se chateia de a chamar Cláudia?
- Acho que se chateia se lhe chamares madrasta. – disse-lhe sorrindo.
- Então como lhe vou chamar ?
- Boa pergunta. Mas essa pergunta tens de a fazer a ela não achas ?
- Oh. Podias ajudar, fico envergonhada…
- Envergonhada tu ? Deixa-me rir. – disse eu já a gozar para a descontrair.
- Vais ter filhos dela ?
Pois. Era de esperar. Desta cabecinha ainda não tinha vindo nenhuma complicada. Mas aí estava a primeira.
- Gostavas de ter irmãos ?
- Eu adorava. – disse ela com um sorriso de orelha a orelha.
- Então quem sabe, façamos uma encomenda.
- Vão adoptar ? Pensei que os fizessem…
Isto está mais complicado do que pensei. Sem dar conta a pirralha crescera imenso e conseguia deixar-me a pensar.
- Claro que vamos fazer. Estava a brincar…
- Tavas era a ver se me enganavas. Já começaram a treinar ? – perguntou com um ar descontraidíssimo.
- Olha lá que conversas são essas ? Estamos muito saída da casca.
- Oh paizinho não fiques envergonhado, eu sei como é…
Naquele momento senti perder metade da vida dela. Na escola entre colegas já deviam falar de tudo e eu a fazer dela uma inocente. Era este medo que tinha. Que crescesse e eu não desse conta. Já está. Tenho de me preparar e começar a falar com ela sobre tudo.
Enviei uma mensagem à Cláudia dizendo que já a esperava na porta do prédio e aguardei. Estava ansioso. Virei-me para trás e descontraidamente fui conversando com a Ana sobre a Escola, tentando ao máximo desviar a atenção do acontecimento. Apenas o toque da mensagem de resposta da Cláudia me interrompeu.
”tenho uma surpresa para ti, espero que não te zangues”
Boa. Zangar não me zango, mas que fiquei com o coração aos pulos fiquei. Já trouxer a Ana sem ela saber. Que seria a surpresa dela. Virei-me para trás e recomendei à Ana que se portasse bem. E reparando naquela cara de princesa ansiosa, sabia que se portaria.
Olhei a porta do prédio ansioso e nada. Passado uns minutos vi sair um casal e logo atrás a Cláudia. Magnifica, deslumbrante, como nunca a vira. Nem consegui olhar para mais lado nenhum. Fitei o olhar nela e quase me perdia.
Nem me apercebi que o casal se dirigia também a nós. Porra quem são estes agora ? Sai do carro e fui na direcção dela.
- Olá princesa. Estás deslumbrante.
- Olá amor. Queria apresentar-te os meus pais.
Pais ??? Pais ??? Pais ??? Merdaaaaaaaaaaa… Só mim, sim isto só a mim. Não isto não acontece a mais ninguém. Tentei não dar parte de fraco. E manter a minha postura. Mas apetecia-me gritar: E gritar bem alto.
- Prazer. Miguel Lopes. – disse estendendo a mão ao pai.
- Prazer. João Carrasqueira. A minha esposa Maria Fernanda Carrasqueira.
- Esta menina que está ansiosa no carro é a Ana. – que ao meu sinal parecia uma mola e saltou do carro.
- Olá, eu sou a Ana.
Todos sorrimos e por momentos senti quebrar o gelo. Mantivemos a conversa ali mesmo no passeio por mais uns instantes, até que questionei sobre o jantar.
- Como fazemos Cláudia ?
- Desculpa Miguel, mas ontem falei com a minha mãe e vieram a correr, chegaram à meia hora, faz como preferires.
- Se não se importarem de arriscar, penso que em casa deverá haver comer para todos, se bem conheço a D.Madalena, fez comer para dez. – disse sorrindo. – Se o Sr. João preferir, posso reservar o restaurante que pretender em minutos.
- Ora essa. Trate-me por João. E o comer, não somos de cerimónias. Que preferes Nandinha ?
- A Cláudia que decida ? Que preferes minha querida ?
- Vamos para casa do Miguel.
- Em que carro vamos ? – perguntei à Cláudia.
- Vai no teu que eu vou no deles, depois para voltar é mais simples.
- Ok, até já então.
Saí e avancei uns vinte metros para lhes dar tempo de entrarem e virem atrás. A Ana estava como eu. Calada e estupefacta. Esta noite ia ser uma aventura.
Liguei a correr para casa e informei a D.Madalena do facto de irem mais duas pessoas. Mas esta logo me descansou. Tentei parar e pensar se algo faltaria. Por norma não. A casa costumava ter de tudo. Do bom vinho a boa comida, por mais estranhos que fossem, não haviam de se queixar.
Reparei então que vinham num AUDI A6, com motorista. Boa, é só novidades hoje. Procurei o número do Rafael e liguei-lhe a correr:
- Estou Rafael ? Miguel Lopes. Estás bom.
- Olá Miguel sim e tu como estás.
- Estou bem mas a precisar de um grande favor teu.
- Para ti todos. Diz-me que precisas.
- Um anel tipo noivado com um diamante…
Do outro lado fez-se silêncio durante vários segundos.
- Repete lá ? Esta merda da linha deve estar trocada.
- Um anel tipo noivado com um diamante…
- Não leves a mal mas repete lá…
- Percebeste bem, é isso mesmo, e tens meia hora para o ter em minha casa e entra pela cozinha sem dar nas vistas.
- Tudo bem amigo. Tens de me contar essas novidades todas depois. – disse ele meio a duvidar de mim. – Olha lá que tipo e preços de anel ?
- Tipo noivado sei lá, com um diamante. Olha o mais caro e mais bonito que tiveres. Confio em ti.
- Meia hora e está em tua casa. Que embrulho queres ? Olha deixa estar, confia em mim…
- Ok. Até já.
Atrás a Ana sorria. E senti no ar que me ia fazer uma pergunta complicada.
- Paizinho…
- Sim, diz princesa…
- A Cláudia está grávida ?
- Claro que não. De onde foste tirar essa ideia.
- Nada. A lado nenhum.
- Vá diz lá.
- Por causa do anel e de os pais dela virem a correr.
- Não te preocupes. Só não quero que pensem que somos uns quaisquer. E sempre é para a namorada do pai. Quando fores tu a namorar vai ser igual.

2 Comments:
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