vigésima segunda parte
Raio de despertador. Porque raio não se avaria à segunda-feira. Sem pensar, enfiei os chinelos e corri para a casa de banho. Durante anos sonhara ter uma barba à homem. Agora adoraria ter aquela cara de miúdo que fora minha. Dois dias seguidos sem fazer a barba, ia ser giro agora cortar estes pêlos de aço. Que merda. Ainda por cima a uma segunda-feira. Meti o creme de barbear e deixei-o estar a ver se amolecia o arame farpado. Fui ao closet tirar um fato cinza escuro, uma camisa azul e uma gravata com riscas largas azuis e vermelhas. Tirei uns sapatos e meti umas meias pretas dentro.
Passei a máquina a ver se tinham amolecido. Mas nada. Mais um minuto e tem de ser. Fui a um dos camiseiros onde tinha os boxers e fiquei a olhar. Boa. Qual vestir. Uns com morangos. Ou com uns tubarões. Nunca se sabe o andamento do dia.
Nesta perda de tempo, lá fiz a barba a correr, tomei banho e desci a correr. Na cozinha já me esperava o meu pequeno-almoço. Um iogurte magro, duas torradas e uma peça de fruta. Pensei para mim: bem não é aqui que engordo.
No primeiro andar já a D.Madalena preparava a Ana. Ainda gritei para lhe dar um beijo, mas a princesa estava no banho. Disse-lhe adeus e desci a escada para a garagem. Olhei os carros e decidi-me pelo jipe. Mais jovem mais desportivo. Um dos sonhos que sempre tivera. Como um puto que tem um doce, entrei no meu X5 e saí à campeão.
Estava bem. Sentia-me bem. E essa ideia alegrava-me imenso. O desvio pela Sintra rural, metia-me em Lisboa num instante e nem a imensidão de buracos me tirou a alegria.
Como sempre teria a minha Judite esperando com um sorriso de orelha a orelha e com a pergunta do café na ponta da língua. Subi a escada com este pensamento. E lá estava ela.
- Bom dia Judite…
- Bom dia engenheiro… Café ?
- Cinco minutos e traga, deixe-me fazer uma chamada rápida.
Entrei na minha sala, e parecia diferente, maia alegre, mais jovem, melhor decorada. Mas era tudo impressão. Estava tudo na mesma. Com os meus três quadros. A foto da Ana e uma série de impressões a três dimensões de obras que realizáramos.
- Bom dia princesa…
- Bom dia Miguel.
- Acordei-te ?
- Sim, que horas são ?
- Quase oito…
- Merda, beijo amor, tenho meia hora para estar no banco.
- Beijo, vai devagar.
Quer dizer, quando ligo é esta a resposta que tenho. Bem, estava atrasada mas podia ser mais doce. Que se lixe.
- Judite…
- Sim Engenheiro.
- Traga o café.
- Sim senhor, de seguida.
Liguei o computador e abri a caixa de mails da empresa para responder às questões colocadas no site. Tinha oito mails e fui respondendo, enquanto bebia o café.
- Quer ver o seu dia na agenda Engenheiro ?
- Sim traga a agenda. Quero ver o resto da semana.
- De importante tem na terça os compradores do lote de Odivelas, solicitaram a reunião para tentar um desconto relativamente à sua propostas dos três milhões de euros. Na quinta reúne com a nova empresa de advogados do consórcio dos Açores.
- Mas quem são esses novos advogados. Os outros não serviam ?
- O Engenheiro Filipe e o Sr. Matta, acharam que a Alves & Associados estavam a perder muito dinheiro com as expropriações, e estes foram recomendados pelo Sr. Vereador, deixei-lhe uma nota com a proposta deles.
- Ligue-me ao Filipe.
Detestava não saber todos os pormenores. Mas confiava no Filipe. Aliás sempre confiara, mas como quem não quer a coisa ia tirar as dúvidas.
- Estou Filipe. Bom dia.
- Bom dia. Fogo. Estava a dormir.
- Ok, tudo bem. Olha lá quem são os novos advogados para o consórcio e para as expropriações?
- Eh pá, foram aconselhados por aquele tal Vereador, esquece-me o nome.
- Sim sei quem é.
- A mulher dele coordena esse escritório de advogados, e em processos deste género tem mostrado resultados. Muito resultados.
- E quanto nos vai custar isso ?
- Menos que os outros, com a dupla vantagem que o gajo nos fica a dever um favor. - disse o Filipe ainda ensonado.
- Bem feito maninho. Dorme descansado que eu seguro o escritório de manhã.
Dissera a frase chave: mais barato. E com a vantagem de termos um favor a cobrar. De facto tudo estava a correr bem. Era destas segundas-feiras que adorava ter.
A manhã passara a correr. Quase nem dera conta. Apenas uma mensagem da Ana me fizera rir e às gargalhadas:
”como é a minha madrasta”
De facto só daquela cabeça. Mas tinha razão. Ainda não resolvera esse problema: E que problema. Não havia de ser nada. Sorri e continuei mergulhado em projectos e papéis.
Raio de despertador. Porque raio não se avaria à segunda-feira. Sem pensar, enfiei os chinelos e corri para a casa de banho. Durante anos sonhara ter uma barba à homem. Agora adoraria ter aquela cara de miúdo que fora minha. Dois dias seguidos sem fazer a barba, ia ser giro agora cortar estes pêlos de aço. Que merda. Ainda por cima a uma segunda-feira. Meti o creme de barbear e deixei-o estar a ver se amolecia o arame farpado. Fui ao closet tirar um fato cinza escuro, uma camisa azul e uma gravata com riscas largas azuis e vermelhas. Tirei uns sapatos e meti umas meias pretas dentro.
Passei a máquina a ver se tinham amolecido. Mas nada. Mais um minuto e tem de ser. Fui a um dos camiseiros onde tinha os boxers e fiquei a olhar. Boa. Qual vestir. Uns com morangos. Ou com uns tubarões. Nunca se sabe o andamento do dia.
Nesta perda de tempo, lá fiz a barba a correr, tomei banho e desci a correr. Na cozinha já me esperava o meu pequeno-almoço. Um iogurte magro, duas torradas e uma peça de fruta. Pensei para mim: bem não é aqui que engordo.
No primeiro andar já a D.Madalena preparava a Ana. Ainda gritei para lhe dar um beijo, mas a princesa estava no banho. Disse-lhe adeus e desci a escada para a garagem. Olhei os carros e decidi-me pelo jipe. Mais jovem mais desportivo. Um dos sonhos que sempre tivera. Como um puto que tem um doce, entrei no meu X5 e saí à campeão.
Estava bem. Sentia-me bem. E essa ideia alegrava-me imenso. O desvio pela Sintra rural, metia-me em Lisboa num instante e nem a imensidão de buracos me tirou a alegria.
Como sempre teria a minha Judite esperando com um sorriso de orelha a orelha e com a pergunta do café na ponta da língua. Subi a escada com este pensamento. E lá estava ela.
- Bom dia Judite…
- Bom dia engenheiro… Café ?
- Cinco minutos e traga, deixe-me fazer uma chamada rápida.
Entrei na minha sala, e parecia diferente, maia alegre, mais jovem, melhor decorada. Mas era tudo impressão. Estava tudo na mesma. Com os meus três quadros. A foto da Ana e uma série de impressões a três dimensões de obras que realizáramos.
- Bom dia princesa…
- Bom dia Miguel.
- Acordei-te ?
- Sim, que horas são ?
- Quase oito…
- Merda, beijo amor, tenho meia hora para estar no banco.
- Beijo, vai devagar.
Quer dizer, quando ligo é esta a resposta que tenho. Bem, estava atrasada mas podia ser mais doce. Que se lixe.
- Judite…
- Sim Engenheiro.
- Traga o café.
- Sim senhor, de seguida.
Liguei o computador e abri a caixa de mails da empresa para responder às questões colocadas no site. Tinha oito mails e fui respondendo, enquanto bebia o café.
- Quer ver o seu dia na agenda Engenheiro ?
- Sim traga a agenda. Quero ver o resto da semana.
- De importante tem na terça os compradores do lote de Odivelas, solicitaram a reunião para tentar um desconto relativamente à sua propostas dos três milhões de euros. Na quinta reúne com a nova empresa de advogados do consórcio dos Açores.
- Mas quem são esses novos advogados. Os outros não serviam ?
- O Engenheiro Filipe e o Sr. Matta, acharam que a Alves & Associados estavam a perder muito dinheiro com as expropriações, e estes foram recomendados pelo Sr. Vereador, deixei-lhe uma nota com a proposta deles.
- Ligue-me ao Filipe.
Detestava não saber todos os pormenores. Mas confiava no Filipe. Aliás sempre confiara, mas como quem não quer a coisa ia tirar as dúvidas.
- Estou Filipe. Bom dia.
- Bom dia. Fogo. Estava a dormir.
- Ok, tudo bem. Olha lá quem são os novos advogados para o consórcio e para as expropriações?
- Eh pá, foram aconselhados por aquele tal Vereador, esquece-me o nome.
- Sim sei quem é.
- A mulher dele coordena esse escritório de advogados, e em processos deste género tem mostrado resultados. Muito resultados.
- E quanto nos vai custar isso ?
- Menos que os outros, com a dupla vantagem que o gajo nos fica a dever um favor. - disse o Filipe ainda ensonado.
- Bem feito maninho. Dorme descansado que eu seguro o escritório de manhã.
Dissera a frase chave: mais barato. E com a vantagem de termos um favor a cobrar. De facto tudo estava a correr bem. Era destas segundas-feiras que adorava ter.
A manhã passara a correr. Quase nem dera conta. Apenas uma mensagem da Ana me fizera rir e às gargalhadas:
”como é a minha madrasta”
De facto só daquela cabeça. Mas tinha razão. Ainda não resolvera esse problema: E que problema. Não havia de ser nada. Sorri e continuei mergulhado em projectos e papéis.

2 Comments:
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