segunda-feira, novembro 20, 2006

the end

Cheguei ao aeroporto pouco depois das cinco. Já a tinha à minha espera com um senhor que não conhecia. Via despedir-se e pensei que era o pai.
- Bom dia arquitecta…
- Bom dia engenheiro. O meu pai.
- Prazer. – disse cumprimentando.
- Prazer, tome conta dela…
- Fique descansado.
Tomarei muito bem. Nunca tive tanta vontade de o fazer, pensei para comigo. Quase me apeteceu abraçar o homem e dar-lhe um beijo.
- Vamos. Temos de ir ver a porta…
- Sim vamos…
Despediu-se de novo do pai e segui-me. Sentia um enorme formigueiro, vontade de a beijar logo ali. Mas, aguentei. Queria ver o choque dos meus mundos.
Fizemos o check in e fomos tomar café. Conversa banal. Como sempre trabalho e mais trabalho. Raio da rapariga só via trabalho. Ainda nada fizéramos e já estava cansado.
- Quando lá chegarmos veremos, descansa agora essa cabecinha.
- Ok. Ok. Só queria rever parte da reunião.
- Até lá descansa…
- Não consigo.
- Eu sei. Mas tenta, nada de stress.
Sentia o formigueiro aumentar e abri uma revista que entretanto alguém deixara em cima de uma cadeira.
Passados uns minutos chamaram o nosso voo e lá fomos, deixei-a seguir à frente e fui seguindo os seus passos. Na minha cabeça passavam e corriam mil ideias. Mas tentei manter-me calmo. O mais calmo possível.
Sentámo-nos na classe executiva, olhei em volta e éramos só nós que ali íamos. Sorri e pensei que sorte a nossa se ela seguir os conselhos do Génio da Lâmpada. Estava ansioso e senti-a também ansiosa. Era estranho. Senti-me com vontade de mandar tudo ao ar e beijá-la logo ali. Mas aguentei e partimos. Detestava esta sensação de não ter nada por baixo dos pés, mas não há-de ser nada.
Senti a mão dela e não quis acreditar. Não me consegui mexer. Não consegui sequer dizer uma palavra. Não saiu nada. Senti-a fazer-me um carinho, deixei estar a mão dela em cima da minha. Aproveitei aqueles segundos, como se matasse a sede.

Despertei deste ultimo ano de vida quando a senti tirar a mão de cima da minha. Recordara tudo. Como se naquele instante passasse um filme de horas, meses, num só minuto. Numa só fracção de tempo.
Era esta miúda que queria. Que na verdade amava. Sem nunca ter dado conta, sem nunca me ter apercebido que o amor estava ali tão perto.
- Podes por a mão o tempo que quiseres..
- Posso?
- Podes.
- Acreditas em magia?
- Como assim?
- Sei lá. Nos génios que existem dentro das lâmpadas?
- Porque perguntas?
- Nada esquece…
Era ela a minha princesa. Olhei-a nos olhos e perguntei-lhe.
- Queres casar comigo?
- Quero.
- Três filhos. Está bem para ti?
- Não. Três e a Ana. Achas bem?
Nem respondi. Dei-lhe a mão e sorri. Virámos o rosto e beijámo-nos.

terça-feira, outubro 17, 2006

quadragésima quinta parte

Cheguei a Lisboa pouco depois das duas da tarde. Fui directo para a minha sala e liguei a extensão da Sónia, tocou mas nada.
- Judite…
- Sim, diga…
- Peça à Sónia para quando chegar vir à minha sala.
- Ela não vem de tarde. Como amanha logo cedo vão para os Açores e só vêm na sexta foi tratar de uns documentos… Penso que já não volte hoje.
Ficara desalentado. Com a sensação que estava meio perdido e com uma vontade de estar com ela. Vindo do nada, sentia falta dela. Uma vontade imensa de lhe tocar. Agarrei no telemóvel e enviei-lhe uma mensagem:
”ondes andas carago…”
Ainda pensei não enviar, mas que se lixe, pensei. Queria estar com ela. Tinha a certeza de a querer abraçar, de a querer sentir, de a querer beijar. Mas nada, passou o resto da tarde e nada. Estive para ligar, mas não tive coragem. E decidi esperar pela manhã. Às seis da manha estaríamos juntos no aeroporto.
Sem dar conta do tempo, estava a acabar de jantar e a deitar a Ana na cama. A ouvir mil histórias de colegas que não conhecia. E mil aventuras, tal novela de enredo complicado e intrigante.
Desci e entrei no escritório. Olhei o computador e pensei duas vezes em ligá-lo, mas lá mergulhei no mundo paralelo…
- mensagem de menina34: posso explicar-me?
- mensagem para menina34: não precisas
- mensagem de menina34: mas eu queria…
- mensagem para menina34: não precisas
- mensagem para menina34: ambos sabíamos as regras
- mensagem para menina34: era só sexo
- mensagem para menina34: nada mais
- mensagem de menina34: sexo foi com ele
- mensagem de menina34: contigo não
- mensagem de menina34: quero ficar contigo
- mensagem de menina34: contigo é diferente
- mensagem para menina34: vamos ser realistas
- mensagem para menina34: sabíamos as regras do jogo
- mensagem para menina34: somos adultos
- mensagem para menina34: e não temos de explicar mais nada
- mensagem de menina34: acredita em mim
- mensagem de menina34: quero ficar contigo
- mensagem de menina34: o Carlos é um rapaz com que falo
- mensagem de menina34: quis estar com ele
- mensagem de menina34: saber como era
- mensagem de menina34: poder escolher
- mensagem de menina34: só isso
- mensagem de menina34: é a ti que quero
- mensagem de menina34: é a ti que amo
- mensagem para menina34: acabou
- mensagem para menina34: esquece-me
- mensagem para menina34: sai do meu mundo
- mensagem para menina34: adeus Isabel
- mensagem de menina34: como queiras
- mensagem de menina34: adeus miguel

- mensagem de maria76: olá dragão
- mensagem para maria76: olá princesa
- mensagem para maria76: como estás
- mensagem de maria76: bem e tu
- mensagem para maria76: também
- mensagem para maria76: apenas cansado da viagem
- mensagem de maria76: vai descansar
- mensagem para maria76: daqui a pouco vou
- mensagem para maria76: vim ver os mails
- mensagem de maria76: ok
- mensagem para maria76: e tu
- mensagem para maria76: como estás…
- mensagem de maria76: a rever a minha vida
- mensagem para maria76: como assim?
- mensagem de maria76: vou voltar para o Rui
- mensagem de maria76: não posso continuar nesta vida
- mensagem de maria76: entre um homem e outro
- mensagem de maria76: entre uma cama e outra
- mensagem de maria76: queca aqui queca ali
- mensagem de maria76: sinto falta dele
- mensagem de maria76: quando foste embora dei-me conta disso
- mensagem de maria76: sinto mesmo falta dele
- mensagem para maria76: sê feliz princesa
- mensagem para maria76: mereces
- mensagem para maria76: muito mesmo
- mensagem de maria76: tu também miguel
- mensagem para maria76: um beijo grande
- mensagem de maria76: outro
- mensagem para maria76: até um dia…
- mensagem de maria76: até um dia…

- mensagem de luna69: preciso falar contigo
- mensagem de luna69: não fujas nem me ignores
- mensagem para luna69: foda-se
- mensagem para luna69: desaparece
- mensagem de luna69: perdoa-me
- mensagem para luna69: já te perdoei
- mensagem para luna69: mas quero seguir a minha vida
- mensagem para luna69: apenas isso
- mensagem para luna69: sê feliz
- mensagem de luna69: tudo bem
- mensagem de luna69: adeus miguel
- mensagem para luna69: adeus Cláudia

Parei e olhei o écran. Estava a abandonar aquele mundo, a cortar todas as teias que me envolviam, todos os pedaços de rede que me prendiam. Respirei fundo e senti partirem sentimentos estranhos, sem dar conta não estava ansioso, não estava perdido. Sabia o que queria e o que fazer. Queria atalhar caminho, mas detive-me.
Agora tudo teria de ser com calma. Recordei as Pontes de Madison County e sorri. Não a ia deixar fugir. Não ia, fazia-me falta.

- mensagem de cinderela28: olá
- mensagem para cinderela28: olá
- mensagem de cinderela28: de onde és
- mensagem para cinderela28: lisboa e tu
- mensagem de cinderela28: também
- mensagem de cinderela28: idade?
- mensagem para cinderela28: 34
- mensagem de cinderela28: 28
- mensagem para cinderela28: não leves a mal
- mensagem para cinderela28: mas estou farto disto
- mensagem para cinderela28: dos chats
- mensagem para cinderela28: destas conversas
- mensagem para cinderela28: deste mundo
- mensagem para cinderela28: disto tudo
- mensagem de cinderela28: tudo bem
- mensagem de cinderela28: devo ser um monstro
- mensagem para cinderela28: não é isso
- mensagem de cinderela28: parece mesmo
- mensagem para cinderela28: desculpa
- mensagem para cinderela28: não tem nada a ver contigo
- mensagem para cinderela28: é este mundo
- mensagem para cinderela28: estas relações
- mensagem para cinderela28: estas falsas amizades
- mensagem de cinderela28: compreendo
- mensagem de cinderela28: porque dizes isso
- mensagem para cinderela28: tou farto disto
- mensagem para cinderela28: só isso
- mensagem para cinderela28: desculpa
- mensagem de cinderela28: sou mesmo azarada
- mensagem de cinderela28: ninguém me quer
- mensagem de cinderela28: sinto-me uma rosa sem pétalas
- mensagem de cinderela28: apenas com espinhos
- mensagem de cinderela28: que afastam toda a gente
- mensagem de cinderela28: xau
- mensagem para cinderela28: espera
- mensagem de cinderela28: que foi?

Sem saber explicar, senti-me ansioso. Com a mesma sensação daquela manha. Algo iria acontecer. Merda. Quem é esta gaja?

- mensagem para cinderela28: desculpa
- mensagem de cinderela28: tudo bem
- mensagem para cinderela28: como te chamas?
- mensagem de cinderela28: cinderela
- mensagem para cinderela28: lol
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem para cinderela28: que fazes na vida
- mensagem de cinderela28: trabalho
- mensagem para cinderela28: em?
- mensagem de cinderela28: arquitecta e tu
- mensagem para cinderela28: empresário
- mensagem de cinderela28: casado?
- mensagem para cinderela28: não e tu
- mensagem de cinderela28: abandonada
- mensagem para cinderela28: lol
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem para cinderela28: porque dizes isso
- mensagem de cinderela28: venho ao chat à mais de dois anos
- mensagem de cinderela28: e nunca conheci ninguém
- mensagem de cinderela28: acabei de falar com uma rapariga
- mensagem de cinderela28: que já conheceu mais de 20
- mensagem de cinderela28: em 6 meses
- mensagem de cinderela28: devo ser mesmo um monstro
- mensagem para cinderela28: lol
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem de cinderela28: abandonada
- mensagem para cinderela28: namoras?
- mensagem de cinderela28: não
- mensagem para cinderela28: porque?
- mensagem de cinderela28: ele não me quer
- mensagem de cinderela28: à 6 anos apaixonada por um gajo
- mensagem de cinderela28: que não me liga
- mensagem de cinderela28: que nem sabe que existo
- mensagem de cinderela28: nem sabe
- mensagem de cinderela28: olha
- mensagem de cinderela28: esquece
- mensagem de cinderela28: ainda fico pior a falar
- mensagem de cinderela28: uma história triste apenas
- mensagem de cinderela28: nada mais
- mensagem para cinderela28: um dia isso muda
- mensagem de cinderela28: não creio
- mensagem para cinderela28: porque?
- mensagem de cinderela28: veio cá jantar esta semana
- mensagem de cinderela28: nunca tinha vindo
- mensagem de cinderela28: estive toda aberta
- mensagem de cinderela28: como um livrinho
- mensagem de cinderela28: era só mexer
- mensagem de cinderela28: e nada
- mensagem de cinderela28: tal um cavalheiro
- mensagem de cinderela28: nem mexeu
- mensagem para cinderela28: quem sabe será tímido
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem para cinderela28: lol
- mensagem para cinderela28: será gay?
- mensagem de cinderela28: tem uma filha
- mensagem para cinderela28: e depois?
- mensagem para cinderela28: pode ter virado
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem para cinderela28: lol
- mensagem de cinderela28: não creio
- mensagem de cinderela28: apenas não me quer
- mensagem de cinderela28: e foi um cavalheiro
- mensagem de cinderela28: podia ter usado
- mensagem de cinderela28: e abusado
- mensagem de cinderela28: que eu deixava
- mensagem para cinderela28: lol
- mensagem de cinderela28: ri-te ri-te
- mensagem para cinderela28: vais ver isso muda
- mensagem de cinderela28: não creio
- mensagem de cinderela28: tenho de pensar a minha vida
- mensagem de cinderela28: quem está mal sou eu
- mensagem de cinderela28: olha
- mensagem para cinderela28: diz
- mensagem de cinderela28: tou a gostar de falar contigo
- mensagem de cinderela28: mas tenho de levantar cedo
- mensagem de cinderela28: vou para o aeroporto antes das 5
- mensagem de cinderela28: beijo

Como uma bomba a rebentar nos ouvidos, apercebi-me com quem estava a falar. Que parvo era e estava a ser. Sem pensar respondi:

- mensagem para cinderela28: espera
- mensagem de cinderela28: a sério
- mensagem de cinderela28: tenho de ir
- mensagem para cinderela28: queres saber o que fazer?
- mensagem de cinderela28: fazer para?
- mensagem para cinderela28: o conquistar
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem para cinderela28: lol
- mensagem de cinderela28: conta lá
- mensagem para cinderela28: quando vão estar juntos?
- mensagem de cinderela28: amanhã
- mensagem de cinderela28: vamos juntos para os Açores
- mensagem de cinderela28: em trabalho
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem para cinderela28: lol
- mensagem para cinderela28: dá-lhe a mão a meio do voo
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem de cinderela28: tás parvo?
- mensagem de cinderela28: é o meu patrão
- mensagem para cinderela28: queres ou não conquistá-lo
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem de cinderela28: sim
- mensagem de cinderela28: mais que tudo na vida
- mensagem de cinderela28: amo-o
- mensagem de cinderela28: preciso dele
- mensagem de cinderela28: como do ar que respiro
- mensagem de cinderela28: deves imaginar-me louca
- mensagem para cinderela28: nada disso
- mensagem de cinderela28: ok
- mensagem de cinderela28: ainda bem
- mensagem para cinderela28: faz o que te disse
- mensagem de cinderela28: dar-lhe a mão?
- mensagem para cinderela28: sim
- mensagem para cinderela28: promete
- mensagem de cinderela28: prometo
- mensagem de cinderela28: ainda sou despedida
- mensagem para cinderela28: lol
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem para cinderela28: não és nada
- mensagem de cinderela28: tudo bem
- mensagem de cinderela28: farei o que me pedes
- mensagem para cinderela28: vais ver que resulta
- mensagem de cinderela28: só uma coisa
- mensagem para cinderela28: diz
- mensagem de cinderela28: como te chamas?
- mensagem para cinderela28: sou o génio da lâmpada
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem para cinderela28: lol
- mensagem de cinderela28: diz lá
- mensagem para cinderela28: faz o que te disse
- mensagem para cinderela28: e a tua vida mudará
- mensagem para cinderela28: esquece quem sou
- mensagem para cinderela28: lembra-te de mim
- mensagem para cinderela28: como o príncipe
- mensagem para cinderela28: que te apanhou as pétalas
- mensagem de cinderela28: lol
- mensagem para cinderela28: lol

Cliquei para sair e recostei-me na cadeira. Veremos, como se sairá amanhã.
Sentia-me contente como uma criança a quem dão um doce, olhei as horas e fui dormir um pouco.

quadragésima quarta parte

Entrei nas construções Aragão a pensar que algo ia acontecer. Que ia dar de caras com alguém mas nada. Não me lembrava do velho, nem aquela cara me dizia nada. A reunião correu bem, e fechei o negócio nas condições esperadas. Mandou cumprimentos para o senhor engenheiro Filipe e meti-me à estrada. De volta a Lisboa, adorava o Porto mas ia-me sentir sempre deslocado. Casa era casa. Mandei uma mensagem à Margarida a dizer que estava de volta e vim devagar.
Continuava aquela sensação estranha. Algo devia ter acontecido e não aconteceu. Tinha a sensação que ia dar de caras com alguém e não dei. Coisa estranha, mas liguei o rádio e vim descansado.
Parei nas bombas de Leiria, e aproveitei para comprar o jornal e comer. Sentei-me e descontraidamente e bingo.
A Isabel sentada com um fulano de frente para mim. Olhei meio incrédulo. Aquela menina toda certinha, provavelmente com outro gajo do chat. Aliás devia ser o tal que lhe tomara atenção da outra vez. Deixei-me ficar mais um pouco e quando me levantei passei de propósito por ela…
- Olá professora…
- Como estás colega?
- A caminho de Lisboa, como tu presumo…
- Sim… também a caminho de Lisboa…
Aquele ar corado e aquela referência a mim como colega diziam tudo. Despedi-me e segui caminho.
Mais uma do mundo paralelo que se foi. Por momentos pensei que iria ser sempre assim, mulheres a entrar e sair da minha vida. Aliás, estava a ser assim. Um frio no estômago assustou-me. Não iria, já estava a ser. Essa era a regra principal do jogo. E provavelmente a única. Tal Roleta Russa de sorte e azar.
Apetecia-me amar alguém. Era isso que procurava na realidade. Louca e desesperadamente. Amar alguém. Eu e meio mundo. Apenas e só amar alguém.
Das formas mais erradas e estranhas. Mas era isso mesmo. Não conseguia parar e interpretar o que se passava, mas sabia o resultado, sabia o que queria. Ser feliz. Apenas e só.
Meio mundo anda como eu. Não ando só. Mas tenho de lutar por aquilo que quero e me faz falta. Não conseguia ter uma linha de raciocínio mas era isso. Tinha de lutar de me esforçar mais, muito mais.
Entrara para a reunião com a sensação que algo iria acontecer, mas enganara-me, a ansiedade destes fugazes encontros estava a dar cabo de mim. Quase jurava que algo ali iria acontecer. Mas enganara-me. Iria sim, mas não ali. Numa bomba de gasolina, perdido na A1, respirei fundo e recordei as palavras da Sónia, abri o telemóvel e reli-as: Faziam-me bem. Era tudo aquilo que precisava. Tinha pressa em chegar, queria falar com ela, estar com ela, tocar-lhe…

quarta-feira, outubro 11, 2006

quadragésima terceira parte

Finalmente sentado no novo estádio do Dragão. A Margarida ficara no hotel a dormir e eu mal me sentia. Doía-me tudo. Poucas partes do corpo não estavam doridas. lol.
Preocupava-me o regresso ao hotel, ia ser desfeito. Pensei quase a soltar uma gargalhada. Ainda tinha de estudar o dossier e preparar-me para reunião. Tinha de ir comer alguma coisa rápida com ela e voltar para reler uma montanha de coisas. Olhei o telemóvel e nem tinha dado conta de duas mensagens:
”não queria nem vou desistir de ti”
Assinado: Cláudia. Boa, lembrou-se agora.
”podia ter pintado pétalas de rosa, mas não teriam o teu perfume, não teriam a beleza do que sinto por ti, não teriam a vida que quero ter contigo…”
Assinado: Sónia. Deu-lhe para o romantismo, eu na bola e dá-lhe para o romantismo. Respondi às duas:
”perdeste a vez, desculpa”
Teria sido melhor dizer outra coisa, mas tinha de acabar já ali.
”gostei… muito bem… já estou no estádio…”
As mulheres escolhem as coisas mais estranhas para dizer nos momentos mais estranhos… Mas depressa veio a resposta:
”bibó porto carago… carago não caralho… :-) ”
Deu-me vontade rir. Nunca esperaria uma mensagem destas, vinda da Sónia. Por momentos olhei aquela multidão a torcer, a defender o que amava e eu nada fazia por mim. Que se lixe, pensei. Força Porto.

Mais uma vitória. E mais uma confusão brutal para sair do estádio. Em passo de corrida fui em direcção à igreja das Antas e tentei fugir ao trânsito apanhando a VCI.
Sabia que ia ter pouco tempo, teria a fera à minha espera, jantar qualquer coisa e preparar a reunião. Estava rotinado nas reuniões, era mais uma e sendo um cliente antigo do Filipe não seria difícil de o conquistar. Fizera um esforço mas não me recordava daquele António Aragão. Não havia de ser nada, apenas mais uma reunião.
Chegado ao hotel, a fera ainda dormia. Entrara e saíra e ela nem uma nem duas. Aproximei-me e notei que tomara banho, mas estava nua com o lençol por cima. Reparei no tabuleiro em cima da mesa e o prato tapado. Levantei e tinha o meu jantar. Muito bem, menina prendada. Ainda estava quente, devia ter acabado de chegar. Olhei para ela mas nada, estava mesmo a dormir. Sentei-me a comer e aproveitei para reler os documentos para o dia a seguir. Continuava com o bichinho na cabeça sobre aquele tal Aragão, mas nada, nem memória ou ideia.
- Olha quem acordou…
- Quem ganhou?
- Quem havia de ser. – disse sorrindo.
- Fogo nunca perdem…
- Dormiste bem?
- Sim, mandei vir o comer porque a cozinha ia fechar…
- Fizeste bem… deixa-te estar ainda vou reler tudo isto…
- Tenho de ir, amanha trabalho…
- Fica mais um pouco…

quadragésima segunda parte

Estas viagens pela A1 em direcção ao Porto tinham o condão de me esvaziar a cabeça. A preocupação de procurar BMW’s de cor escura ou SUBARU’s de cor berrante conseguiam de facto afastar tudo o resto.
Fazia parte da viagem sempre acima dos 220Km/hora, dizendo a verdade sempre perto dos 240, mas se visse alguém ou se passasse por aglomerados de carros reduzia sempre bastante. Agora se nada ma aparecesse à frente tinha a sensação de poder levantar voo.
E hoje era um desses dias, estava ansioso por chegar. Mandara uma mensagem à Maria a dizer:
”são dez da manhã e vou a caminho do porto queres almoçar?”
Estava quase em Coimbra quando recebi a resposta:
”acabei de acordar sim quero”
Boa. Encostei na primeira bomba e respondi de imediato:
”encontramo-nos onde? diz local e hora… vou a conduzir…”
Meti-me de novo à estrada e fui aguardando. Passaram uns longos minutos até que lá veio a resposta:
”porta da FNAC do norteshopping uma hora”
Não teria de ir tão apressado, pensei. Passava pouco das onze da manhã e já passara Coimbra. Olhei o céu, as arvores à minha volta e pensei: mais uma viagem ao mundo paralelo.
Tudo isto funcionava como uma droga, quanto mais fazia, mais queria fazer. Olhei-me no retrovisor e ainda pensei duas vezes em voltar para trás. Pensei mais que duas, estava sem rumo e senti-me assustado.
Tinha estado com a Sónia a pensar como seria a Maria, preocupado em ter o contacto dela par anos podermos encontrar. Passara o resto da noite a falar de trabalho, fugindo as todas as sugestões dela. E vinha fazer trezentos quilómetros para ter com uma estranha que nunca vira. Com a qual apenas trocara umas frases, uns pensamentos e pouco mais. Devo estar louco, só pode.
Sem dar por mim estava a entrar no Porto, pouco passava do meio-dia e meti-me a caminho do Norteshopping, queria chegar mais cedo e esticar as pernas. Estacionei, gratuitamente dentro do shopping ao contrário de Lisboa e subi.
Fui reparando em todas as mulheres pequenas que passavam por mim e imaginei a Maria a olhar para todos os homens altos com que se cruzasse.
Já não era um mundo paralelo. Era um jogo de encontros e desencontros, de sexo e busca desenfreada de felicidade. Era isso que procurava ali. Apenas sexo e felicidade.
Fui circulando com esta imagem e tentando justificar-me a mim próprio o que estava a fazer. Felicidade não era, não podia ser. Sexo! Sim, só podia ser sexo. O jogo como fizera com a Isabel. A vontade de ter uma estranha nua ao meu lado. A corrida desenfreada de ter tudo isto. Parei e olhei uma livraria.
Não olhei a montra nem os livros. Vidrei-me na ideia que me arrefecera por instantes. Afinal que procurava eu. Sexo e mais sexo. Conquistar pelo mero prazer de conquistar, mas logo de seguida perdia o interesse. Recordei um pensamento que tivera à uns tempos atrás, tudo não era mais que um campeonato, uma época de caça, ou uma simples lide.
Julgava-me diferente da maioria dos homens, mas este mundo paralelo despertara o jogador, o caçador que havia dentro de mim. E estava a lidar com tudo isto. A lidar, até ter o bicho de frente, nu, insegura, nas minhas mãos. E depois? Depois perdia o interesse. A Rute perdera o interesse. A loucura da Filipa parecia mais interessante e largara da mão a Rute. O jogo com a Isabel tinha sido mais excitante e já nem me lembrava do rosto da Filipa.
Como eu deve haver mais, pensei. Jogadores do mundo virtual. Caçadores sem piedade de bichos perdido. Sem rumo ou sentido e que a tudo se entregam. E haverá bicho mais belo que a mulher? Claro que não, conseguem ser em tudo melhor que nós. Nada haverá onde lhes consigamos fazer frente. Mas não vivem sem nós. Não conseguem mesmo viver sem nós. E se algumas acasalam. A maioria, uma larguíssima maioria não o faz. Não vive sem nós, não respira sem nós. E passam uma vida a fazer o que queremos, sem exigir nada, sem pedir nada. Tantas vezes sem uma flor, sem o mais simples agradecimento.
Sentia-me mal. Merda. Que estou a fazer. Correcto ou incorrecto o certo é que gosto. Está-me no sangue. Cresceu e não consigo tirá-lo de mim. Não me vejo sem a camuflagem esperando mais uma vítima. Sem evitar este ou aquele flanco e logo ataca pelo contrário.
Olha as montras e deixa-te de merdas. Se tu queres elas também o querem. Não obrigaste nenhuma até hoje, pensei, tentando justificar-me.
- Olá.
- Olá…? – respondi meio perdido.
- És o Miguel?
- Sim. Tu a Maria?
À minha frente tinha uma miúda, perto dos trinta. Pequenina como uma boneca, de cabelo escuro e olho vivo. De casaco largo, e meio desajeitada, quase fazendo lembrar um palhaçito.
- Sim, mas todos me tratam por Margarida.
- Como preferires..
- É quase uma e meia, pensei que tivesses desistido e resolvi dar uma volta. – disse interrompendo-me, e continuou sorrindo. – Eras o único que por aqui andavas com ar de mouro e meti-me contigo.
- Perdi-me a olhar a montra…
- Gostas de livros?
- Apenas de ler e tu…
- Também… para escrever não tenho jeito.
- Somos dois… vamos almoçar?
- Queres ficar aqui ou ir a outro lado?
- Tanto faz, conheço pouco, escolhe…
- Que gostas de comer?
- Quase tudo. Ou mesmo tudo. A sério tanto faz.
- Vamos a Leça. Lá temos mais escolha e estamos perto.
- Tenho o meu carro aqui, nestas escadas… é só descer.
- Ok vamos.
Seguimos em passo apressado e fomos na direcção de Leça.
- É mais fácil falar no chat. – resmunguei eu sorrindo.
- Somos dois estranhos é uma verdade, mas isso resolve-se, combinemos falar como se lá estivéssemos.
- Ok.
- Falar de tudo?
- Ok falemos de tudo. – disse eu de novo a sorrir.
- Em que pensas?
- Lá estás tu. Só sabes essa?
- É para falar como se lá estivéssemos…
- Hum, em que penso?
Sorri e olhei o espelho. Sem pensar provoquei-a.
- Qual seria o número do teu soutien…
- 36… só isso?
- Que não me apetece ir comer a Leça…
- Então?
- Ir para um hotel e comer-te…
- Logo assim?
- Não foi para isso que viemos?
- Foi e não foi…
- Foi ou não?
- Deixa-me explicar.... – respondeu meio nervosa. – Agradas-me. Mas logo assim para um hotel é estranho…
- Eu sei. Estava a ver o que dizias…
- Mas agrada-me… vamos. – disse já corada e nervosa.
- Queres mesmo?
- Fogo já disse que quero… tás trengo?
Oh por quem sois. Mortinho estava eu por tirar o casaco e tudo o resto. Nem dei conta do registo e de subir o elevador. Quanto mais do hotel para onde fomos. Senti fazer stop a meio de uns pisos e apalpá-la toda. E ser todo revisto e mexido. O quarto dava para o meio da cidade, mas isso pouco importava, corri o cortinado, arranquei literalmente a roupa dela e senti a minha voar.

sábado, setembro 23, 2006

quadragésima primeira parte

Eram quase oito da noite, dera bem com a Brandoa, e com a rua que me indicara, estacionei no início da rua e procurei o número trinta e um, segundo esquerdo.
Lá estava, olhei o prédio. Uma construção recente e bem enquadrada. Toquei à campainha e logo se abriu a porta. Subi a escada e lá estava ela, toda atarefada, e logo a fugir para a cozinha.
- Entra e fecha a porta. – ouvia dizer já ao fundo.
- Trouxe vinho… queres que o meta onde?
- Desculpa… entra para a cozinha. É tinto ou branco?
- Tinto… convinha abrir já e deixá-lo respirar um pouco…
- Na segunda gaveta, tira um saca-rolhas…
- Queres ajuda?
- Não precisas ajudar… safo-me sempre bem. Só que hoje meti-me a fazer uma coisa que não fazia à muito tempo e ainda nos arriscamos a ir comer fora… – disse a sorrir.
- Que estás tu a fazer conta lá?
- Bacalhau à Braz, com salada…
- Hum, e onde foste saber que é o meu preferido?
- Tenho as minhas fontes…
- Imagino, a Judite telefonou para casa e perguntou à Dona Madalena…
- Não. Enganado, foi o Filipe que me disse.
- O Filipe, nunca liga a nada nem fixa nada… ia lá saber o que eu gosto de comer…
Abri o vinho e enchi dois copos pela metade, sentei-me e olhei para as habilidades culinárias da Sónia com vontade de me rir. E meti-me com ela:
- Há quanto tempo não cozinhavas?
- Oh, não comeces, os meus pais moram em frente, é mais fácil ir lá comer todos os dias. Depois com os horários que faço, nem sempre tenho tempo para cozinhar em casa.
- Falou a sindicalista. – protestei a sorrir.
- A sério. E depois cozinhar só para mim é chato.
- Sim tens razão…
- Vai conhecer a casa. Estás à vontade… Enquanto termino o jantar…
Sai para o hall e reparei na sala, nos dois quartos e a típica casa de banho a dar para o centro da casa. Comecei pela sala e olhei os DVD’s, os dois quadros pintados por ela. Olhei pela janela para o prédio em frente e imaginei os pais a rezar para a filha acertar com o jantar que ia dar ao patrão.
Entrei num dos quartos e acertei no de dormir, adorei os tons de azul e um outro quadro que me fazia lembrar o mar. Abri a porta do outro e deparei-me com um santuário de projectos, esquiços e maquetes. Uma enorme mesa com um computador e imensas folhas rabiscadas, meio desenhadas, meio pintadas. Olhei uma parede nua e fiquei com a sensação que faltava ali algo. Aliás notei a marca do pó. Olhei à volta, e quase estive para a questionar. Mas detive-me e passei uns quadros que estavam encostados à parede. Mas nenhum me pareceu daquele lugar. Olhei de relance para detrás da estante e bingo. Lá estava ele.
Virei-o para mim e olhei-me pintado a aguarela. Com menos uns anos e ainda de bigode e pêra que usara durante uns anos. Pendurei-o na parede e encaixava perfeitamente. Sentei-me e rodei a cadeira para me ver melhor. Estava como nunca me tinha imaginado. Saboreei o vinho e respirei fundo.
Olhei-me melhor, os detalhes do rosto, a suavidade das pinceladas e senti-me chorar. Melhor do que qualquer comentário, as minhas lágrimas diziam tudo.
Tantas vezes temos a felicidade nas mãos e a deixamos fugir. A deixamos escapar entre as mãos. Que parvo fora nunca me ter apercebido do que se passava à minha volta. Não dava importância a quem devia e cada vez mais só via o trabalho.
- Estás aqui. – disse ela pregando-me um valente susto.
- Contemplava-me. – disse olhando o quadro.
- Oh, não devias. Não era suposto descobrires ou ficares a saber.
- Sim eu sei. Até o escondeste…
- Foi sem intenção… não queria que me imaginasses louca ou demente a implorar para te ter. Um dia há-de passar…
Levantei-me da cadeira, pousei o copo e abracei-a. Abracei-a forte
- Queres que passe? – disse-lhe ao ouvido.
- Não…
Afastei-a ligeiramente e ficámos de faces coladas. Senti vontade de a beijar, mas medi o passo. Tentei sentir se cá dentro era aquilo que queria. Encostei a minha testa na dela e disse-lhe:
- Tenho medo. Sinto que te quero e não sei se quero. Sinto que te desejo e não sei se desejo. A minha vida tem sido complicada, muito diferente do que imaginas. Ando meio perdido e não te queria arrastar comigo…
- Não te pedi nada…
- Eu sei. Apenas não queria que sofresses. Que andasses a criar mais ilusões. Não te queria usar e deitar fora. Só isso.
Calei-me na esperança que dissesse algo, e no meio do silêncio continuei.
- Sabes, nestes últimos meses tenho feito asneira atrás de asneira, às vezes sinto que devia parar. Travar a fundo e encostar como se fosse um carro. Mas não sei se consigo. Ter-te agora seria como entrares na minha vida e entrares num carro a duzentos à hora…
- Escuta, não te pedi nada… nem pedirei. Não tens que te sentir obrigado a nada. Um dia passa e ainda havemos de nos rir de tudo isto. Anda vamos jantar. – disse dando-me a mão.
Entrei na cozinha com duas velas enormes em cima da mesa e sorri. O ambiente perfeito. A mulher perfeita e eu armado em parvo.
- Adoro velas. – disse ela justificando o ambiente.
- Está muito giro, não sejas tontinha. E até se vê bem para comer. – disse eu a sorrir. – Ainda não tocaste no vinho.
- Façamos um brinde.
- Sim, façamos. – concordei eu.
- Aos amores impossíveis…
- Só aos amores, aos que são verdadeiros e que duram contra tudo e todos…
Bebemos e sentámo-nos. Olhei a cara dela meio triste. Estaria à espera de algo mais. Mas senti-me impotente. Não conseguia. Na minha cabeça corriam mil pensamentos, mil imagens, sem nenhum se deter e dar-me um sinal.
- Afinal cozinhas bem...
- Tem um bocadinho de sal a mais. – disse ela corando.
- Nada disso, está óptimo.
Bem, estar salgado estava, mas com o vinho comia-se bem. Pena fora não ter trazido duas garrafas.
- Não metas mais vinho, não estou acostumada…
- Vá, dividimos o resto. E tu já estás em casa…
Acabamos o vinho no sofá da sala e a conversar pormenores do projecto dos Açores. Olhei as horas e ela meteu-me à vontade.
- Não precisas fazer sala…
- Nada disso. Precisava só de ir ver um mail. Posso?
- Ah. Desculpa fui parva. Vai enquanto arrumo a cozinha…
Num salto fui ao escritório e entrei no chat. Olhe a porta a ver se âo entrava e procurei a maria76.

- mensagem para maria76: olá
- mensagem de maria76: olá
- mensagem para maria76: tou no escritório ia sair para casa
- mensagem para maria76: mas entrei
- mensagem para maria76: porque não tinha o teu número
- mensagem de maria76: número para?
- mensagem para maria76: vou ao porto este fim-de-semana
- mensagem para maria76: e pensei
- mensagem de maria76: e pensaste mal…
- mensagem para maria76: ok
- mensagem para maria76: desculpa
- mensagem de maria76: lol
- mensagem de maria76: tava a brincar
- mensagem de maria76: anota…
- mensagem de maria76: 93…
- mensagem de maria76: e vai para casa descansar
- mensagem para maria76: ok
- mensagem para maria76: beijo
- mensagem de maria76: outro

Saí do chat e entrei no site da empresa, não fosse ela ver o histórico. Fechei as janelas e fui ter com ela à cozinha.
- Fui ao Sapo ver a que horas era o jogo do Porto no domingo, vou ver e faço uma reunião pelo Filipe. Venho na segunda pela tarde…
- Terça à noite vamos para os Açores.
- Sim, eu sei, a Judite comentou-me.
- Queres café?
- Sim, normal sem açúcar.
- Eu sei. – interrompeu ela.
a quadragésima parte

Pouco mais dormira que umas quatro horas. Mas nem por isso tinha sono, era sexta-feira, e aquele casal meio doido da rádio estava a saber que nem ginjas.
Pensei para comigo, que provavelmente nem dariam conta do bem que estariam a fazer a milhares de pessoas, com todas aquelas baboseiras. Sem me dar conta, puxava pela memória para tentar escrutinar a próxima reunião no Porto.
Pouco depois das oito, questionei logo a Judite sobre a minha agenda:
- Judite ando com vontade de ir ao Porto, ver um jogo...
- O Engenheiro Filipe tem uma reunião na próxima segunda… veja se há jogo no domingo e faça-lhe a reunião. – sugeriu ela. – Eu sei de fonte segura que ele tem pouca vontade de ir…
Grande Judite, vinha mesmo a calhar. O Porto recebia o Leiria, já no novo estádio e podia conhecer a… a quê? Nem soubera o nome dela ou ficara com o telefone. Que inteligente tinha sido, tanta conversa e nem o nome nem o telefone tinha. Logo à noite tinha de a encontrar. O pior é que tinha de trocar já com o Filipe e teria de arriscar. Se a não encontrar hoje no chat, irei só ver a bola. Não fará grande mal, pensei. Ainda não tinha visto o estádio pronto. lol.
- Posso…?
- Sim, Sónia entra.
- Vinha fazer-te um convite.
- Sim diz…
- Queres ir jantar lá a casa hoje? – disse receosa.
- Não posso, estou de dieta. – disse eu a sorrir.
- Ok, tudo bem.
- Estava a brincar. Sim claro que posso. Onde e a que horas?
- Tens aqui a morada. Aparece por volta das oito.
Boa, tinha de me organizar, ou ficava até tarde no jantar ou tinha de ir mais cedo e tentar encontrar a maria76. Para já nada como informar o Filipe que a reunião de segunda-feira podia ser feita por mim.
- Judite chegue aqui.
- Sim, um momento.
Ouvia levantar-se bater na minha porta.
- Peça ao Filipe a pasta da reunião de segunda.
- Quer o historial do cliente?
- Sim também. Outra coisa já agora. – disse fazendo sinal para se sentar, e continuei. – Só eu não reparei que a Sónia tinha um fraquinho por mim?
- Se me permite, não é bem um fraquinho…
- Então? – interrompi eu. – Conte-me lá.
- É mais um grande amor. Desde o princípio que ela o idolatrou, daí a gostar de si deve ter sido um passito…
- Sim e mais…
- Ela não é de falar muito, mas entre colegas sabe como é. Uma coisa aqui outra ali.
- Imagino… mas continue…
- Pouco mais sei, mas que nunca ninguém lhe viu um namorado ou algo que o valha…
- Sim. Mas daí a estar apaixonada por mim…
- Acredite em mim. Aquilo é mesmo amor. Nem imagina como ela estava ontem…
- Pois… mas nem sei que pensar.
- Quer um conselho? Se me permite. Não pense. – disse sorrindo.
- Obrigado Judite.
Senti-me estranho por dentro. Um formigueiro correu por mim acima e deixou-me instável. Sem vontade de estar sentado, sem conseguir pensar. Nutria por ela um carinho especial, trabalhava com ela desde o início da empresa. Mas não sabia o que sentir mais.
Receei por momentos ser uma obsessão da cabeça dela, de ser uma fantasia que ela criara, ou algo ainda pior. Sorri, mas por momentos imaginei-me a ser torturado e obrigado a casar com ela.
Com tanta coisa para fazer e a perder-me com coisas parvas. Virei-me para dois rolos de papel e revi o projecto dos Açores. Anotei uma montanha de coisas e recordei imensos pormenores do início da empresa. Estava quase tudo mudado e alterado. Novas instalações, novos horizontes. Mas acima de tudo menos trabalho de estirador, agora era quase tudo a computador. Olhei o velho estirador onde revia os trabalhos e projectos e dei comigo a olhar para trás com imensa saudade.
a trigésima nona parte

Chegáramos à empresa a meio da tarde. Sentia-me bem. Revi uma série de coisas e sem dar conta eram quase sete da tarde. Arrumei as coisas e meti-me a caminho para casa. Estranhava o telemóvel não tocar: E ainda mais, não ter recebido mensagens. Pelo menos a Cláudia devia ter dito alguma coisa. Já nem pensava em mensagens do mundo paralelo. A Joana com as suas loucuras ou a Isabel para mais um jogo.
Corri as mulheres com que tinha estado recentemente e se dar conta tinha começado esta brincadeira à mais de nove meses. Recordei as mensagens da Rute antes de sair do hotel e as loucuras da Joana. Mas sem duvida que o jogo com a Isabel batia todos os limites.
Tirei o comando para abrir os portões e reparei no carro da Cláudia estacionado. Boa, não disse nada mas apareceu. Era o que me faltava agora. Não vai ser nada, pensei.
- Boa tarde princesas.
- Boa tarde paizão.
- Olá Miguel… – titubeou indecisa a Cláudia.
- Olá…
- Pai, eu vou para a cozinha… – interrompeu a Ana.
- Sim vai… – respondi eu. – Que o pai vai para o escritório.
Segui para o escritório, sentindo que a Cláudia me precedia. Na minha cabeça, corriam mil atropelos para lhe dizer. Mas tentei ser eu e dizer o que sentia. Nem sabia por onde começar…
- Desculpa. – disse ela interrompendo todos os meus pensamentos.
- Que queres dizer com isso?
- Que me desculpes e perdoes…
- Não tenho que o fazer. – disse interrompendo-a e continuei. – Amas outro homem e ainda não o esqueceste. Por mim tudo bem. Não me magoaste, não te nego que fiquei triste. Mas depois de pensar foi só isso que senti… triste, nada mais.
- Já não me amas?
- Quem nunca me amou foste tu. Não te acho no direito de me questionares isso.
- Desculpa…
- Foda-se… - disse eu num grito. – Só sabes dizer isso? Desculpa. Desculpa. Volta lá para esse gajo e larga-me da mão.
- Se é isso que queres…
- Ouve lá. Quem o ama, não sou eu. Quem me disse que nunca mais o viu e continua a ver, não sou eu. Quem vai para a Internet contar a um estranho esta merda toda, não sou eu…
- Tens razão. Eu saio da tua vida…
- Nem devias ter entrado…
Sentia sair, mas nem a tentei impedir. Ouvi o carro afastar-se e nada mexeu dentro de mim. Estava livre, pensei. Por momentos lembrei-me da tarde com a Sónia. E senti saudades dela. Queria tê-la ali junto de mim. A sorrir, descontraída e calmamente.
Sentei-me na secretária e fugi.

- mensagem para menina34: olá princesa
- mensagem de menina34: dá-me um minuto tou ocupada
- mensagem para menina34: ok

- mensagem para maria76: olá
- mensagem de maria76: olá
- mensagem para maria76: teclas de onde
- mensagem de maria76: porto e tu
- mensagem para maria76: lisboa
- mensagem para maria76: idade
- mensagem de maria76: 26 e tu
- mensagem para maria76: 34
- mensagem para maria76: que fazes na vida
- mensagem de maria76: fp
- mensagem para maria76: que raio é isso
- mensagem de maria76: lol
- mensagem de maria76: funcionária publica
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: e tu
- mensagem para maria76: ec
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: engenheiro civil
- mensagem de maria76: casado?
- mensagem para maria76: divorciado
- mensagem para maria76: e tu
- mensagem de maria76: a divorciar
- mensagem para maria76: tão nova?
- mensagem para maria76: que se passou?
- mensagem de maria76: acabou
- mensagem para maria76: acabou depressa
- mensagem de maria76: lol
- mensagem de maria76: fui trocada
- mensagem para maria76: entendo
- mensagem de maria76: é a vida
- mensagem para maria76: isso passa vais ver
- mensagem para maria76: não custa nada
- mensagem de maria76: eu sei
- mensagem para maria76: como tudo na vida
- mensagem para maria76: custa mas passa
- mensagem de maria76: eu sei
- mensagem para maria76: bemmmm… sabes tudo
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: filhos?
- mensagem de maria76: não
- mensagem de maria76: e tu
- mensagem para maria76: uma com 9
- mensagem para maria76: desculpa
- mensagem para maria76: quase 13
- mensagem de maria76: então 9 ou 13
- mensagem para maria76: quase 13
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: parei de contar aos 9
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: tou a ficar velho
- mensagem de maria76: todos estamos
- mensagem de maria76: vive com a mãe?
- mensagem para maria76: vive comigo
- mensagem de maria76: é raro
- mensagem para maria76: eu sei
- mensagem para maria76: a mãe foi para o estrangeiro
- mensagem de maria76: e ela ficou contigo?
- mensagem para maria76: sim
- mensagem para maria76: depois já não quis a mãe
- mensagem de maria76: percebe-se
- mensagem para maria76: mas dão-se bem
- mensagem para maria76: o pior já passou
- mensagem de maria76: namoras?
- mensagem para maria76: lol
- mensagem para maria76: acabou à meia hora
- mensagem de maria76: mentiroso
- mensagem para maria76: a sério
- mensagem de maria76: tonto
- mensagem para maria76: eu a falar a sério e tu a gozar
- mensagem de maria76: ok se o dizes
- mensagem para maria76: acabou de sair daqui
- mensagem para maria76: e acabámos
- mensagem de maria76: algum motivo?
- mensagem para maria76: ainda gosta do último namorado
- mensagem para maria76: apenas isso
- mensagem de maria76: dás-me um segundo
- mensagem de maria76: vou à casinha
- mensagem para maria76: vais onde?
- mensagem de maria76: fazer um xixi… posso?
- mensagem para maria76: lol
- mensagem para maria76: podes
- mensagem de maria76: lol
- mensagem de maria76: obrigado

- mensagem para menina34: ainda ocupada?
- mensagem de menina34: sim depois falamos
- mensagem para menina34: ok… bom namoro…
- mensagem de menina34: xau

- mensagem de maria76: voltei
- mensagem para maria76: xixi rápido
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: tá frio no porto?
- mensagem de maria76: hoje sim
- mensagem para maria76: aqui para a noite também ficou
- mensagem de maria76: em que pensas neste momento
- mensagem para maria76: como assim
- mensagem de maria76: que pensamento passa à tua frente…
- mensagem para maria76: nem sei
- mensagem de maria76: vá conta
- mensagem de maria76: sem timidez
- mensagem para maria76: nem sei
- mensagem para maria76: tava desprevenido deixa ver…
- mensagem de maria76: vê lá
- mensagem para maria76: pensava em como serias
- mensagem para maria76: nada demais
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: porque ris
- mensagem de maria76: pensava o mesmo
- mensagem para maria76: mentirosa
- mensagem de maria76: a sério
- mensagem para maria76: como assim
- mensagem de maria76: pensava que homem manda uma namorada embora e vem ao chat
- mensagem para maria76: não mandei
- mensagem para maria76: ama outro
- mensagem para maria76: nada posso fazer
- mensagem para maria76: fiquei triste
- mensagem para maria76: mas nada posso fazer
- mensagem de maria76: pois…
- mensagem para maria76: podia prendê-la com uma corda
- mensagem para maria76: ou atá-la a um poste
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: não adiantaria de nada
- mensagem para maria76: eu sei que não
- mensagem de maria76: e afinal como és
- mensagem para maria76: normal e tu
- mensagem de maria76: também
- mensagem para maria76: também o quê
- mensagem de maria76: normal
- mensagem de maria76: como tu
- mensagem para maria76: ok
- mensagem para maria76: também te custa fazer a barba de manhã?
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: lol
- mensagem para maria76: custa?
- mensagem de maria76: tonto
- mensagem para maria76: se és como eu
- mensagem de maria76: eu disse normal como tu
- mensagem para maria76: eu sei tava a brincar
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: e tu namoras?
- mensagem de maria76: não
- mensagem para maria76: ficaste alérgica a homens?
- mensagem de maria76: naaaaaa
- mensagem de maria76: nem receosa
- mensagem de maria76: já namorei depois
- mensagem de maria76: mas quero que o divórcio saia
- mensagem de maria76: apenas isso
- mensagem de maria76: depois logo se vê
- mensagem para maria76: sim é bem pensado
- mensagem para maria76: com calma e tudo se resolve
- mensagem para maria76: o ex é ciumento?
- mensagem de maria76: sim muito
- mensagem para maria76: pois então tem calma
- mensagem de maria76: o gajo anda armado em parvo
- mensagem para maria76: como assim
- mensagem de maria76: a dizer que não dá o divórcio
- mensagem para maria76: mas foi ele que traiu não foi
- mensagem de maria76: foi
- mensagem de maria76: e que saiu de casa
- mensagem de maria76: um dia cheguei e tinha levado tudo dele
- mensagem de maria76: nem roupa de cama tinha
- mensagem de maria76: era a prenda de casamento de uma tia
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: lol
- mensagem para maria76: feitio lixado o dele
- mensagem de maria76: nem imaginas
- mensagem para maria76: e ele namora?
- mensagem de maria76: não
- mensagem de maria76: a outra largou-o
- mensagem para maria76: deve ser boa peça
- mensagem de maria76: lol
- mensagem de maria76: e agora queria voltar para mim
- mensagem para maria76: e tu
- mensagem para maria76: que fizeste?
- mensagem de maria76: nem vê-lo
- mensagem para maria76: hum
- mensagem para maria76: nem tentas perdoar
- mensagem de maria76: já teve as tentativas que merecia
- mensagem para maria76: e agora?
- mensagem de maria76: agora que siga a vidinha dele
- mensagem para maria76: ah grande mulher…
- mensagem de maria76: não sejas trengo
- mensagem para maria76: não sejas quê?
- mensagem de maria76: trengo é a abreviatura de mostrengo
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: és mesmo mouro
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: sou do fcp
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: eu do glorioso
- mensagem para maria76: lol
- mensagem para maria76: estamos trocados
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: costumas vir ver a bola?
- mensagem para maria76: algumas vezes porque?
- mensagem de maria76: podíamos tomar um café
- mensagem para maria76: ou almoçar…
- mensagem para maria76: se o teu ex deixar…
- mensagem de maria76: lol
- mensagem de maria76: eu não lhe conto
- mensagem para maria76: eu também não

- mensagem de menina34: voltei
- mensagem para menina34: agora estou eu ocupado
- mensagem para menina34: xau
- mensagem de menina34: xau
- mensagem de menina34: parvo
- mensagem para menina34: parva és tu
- mensagem para menina34: xau

- mensagem de maria76: fugiste?
- mensagem para maria76: despachava uma que me apareceu aqui
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: muito concorrido
- mensagem de maria76: já é a segunda que despachas hoje
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: é verdade
- mensagem de maria76: pelos vistos
- mensagem para maria76: não sejas tonta
- mensagem de maria76: eu tonta
- mensagem de maria76: lol
- mensagem de maria76: constatações meu caro
- mensagem de maria76: apenas isso
- mensagem para maria76: se o dizes
- mensagem de maria76: tu é que disseste
- mensagem para maria76: sim eu sei
- mensagem para maria76: mas sem essa conotação
- mensagem de maria76: não se pode brincar
- mensagem para maria76: pode
- mensagem para maria76: vá brinca lá
- mensagem de maria76: quero conhecer-te
- mensagem para maria76: porque?
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: lol
- mensagem de maria76: acho-te piada
- mensagem de maria76: ou não queres
- mensagem para maria76: não vives ali ao virar da esquina
- mensagem para maria76: mas porque não
- mensagem de maria76: bem combinado dá sempre
- mensagem para maria76: eu sei
- mensagem de maria76: queres?
- mensagem para maria76: combinemos
- mensagem para maria76: tudo bem
- mensagem de maria76: quando vieres ao porto diz
- mensagem para maria76: tenho vida facilitada
- mensagem para maria76: posso ir quando quiser
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: sou patrão
- mensagem para maria76: arranjo uma reunião e vou
- mensagem de maria76: não precisas arranjar uma
- mensagem para maria76: vou várias vezes ao porto em reunião
- mensagem de maria76: ok assim tá bem
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: lol
- mensagem de maria76: quase duas da manhã
- mensagem para maria76: nem tinha reparado
- mensagem para maria76: vamos?
- mensagem de maria76: sim apaga a luz
- mensagem para maria76: ficas de que lado?
- mensagem de maria76: esquerdo
- mensagem para maria76: ressonas?
- mensagem de maria76: acho que não
- mensagem de maria76: e tu
- mensagem para maria76: a minha filha diz que pareço um porco
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: tava a brincar
- mensagem para maria76: não ressono
- mensagem para maria76: acho eu
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: lol
- mensagem para maria76: vamos?
- mensagem de maria76: já tens sono
- mensagem para maria76: não e tu
- mensagem de maria76: também não
- mensagem para maria76: mais dez minutos
- mensagem de maria76: ok
- mensagem para maria76: em que pensas?
- mensagem de maria76: como seria dormir contigo
- mensagem para maria76: ahahahaahahahahah
- mensagem para maria76: boa questão
- mensagem para maria76: só experimentando
- mensagem de maria76: não me fazia de convidada
- mensagem de maria76: perguntaste e respondi
- mensagem para maria76: ok
- mensagem de maria76: és alto?
- mensagem para maria76: sou e tu
- mensagem de maria76: pequenina
- mensagem para maria76: anã?
- mensagem de maria76: trengo
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: sou baixa
- mensagem de maria76: só isso
- mensagem para maria76: fogo não se pode dizer nada
- mensagem de maria76: pode
- mensagem para maria76: hummmmmmmmm…
- mensagem para maria76: vais dormir sozinha?
- mensagem de maria76: queres vir ao porto?
- mensagem para maria76: é tarde…
- mensagem de maria76: eu espero
- mensagem para maria76: não gosto de conduzir de noite
- mensagem de maria76: tava a brincar
- mensagem para maria76: combinamos outro dia
- mensagem de maria76: sim é melhor
- mensagem para maria76: vamos?
- mensagem de maria76: sim
- mensagem de maria76: apaga a luz
- mensagem para maria76: encosta-te
- mensagem para maria76: posso por a mão aqui?
- mensagem de maria76: podes
- mensagem para maria76: e aqui?
- mensagem para maria76: também…
- mensagem de maria76: lol
- mensagem para maria76: lol
- mensagem de maria76: beijo
- mensagem para maria76: beijo
- mensagem de maria76: dorme bem
- mensagem para maria76: tu também
- mensagem de maria76: sonha comigo
- mensagem para maria76: beijo

quarta-feira, agosto 23, 2006

a trigésima oitava parte

Sentia falta de trabalhar. Tinha dado pouco valor a algumas coisas. E decidira durante a noite que o deveria fazer. Parar e pensar. Estar mais atento aos pormenores que nunca me diziam nada e dedicar-me às coisas mais pequenas do meu dia a dia.
- Bom dia Judite. Como está.
- Bom dia engenheiro.
- Traga dois cafés e venha à minha sala.
Percebi o espanto na cara dela. Trabalhava à mais de três ou quatro anos comigo e seria o primeiro café a dois.
- Ainda não lhe agradeci o favor que o seu marido me fez.
- Não precisa. Ora essa, já me ajudou o bastante.
- Está há quanto tempo comigo aqui na empresa?
- Faz oito anos em Setembro…
- Sim é isso falhei por um ano… – interrompi eu. – A agenda de hoje como está?
- Complicada. E ainda tem de receber a Dra. Rute Sampaio que nem a consegui encaixar. Conte com ela lá para o meio da tarde. Não esqueça que para a semana tem de ir aos Açores e decidir a equipa que vai consigo.
- Estava esquecido. Chame-me a Sónia para me fazer um ponto da situação do projecto, marque hotel para os dois. Confira depois com ela.
Tinha de ir conferir o local da obra e reunir com o empreiteiro. Estava completamente esquecido.
- Estou Filipe. Olha lá, não podes ir por mim aos Açores?
- Não posso. Aliás nem estou por dentro do projecto, o homem indicado és tu. Leva a Sónia e diverte-te. A miúda tem um fraco por ti.
- Não sejas parvo. Lá estás tu.
- Olha lá oh parvalhão só tu não reparas.
Este gajo tinha cada saída. A Sónia era a arquitecta mais antiga que tínhamos. Mas fora isso, mais nada sabia dela, até pensei que fosse casada. Aliás, quase tinha a certeza de que era casada.
- Engenheiro está aqui a Arquitecta Sónia.
- Mande-a entrar.
Bastaria olhar para a mão dela e procurar a aliança.
- Olá Sónia. Bom dia. Como está o projecto dos Açores.
- Quase pronto engenheiro. Ainda com muita coisa para analisar. Em especial a estrutura e as redes de esgotos domésticos e pluviais. Mas de resto está tudo praticamente decidido para mostrar aos americanos e ao Sr. Matta.
- Mandei marcar hotel para os dois para a semana com a Judite, confirme os dias e veja com o namorado ou marido se pode ir. – disse eu esperando uma resposta e tendo notado a falta da aliança.
- Não há problema, não padeço desses males.
- Que males?
- Maridos e namorados…
- Tudo bem, verifique as datas com a Judite. E faça uma impressão de tudo para eu verificar.
- Depois de almoço estarão na sala de reuniões.
- Tem compromisso para almoçar? Podíamos aproveitar a hora de almoço para ver algumas coisas.
- Tudo bem. À uma hora no estacionamento da empresa.
De facto, pouca ou nenhuma atenção dava às pessoas que me rodeavam. E muito pouco ou nada sabia deles. Da minha filha à minha empregada. Da secretária à uma arquitecta que trabalhava comigo desde o principio da empresa. Até com os meus pais, pouca ou nenhuma relação já tinha.
Recostei-me na cadeira e olhei para a minha vida. Nas mudanças dos últimos dias, e no que tinha desperdiçado. Não podia fazer nada sobre o passado. Mas para o futuro podia tentar mudar. E nada melhor que o almoço para começar.
Revi mais um monte de papéis e deixei uma série de notas para o Filipe. Ao meio-dia liguei para a extensão da Sónia e disse-lhe:
- Vamos sair já. Quero ir a um local que não vou há muito tempo.
- Cinco minutos.
- Até já.
Desci ao estacionamento e liguei o carro. Olhei pelo espelho e vi-a chegar em passo apressado.
- Vamos?
- Sim. Mas que local é esse. – questionou ela.
- Direcção Cascais. Objectivo Guincho. – respondi eu sorrindo.
- Estamos muito animados hoje. Sim senhor. Há muito tempo que não o via assim.
- Eu sei Sónia. A trabalharmos há tanto tempo juntos e não sabia nada de si. É imperdoável eu sei.
- Não tinha que saber, mera relação patrão versus empregada.
- Eu sei que dou a entender que não me apercebo do que se passa à minha volta. Mas decidi mudar. Quero dar mais valor a todas as pequenas coisas que me rodeiam.
- Estou perdida. Está a falar de quê.
- A falar que nunca dei valor às pessoas que trabalham comigo. Como a Sónia por exemplo.
- Por momentos assustou-me. Pensei que se ia declarar.
- E se fosse?
- Eu sou lésbica. Nunca reparou.
- Não. Desculpe, não tinha dado por nada.
Calei-me e fiquei sem saber o que dizer, era um tema que me deixava normalmente sem saber o que dizer. E ainda por cima dito assim. Ainda pior.
- Estava a brincar consigo. Não sou lésbica. – disse sorrindo e continuou. – Apenas me apeteceu brincar consigo, ando há anos a mostrar-lhe o meu interesse e nunca se apercebeu pois não?
- Não. Desculpa Sónia. Nunca dei conta.
- Eu sei. Tens mil coisas nessa cabeça e não dás atenção a mais nada a não ser ao trabalho, nem a ti próprio dás atenção. Mas não faz mal.
- Sinto-me isolado na empresa. Sei que sou visto como o boss e pronto. Não permito mais nada. Nem deixo ninguém aproximar-se.
- Toda a gente nota e sabe isso. O Filipe pelo contrário já as correu quase todas. Poucas devem faltar. – disse sorrindo.
- Deves faltar tu e a Judite?
- Sim, e talvez a Dona Manuela.
- Quem é essa?
- A senhora da limpeza.
- Ah. Já sei. – disse eu sem saber de facto de quem falávamos e continuei. – Mas não me vais dizer que tens andado este tempo todo à espera que te convidasse para sair?
- Queres a verdade?
- Sim, claro.
- Andei sim. Não me perguntes porquê. Houve alturas em que me fartei de ver a minha vida reduzida ao trabalho e a ver-te por escassos minutos. Mas depois descobri que era feliz assim.
- Estranha felicidade…
- Eu sei. Mas valeria a pena namorar, pensando noutra pessoa. Ou arranjar um namorado para esquecer um amor ou uma paixão?
- Tens razão. Mais vale tarde que nunca.
Nunca imaginaria esta conversa com a Sónia, muito menos com a abertura que ambos estavámos a ter. Éramos amigos, fazíamos uma grande dupla. Mas daí a estar a falar de amor com ela ia um grande passo. Um passo de facto muito grande.
Escolhido o Porto de Santa Maria, apressei-me a sair do carro para a poder olhar com atenção. Ficara curioso com aquela declaração e com toda aquela franqueza. De facto, tinha mesmo andado a dormir em relação a gente à minha volta.
Nada faláramos de trabalho. Perdêramo-nos na conversa que tinhas acabado de ter no carro e deixámos correr o resto da tarde. Rimos com alguns episódios da vida da empresa. E fiquei a conhecer a história da vida dela. Simples, dedicada e mulher de um só homem. Exactamente o que eu procurava pensei para comigo.

sábado, agosto 05, 2006

a trigésima sétima parte

Eram quase oito da noite. Deixei-a deitada na cama e vesti-me à pressa. Queria chegar a casa a horas de jantar. Entrei no carro e liguei para casa a avisar que estava quase a chegar.
Pelo caminho, recordei o dia todo. Que raio de dia. Assim ficaria velho depressa. Tinha prometido chegar cedo a casa para falar com a Ana, mas chegaria mais uma vez em cima da hora de jantar. Tinha de tirar a limpo mais coisas sobre o tal Bruno ou Nuno.
A Cláudia nada dissera o resto do dia. Nem parei para pensar nisso. Abri os portões e estacionei. Subi e chamei a Ana.
- Anita. Cheguei.
- Desço já. Só acabar os trabalhos.
Fui à cozinha seguindo o cheiro que me chegava e nem me atrevi a perguntar o que seria.
- Línguas de perguntador. – disse a Dona Madalena num ápice.
- Sim, já imaginava. – disse eu a sorrir.
- Já soube da sua aventura.
- O Filipe espalhou a toda a gente pelos vistos.
- Foi a sua mãezinha que ligou para ver como estava e que me contou.
- Não foi nada. Aliás, foi isso mesmo uma aventura.
- Chame a Ana que o comer está pronto.
Esta mulher era a minha salvação. Não questionava nada, não se metia em nada. Enfim, a esposa perfeita. Não fossem uns quilitos a mais. lol.
- Ana o comer está pronto.
- Vou já paizão.
- Vá despacha-te.
Não me tinha dado mesmo conta que tinha crescido. Que estava uma mulher. Via descer a escada e fiquei triste, um dia destes descia vestida de branco e não mais voltava. Pouco faltaria, pensei.
- O teu dia como foi?
- A stora de matemática é uma chata, vai fazer mais um teste.
- Os testes são bons. Servem para ver se vocês aprendem. E o tal rapaz como está? Estiveste com ele hoje?
- Oh pai. Ele é de Santarém. Eu disse-te que é filho de uma amiga da mãe e que vive em Santarém.
- Não tinha percebido. – disse todo contente.
- Estiveram connosco na Madeira.
- Ah. Já percebi. Ele vive em Santarém. Muito bem. Assim já me parece melhor.
- Pois. Desde que não te zangues com a conta do telemóvel. – disse ela a correr para a cozinha e a rir.
- Desconto-te na mesada. – resmunguei logo eu fingindo-me aborrecido com a conversa.
- Meninos, então comportem-se… – interrompeu a Dona Madalena.
- Meninos? Diga antes menina Ana, ou melhor Dona Ana que ela já namora. – protestei eu.
- Vá, um dia destes casam-se os dois e eu fico sozinha. – lamentou-se a Dona Madalena.
- Fique descansada, eu daqui não saio. Logo o seu lugar é eterno nesta casa.
- Oh menino, um dia entra uma senhora e tudo muda. Vai querer novas coisas, novas regras. E eu estou velha para mudar…
Continuamos naquela conversa animada até bem tarde. Era o dia em que me tornara o herói da casa. A Ana assistira a todo o relato, como se de uma telenovela se tratasse. Acabei o café já passava das dez e disse à Ana:
- Anita, cama que são horas.
- Ainda é cedo. – resmungou logo ela.
- Vá e sem refilar.
- Boa noite, Dona Madalena. Boa noite paizãooooooo.
- Boa noite princesa. – aproveitando a saída dela da cozinha, questionei a Dona Madalena. – Recentemente reparou num homem aqui a rondar a casa?
- Que eu tenha dado conta não. Sabe que com o Apollo solto poucas pessoas se atrevem a chegar ao muro da casa.
- Sim eu sei. Mas hoje, o outro fulano ameaçou a Ana também. É sinal que a viu ou nos viu. Tenha cuidado. E qualquer coisa solte o Apollo. Nunca se sabe. E depois do que lhe fiz, pode querer vingar-se.
- Fique descansado, o Apollo e o meu cutelo esperam-no. – respondeu sorrindo.
- Vou para o escritório. Até amanhã Dona Madalena. E fique descansada, por mim será sempre a Dona da casa.
- Até amanhã menino.
Entrei no escritório e liguei o computador. Vi os mails, e escusado será dizer que passados cinco minutos estava no chat.

- mensagem de menina34: olá miguel
- mensagem para menina34: olá princesa
- mensagem de menina34: estava a pensar em ti
- mensagem para menina34: ahahahahahahah
- mensagem para menina34: eu também pensava em ti
- mensagem de menina34: mentiroso
- mensagem de menina34: nem te lembraste mais de mim
- mensagem para menina34: se eu disse
- mensagem para menina34: é porque me lembrei
- mensagem para menina34: gostei de estar contigo
- mensagem para menina34: mesmo no mundo paralelo
- mensagem de menina34: lol
- mensagem para menina34: lol
- mensagem de menina34: gostaste?
- mensagem para menina34: adorei
- mensagem de menina34: repetias?
- mensagem para menina34: sim
- mensagem para menina34: repetia
- mensagem de menina34: a sério?
- mensagem para menina34: a sério
- mensagem para menina34: não me sentia tão bem à muito tempo
- mensagem para menina34: gostei de estar contigo
- mensagem para menina34: a sério
- mensagem de menina34: eu também
- mensagem de menina34: mesmo destreinada?
- mensagem para menina34: lol
- mensagem para menina34: não me apercebi
- mensagem de menina34: mas estou
- mensagem para menina34: quer dizer que isso ainda melhora?
- mensagem de menina34: não sei, experimenta e verás
- mensagem para menina34: hummmmmmmm
- mensagem para menina34: temos de repetir
- mensagem de menina34: também acho
- mensagem para menina34: lol
- mensagem de menina34: lol

- mensagem de luna69: olá
- mensagem de luna69: desaparecido
- mensagem para luna69: olá
- mensagem para luna69: não me recordo de ti
- mensagem para luna69: desculpa
- mensagem de luna69: falamos umas duas vezes
- mensagem de luna69: tens andado desaparecido
- mensagem para luna69: tive um dia complicado desculpa
- mensagem de luna69: eu também
- mensagem de luna69: umas cenas maradas aqui em casa
- mensagem para luna69: com os teus pais
- mensagem de luna69: não
- mensagem de luna69: namorados?
- mensagem para luna69: queres falar sobre isso?
- mensagem de luna69: queres ouvir?
- mensagem para luna69: sim
- mensagem de luna69: o meu ex anda na droga
- mensagem de luna69: de vez em quando vem cá a casa pedir dinheiro
- mensagem de luna69: hoje ameaçou-me que queria mais dinheiro
- mensagem de luna69: senão que me matava
- mensagem de luna69: a mim e ao meu namorado
- mensagem de luna69: e telefonei ao meu namorado para cá vir a casa
- mensagem de luna69: cenas maradas
- mensagem de luna69: esquece
- mensagem para luna69: não faz mal
- mensagem para luna69: continua tou aqui a ler
- mensagem para luna69: lol
- mensagem de luna69: lol
- mensagem de luna69: e foi isso
- mensagem de luna69: pegaram-se os dois
- mensagem de luna69: o meu namorado ia-o matando
- mensagem de luna69: uma coisa que não devia ter acontecido
- mensagem de luna69: foi um bruto
- mensagem para luna69: mas o teu ex não estava a ameaçar-te
- mensagem para luna69: e não o ameaçou
- mensagem para luna69: que querias que fizesse?
- mensagem para luna69: não achas que fez bem?
- mensagem de luna69: não, não fez
- mensagem de luna69: eu ainda o amo
- mensagem de luna69: nunca o esqueci
- mensagem de luna69: bolas
- mensagem de luna69: eu estive grávida dele
- mensagem para luna69: eu sei Cláudia

Fazia tempo que não sentia as lágrimas correrem-me pela face. Num misto de leveza e alivio. Deixei-as correr. Aquela luna69 era a minha Cláudia. Aquele amor que nunca esquecera era pelo João.
Olhei o écran e reli as últimas palavras dela. Recostei-me na cadeira e senti-me voar. As lágrimas não paravam de cair e nada fiz para as deter. Era o meu mundo paralelo a chocar com a vida real.
Levantei-me e fui ao terraço olhar a serra. Sentia-me distante. Longe demais para poder estar a sentir o que sentia. Voltei para dentro e olhei o écran.

- mensagem de luna69: como sabes o meu nome
- mensagem de luna69: diz-me
- mensagem de luna69: Miguel ?

Nada mais disse. Cliquei no ignore, e saí do chat. Desliguei o telemóvel e fui-me deitar. Chegava por hoje.
o resto da trigésima sexta

A casa da Isabel ficava em Odivelas, um T2 com jardim engraçado na frente mas cheio de carros mal estacionados. Olhei a decoração. Simples e organizada. Parecia tudo no sítio e sem coisas a mais ou a menos. Tudo na medida certa.
Olhei o computador de onde me escrevia. E sorri. A vida de hoje em dia, podia resumir-se a isso. Dois computadores em lugares distantes e remotos. E mesmo assim, conseguir viver do outro lado do écran.
- Põe-te à vontade…
- Já estou.
- Queres tomar algo?
- Não. Estou bem assim.
- Nervoso?
- Nada e tu.
- Muito. Muito mesmo.
- Porque?
- O último homem foi o meu marido e já lá vão três anos.
- Descontrai. Não dói nada. – disse sorrindo.
- É melhor estar no computador a escrever, estou mais solta, mais à vontade…
- Aqui é igual, descontrai…
- Eu sei, mas não consigo.
- Tens um lenço? Um grande?
- Sim, tira dessa gaveta.
- Façamos um jogo. – disse abrindo a gaveta. – Fecha os olhos e deixa-me tapá-los com o lenço.
- Ok.
- Vês alguma coisa?
- Não.
Passei a mão para me certificar. Mas nada estava bem vendada. Levantei-a e sentei-a no sofá maior. E entre sorrisos e mãos a voar lá conseguimos.
- Imagina o écran. Estás em frente dele. Que me dirias neste momento?
- Que te queria aqui. Junto de mim.
- É assim tão complicado? – disse para a descontrair.
- Não, continua…
- De que sentes mais falta na vida?
- De mimos, de me darem atenção, de ter alguém só para mim…
- E eu a pensar que era sexo…
- Oh, não sejas parvo. – disse sorrindo. – Disso também, mas não é o mais importante.
- Sim eu sei. Em que pensas?
- Onde vamos chegar com este jogo.
- Continuemos.
- Pergunta.
- Quem disse que eram só perguntas? Tira a blusa…
- Hum… Não sou capaz. Tira tu.
- Nada disso tira tu.
- Ok, eu tiro.
Fiquei a olhá-la, sentada de soutien coberto pelos braços cruzados. Reparei nos mamilos duros, e tentei não me excitar e dar mais piada ao jogo.
- Quantos homens tiveste até hoje?
- Acho que cinco.
- Todos com sexo?
- Com sexo foram três. – disse já corada.
- Eu vou ser o quarto?
- Se quiseres…
- Tira as calças…
Sentia de pé em frente de mim. Senti o cheiro. Senti a vontade de estar ali e de fazermos amor. Como se de um cheiro se tratasse. Descalçou-se e tirou as calças. Em frente de mim, uma bela mulher, com um fio dental vermelho e um soutien que devia ser um ou dois números abaixo, para realçar o tamanho. O tamanho que diga-se a verdade já era um 38 ou 40.
- Estás excitada?
- Estou a ficar…
- Alinhas em tudo na cama?
- Não tenho tabus.
- Conta-me uma loucura que tenhas feito…
- Sexo oral ao meu marido num elevador…
- Fizeste até ao fim?
- Sim…
- Engoliste?
- Sim…
- Outra loucura…
- Dentro de água na praia…
- Foi bom?
- Não, andei com infecção uns dias. – disse sorrindo.
- Porque não tiveste mais ninguém neste tempo todo?
- Teria sido só sexo… não me agrada assim…
- E agora não vai ser só sexo?
- Vai. Mas gosto de ti. Será diferente…
- Tira o soutien…
- Não queres tirar tu?
- Não.
Notei então os mamilos duros. O peito apontado a mim, quase a implorar que a levasse para o quarto. Mas continuei. Estava a gostar. Aquela calma. Aquele à vontade excitava-me imenso. Adorava aquela visão que tinha dela naquele momento.
- Algo que nunca fizeste e que adorasses fazer?
- Sexo a três…
- Fazias?
- Acho que sim…
- Mais uma mulher ou mais um homem?
- Tanto fazia…
- Hum… mais excitada?
- Sim. Muito e tu?
- Surpresa. Tira o fio dental…
- Vem tirar tu…
- Nada disso tira e masturba-te para te ver. Quero ver-te assim.
Sem dar conta, entrava no mundo paralelo. Nada me prendia aquela mulher, podia sair, fugir que nada sabia de mim. Tinha o meu numero e pouco mais. Não sabia mesmo nada de mim. Recordei as frases que me dissera na outra noite. As mulheres perdidas, que entravam em todos os jogos e fiquei a olhar para ela. Completamente absorvida no meu jogo. Deitei-a. Beijei-a e disse-lhe ao ouvido: És louca princesa.

domingo, julho 30, 2006

um bocadinho da trigésima sexta parte

Estacionei no Colombo e subi ao segundo piso. Faltavam cinco minutos. Saí do elevador e dei uma volta. E lá estava ela. Encostada a um corrimão a mexer no telemóvel.
- Ia-te mandar uma mensagem.
- Olá. Como estás?
- Estou bem mas tu pareces mal, Que se passou?
- Nem vais acreditar. Já te conto: Queres comer onde?
- Escolhe tu…
- Bacalhau gostas?
- Pode ser…
Entrámos num restaurante só com bacalhau que tinha aberto recentemente e fomos para o fundo do restaurante. Apetecia-me estar isolado e falar sem muita gente à volta.
Contei-lhe o episódio, e foi-me escutando com toda a atenção com se fosse um filme que estivesse a assistir. Sem me dar conta, estávamos a sorrir, e a fazer comentários heróicos a tudo aquilo. Passar-me o estado de nervosismo, de ansiedade e estava a sentir-me bem. Muito bem.
- Estou a almoçar com um herói. – disse soltando uma gargalhada.
- Ri-te, ri-te. Olha que foi bem complicado.
- O meu herói. - disse metendo a mão dela por cima da minha.
- Também não foi assim tanto. Saí-me bem. Só isso. Aí vem a cataplana de bacalhau. Preparada ?
- Parece deliciosa. Vais trabalhar de tarde?
- Não preciso e tu?
- Tirei o dia para ti…
Aquela disponibilidade, aquele ar simples de mulher, estavam a agradar-me imenso. Recordei o que me contara da sua vida. E dei comigo a pensar que gajo idiota manda fora uma mulher destas. Estava mais magra, notei que se produzira e que vinha com tudo. lol.
Mas ainda bem que veio. Estava a precisar de alguém assim naquele momento.
- E então o namoro? Vai continuar? – disse evitando olhar-me nos olhos.
- Nem sei. Não pensei nisso. Porque perguntas?
- Nada, curiosidade feminina apenas.
- Diz lá. Não tem mal. Mas conta-me, porque perguntaste?
- Gosto de ti. Eu sei que parece estranho. Mas fazes-me bem…
- Saímos uma vez. Falámos mais duas ou três. Não estarás a ter um devaneio no mundo paralelo? – disse sorrindo e provocando-a.
- Quem sabe. É capaz de ser. Tens razão.
- Estás muito mais magra. A fazer dieta?
- Nota-se?
- Sim. Muito mesmo.
- Já perdi 12 quilos…
- Estás melhor assim. Mas vê lá se desapareces.
- Ai, não sejas parvo…
- E a que se deve tal dieta?
- Quero conquistar-te...
Eu sou mesmo parvo. Faço as perguntas e depois lixo-me. A Isabel estava claramente a atirar-se para cima de mim. Já o tinha notado. E fiquei sem saber o que dizer.
- O gato tirou-te a língua.
- Digeria o que me disseste. Ainda não me habituei ao mundo paralelo. Tudo pode não passar de uma ilusão e depois? Damos umas quecas e que se passará depois?
- Não me queixei. Mas podemos ir dando umas quecas. Aceito o convite.
- Sabes bem que não era um convite…
- Estava a brincar…
- Desculpa o dia foi complicado. Tens razão.
- Razão em quê?
- Vamos dar umas quecas. É isso que queres?
- Como uma obrigação não. Quero se também quiseres.
- Eu quero…
trigésima quinta parte

A Cláudia não parava de chorar, e nem as brincadeiras do Filipe sobre o meu acto heróico a animavam. Fiz sinal ao Filipe e lá entendeu que estava a mais. E lá arranjou uma saída inteligente.
- Bem. Alguém tem de ir trabalhar. Fica descansado maninho, eu seguro o escritório.
- Se precisares de algo diz. – disse, levando-o à porta.
Voltei para dentro e Cláudia estava agora deitada de barriga para baixo, com a cabeça sobre os braços.
- Já passou. Queres que te vá buscar alguma coisa. – disse virando-a suavemente para cima.
- Não precisavas bater-lhe assim. – disse limpando as lágrimas.
- Olha lá. O gajo tinha uma faca, ameaçou-te, ameaçou-me até à Ana ameaçou e ainda o defendes?
- Ele não faria nada, apenas queria dinheiro…
- E eu ia lá saber. Aliás como sabia ele que eu tinha uma filha?
- Ele já cá veio duas ou três vezes. Levou dinheiro e foi-se. Era isso que ia acontecer.
- Não te armes em defensora dos fracos. Eu levei um pontapé, e fui ameaçado…
- Mesmo assim não precisavas quase de o matar.
- Olha parece que tudo isto tem a ver com o que sentes por ele: O gajo ameaçou meio mundo. E calhou eu conseguir defender-me e vens com essas merdas. Santa paciência…
- Não devias ter feito o que fizeste…
- Fiquemos por aqui Cláudia, já me chega de emoções e de ouvir coisas parvas. Fica bem.
E saí porta fora. Foda-se. Ainda o estava a defender. Já na rua liguei para o escritório para sintonizar a Judite com tudo, mas ela já sabia e disse-me para não me preocupar, que o Alberto trataria de tudo.
Sentia-me nervoso. Muito nervoso mesmo. Meio perdido. E sem saber quem teria razão, se a Cláudia ou eu. Que se lixe. Agarrei no telemóvel e apeteceu-me atirá-lo ao ar. Foda-se que merda de vida. Não me apetecia estar só. Mandei uma mensagem à Isabel a ver se queria almoçar.
”claro que sim, 13 horas no Colombo no piso 2”
A resposta animou-me. Estava meio perdido. Sentia-me longe de tudo. Só no meio de tanta gente. O toque do telemóvel ligou-me ao mundo.
- Tou, mãe diga.
- Que se passou estás bem?
- Sim já passou. Como soube desta confusão?
- O Filipe ligou e contou.
- Não se preocupe está tudo bem. O pai está bom?
- Sim. Só preocupado. Queres vir cá jantar?
- No fim-de-semana passo aí. Tenho muita coisa para fazer hoje. Um beijo
- Outro. Qualquer coisa liga.
Os meus pais eram assim. Apareciam, mal um dos rebentos estivesse aflito. Tinha de me organizar para ir a casa deles no fim-de-semana. Fazia mais de dois meses que nada dizia nem aparecia. O típico filho desnaturado. Mas com um espaço onde eles não se metiam. E isso agradava-me.

quinta-feira, julho 27, 2006

o resto da trigésima quarta parte

...
Boa. Aquele gajo era o João. De repente perdi o medo. Senti-me mais calmo e com vontade de lhe partir a tromba. Não fosse a merda da faca que tinha na mão.
- Tem calma João. Não farei e farei nada de mal.
- Cala-te meu. E passa a guita.
- Passo-te um cheque se desapareceres. Escolhe um valor e promete não voltar.
- Foda-se meu, és como o pai desta gaja. Resolves tudo com cheques. Vai-te foder. Ainda te espeto. Passa mas é a guita.
- Tem calma, está aqui. – disse eu meio nervoso entre o aproximar da faca e o ar meio louco do gajo.
Atirei tudo para o chão, dinheiro, relógio e telemóvel, na esperança que ao apanhar o pudesse pontapear.
- Tás a gozar meu. Apanha essa merda e mete em cima da mesa. Foda-se ainda te espeto. Tás armado em parvo. Vá depressa.
Baixei-me para apanhar tudo e senti um forte pontapé no estômago e as mãos dele no meu cabelo.
- Bico calado ou sangro-te aqui filho da puta…
- Tem calma, leva tudo e vai-te embora…
- O menino tá borradinho… Tás aqui tás a sangrar…
- Vai-te embora João. Por amor de Deus vai-te embora. – gritou a Cláudia sem parar de chorar. – Vai por amor de Deus.
- Não limpei o sebo ao teu pai mas limpo a este cabrão e à filha dele. Ouve-me bem. Eu limpo o sebo a este cabrão e à filha dele…
- Vai-te embora! Saí da minha vida de uma vez! Por favor João. – disse a Cláudia implorando e não parando de chorar.
Ao sentir que abrandou o apertar dos meus cabelos, levantei-me segurando a mão onde tinha a faca. Olhei-o nos olhos e sem pensar puxei da cabeça atrás e dei-lhe uma cabeçada monumental entre os olhos e o nariz. Fiquei meio tonto mas senti que deixara cair a faca e que caíra de joelhos no chão. Procurei a faca e agarrei-a num ápice. O sangue jorrava por entre os dedos, de tal maneira que se deixara de ver o rosto. Balbuciou qualquer coisa e caiu para o lado.
- Meu Deus. Que fizeste Miguel. Mataste-o… Ai meu Deus. Ele está morto. – disse a Cláudia a gritar.
- Cala-te e chama a policia, ou melhor o 112…
Parei, olhei à volta e agarrei no telemóvel. E liguei para o Filipe.
- Estou Filipe, vem depressa para a casa da Cláudia.
- Passa-se alguma coisa?
- Vem o mais depressa que consigas.
Como a Cláudia nada fizera, liguei o 112 e dei a morada. Pedi também para trazerem a policia e relatei o estado da vítima. Só então me debrucei sobre o desgraçado. Respirava, não estava morto. Fui à casa de banho e apanhei umas toalhas para o limpar. Limpei-lhe a tromba e de anormal aparentemente só um osso branco estava fora no nariz, meio espetado e partido em dois. Molhei-lhe a cara e tentei fazê-lo voltar a si. Tomei-lhe o pulso para ver se estava vivo. E esperei que chegasse o 112. Ouvida a sirene, fui à janela fazer sinal. Na rua estava também já o Filipe e um carro da polícia. E fui para o hall abrir a porta.
- Onde está o ferido? – perguntou um homem vestido de branco.
- Ali ao fundo no quarto. – disse eu apontando a direcção.
O Filipe vinha com dois agentes da PSP, que entretanto se me dirigiram e questionaram sobre o ocorrido. Um sentou-se comigo na sala e o outro foi ver o estado em que estava o João.
Tentei acalmar-me e ser racional. Perceber toda aquela confusão e ser lúcido e objectivo nas explicações de tudo o que ocorrera. Olhei a maca a passar e o João a levar uma máscara para ajudar a respirar.
Os dois agentes sentaram-se então comigo e perguntaram detalhadamente o que se tinha passado.
- Tenha calma. – disse-me um dos agentes. – Que se passou?
Detalhadamente contei tudo o que me lembrava e o que tinha acontecido. Todos os pormenores, e tudo o que achei importante.
- Agiu bem, mas com estes drogados nunca de deve arriscar: Valia mais deixá-lo ir. – confidenciou-me o agente mais velho. – Vão-se os anéis mas ficam os dedos.
- É como o meu colega diz. – disse o outro, meio a rir. – Era para a dose diária, não valem o esforço acredite. Mais dia, menos dia acabam num beco qualquer, com uma seringa entre os dedos dos pés.
Tinha-me esquecido da Cláudia e pedi aos agentes se a podia ir ver. O Filipe já lhe levara um copo de água e estava mais calma. Mal entrei abraçou-me e disse-me:
- Tive medo de te perder. Amo-te muito.
- Tem calma, já passou. O Filipe fica aqui contigo enquanto eu trato de tudo. – disse limpando-lhe as lágrimas.
Voltei à sala e os dois agentes já de pé, agiam como se nada fosse.
- Hoje à jogo da Liga dos Campeões, a ver se o Porto ganha ao Manchester. – disse com ar irónico.
- Vai ganhar. – Disse eu meio orgulhoso do meu clube.
- Já que mais ninguém ganha, que ao menos ganhem eles…
- Como os senhores agentes devem imaginar, nunca me vi envolvido numa situação destas, nem sei que passos dar.
- Tenha calma. Falta só dar-nos os seus dados e esperar. Normalmente, estes gajos não têm, onde cair mortos. E a si aconselho-o a não apresentar queixa. Só lhe vai trazer chatices. E a ter que encontrar o gajo mais vezes.
- Compreendo. Têm aqui um cartão meu, com todos os dados.
Pegou no cartão e mudou de cor.
- Senhor Engenheiro como está?
- Desculpe. Não me lembro de si, mas no meio desta confusão, compreenda.
- Tem razão. Desculpa peço eu. Sou o marido da sua secretária. A Judite Morais. Está a ver aqui. - disse apontando para o crachá – Alberto Morais.
- Peço desculpa. Não me recordava…
- Vá descansado e esqueça este episódio, nós tratamos de tudo…
- Tratam de tudo?
- Sim. – disse-me ele piscando o olho. – O senhor merece.
O colega estava meio aturdido com tudo, e meio incrédulo. Mas com um encontrão e um piscar de olho, percebeu o que eu não percebi nem relacionei.
- Foi este senhor que mandou as caixas de sardinhas para as festas dos Santos Populares. - disse com um ar pomposo. – E que mandou a minha Judite, para casa quando o meu do meio esteve com a Varicela. Nem um dia lhe descontou e ainda lhe ofereceu a consola de jogos.
- Senhor engenheiro. Fique descansado, trataremos de tudo. – disse o outro completamente transformado e com um ar venerado.
- Cumprimentos ao vosso senhor comandante. – disse acompanhando-os à porta.
um bocadinho da trigésima quarta parte

Acordei com um beijo doce da Ana. Olhei as horas e ainda não eram sete da manhã.
- Bom dia paizão. Levas-me à escola.
- Sim, posso levar. Mas que se passa?
- Nada. Queria falar contigo, só isso.
- Tudo bem, meia hora e saímos.
- Vou descer, despacha-te.
Olhei o espelho e tudo estava na mesma, sentia-me leve. Mas apenas isso. Fiz a barba, tomei um duche rápido e enviei-me num fato cinza escuro, com uma camisa cinza clara e uma gravata cerize. O pequeno-almoço estava prontíssimo, devorei duas torradas e esperei que a Ana fosse buscar um livro enquanto acabava o café.
- Vamos Ana, estamos atrasados. – gritei-lhe na escada.
- Um segundo, vou já.
- Vou para o carro, despacha-te.
Liguei o carro e meti-o na rua, já fora do portão. Cinco minutos depois lá veio a Ana. Reparei que ligeiramente pintada. E recordei o pedido de querer falar comigo. Mas aguardei que começasse ela.
- Queres música? – perguntei como se nada fosse.
- Já namoro. – disse bruscamente.
Olhei o espelho do carro e tentei agir normalmente, como se fosse a notícia mais normal do mundo.
- E quem é o felizardo?
- O Nuno… - disse meio a medo.
- Não conheço esse… quem é o rapaz?
- É filho de uma amiga da mãe…
- Que idade tem?
- Tem quinze anos…
- Quinze ? Olha lá que merda é esta tu tens nove anos. – disse eu quase histérico.
- Pai faço treze para a semana…
Treze? Treze? Para mim iria sempre ter nove… Aliás eu dizia a toda a gente que tinha nove. Para mim tem nove e mais nada.
- Que disse a tua mãe?
- Deu-me umas dicas e disse para quando tiver dúvidas falar com ela.
- Só isso? Começas a namorar e ela apenas diz isso. Deu-te umas dicas.
- Pai… nem te tenho visto. Só trabalhas e trabalhas. Querias que falasse com quem?
- Eu sei, desculpa. Logo falamos e porta-te bem com esse Bruno…
- Nuno pai, ele chama-se Nuno…
- Ou isso. Beijo, até logo. Chego cedo para conversarmos.
- Beijo. Até logo.
Via sair. Estava uma mulher. Uma mulher bonita como a mãe. Não tinha dado conta do que crescera. Senti-me triste, tinha perdido estas últimas semanas e meses da vida dela. Provavelmente os mais importantes. Tinha de parar e dar-lhe mais atenção.
Acelerei e meti-me no meio do trânsito para Lisboa, procurei aquele casal meio doido a ver se me animava a manhã… e ali estavam eles. Bem vindos sejam. Não se conseguia ouvir uma música de princípio ao fim, mas não importava, no meio da confusão, de todo aquele trânsito, valia tudo. Mesmo tudo. Quase que nem o toque do telemóvel ouvi.
- Tou… Miguel…
- Sim Cláudia diz…
- Vem ter comigo.
- Passa-se alguma coisa?
- Passa. Vem ter comigo.
- Estás onde? Em casa?
- Sim…
- Dez minutos. Até já.
Que se estaria a passar. Dei meia volta e fui em direcção a casa dela. Pela voz algo de estranho seria. Mil coisas me passaram pela cabeça. Seria o tal João que voltara do deserto, tal D. Sebastião. Só podia, nada de tão grave podia ser. Estacionei e subi a casa dela. Nem precisei tocar, a porta entre aberta já me esperava. Entrei e chamei-a.
- Cláudia…
- Estou no quarto, entra.
- Que se passa princesa?
Entrei no quarto e fui empurrado para o chão. Virei-me e deparei-me com um gajo mal-encarado, aparentemente drogado e fora de si.
- Passa-me a guita meu e não bufes!
- Tem calma meu… tudo bem, leva o que tenho…
- Nem meu, nem meio meu, passa tudo. Vá depressa. Esse relógio e o telemóvel. Vá despacha-te.
- Tem calma João. Leva tudo e vai-te embora. Por favor.
...
trigésima terceira parte

Nem acreditava no que fizera. Desci as escadas lentamente e tentei recordar. A imensidão de mãos, de bocas, de olhos, a mistura do cheiro. Por mais estranho que me sentisse continuava excitado. Imensamente excitado. Desci as escadas em passo de corrida e parei no passeio para sentir ao ar no rosto. Não me sentia tocar o chão. Na realidade não podia estar a tocá-lo. Nem acreditava no que me estava a acontecer. Na volta que a minha vida dera nos últimos dias, nas ultimas semanas.
Não sabia o que sentir. Se estaria no meio de um filme, de uma guerra ou de algo que ainda não percebera. Era quase fim de tarde, meti-me no carro e fui para casa. Precisava estar só. Muito só. Jantei no meio das aventuras da Ana, das histórias das colegas, de um mundo que me estava a passar ao lado. E fui-me enfiar no escritório.
Sentia voltarem os meus fantasmas, os meus medos, o meu passado. Percebia e não queria perceber. Mas algo de errado se estava a passar. Não era eu, não podia ser eu. Estranho era gostar do que se estava a passar. Gostar ou não, já nem isso sabia. Era tudo demasiado estranho.
Senti-me rodeado do meu velho companheiro, quente e frio, a cair no meu túnel. Sem volta, sem querer voltar. Sentia-me tremer, entrar num estado de ansiedade descontrolado e sem saber o que fazer. Corri à gaveta e engoli um comprimido velho conhecido. Esta merda tinha de passar, não podia ser real. Isto não podia voltar. Já tinha feito a minha travessia no deserto, não podia voltar. Não podia e não queria. Merda de vida esta. Que fui eu fazer. Merda. Merda. Merda.
Liguei o computador e entrei no chat quase por intuição. Queria parar de pensar. Tinha de parar de pensar.
- mensagem de menina34: olá miguel
- mensagem de menina34: estás bem
- mensagem para menina34: sim e tu
- mensagem para menina34: desculpa de momento nem sei quem és
- mensagem de menina34: lol
- mensagem de menina34: a Isabel
- mensagem de menina34: saímos uma vez
- mensagem de menina34: fomos à FNAC
- mensagem para menina34: desculpa Isabel
- mensagem para menina34: estava meio perdido
- mensagem de menina34: lol
- mensagem de menina34: eu notei
- mensagem de menina34: não gostaste mesmo de mim
- mensagem para menina34: desculpa
- mensagem para menina34: estava longe
- mensagem para menina34: problemas e mais problemas
- mensagem de menina34: tudo bem não tem mal
- mensagem para menina34: desculpa mais uma vez
- mensagem de menina34: queres falar ?
- mensagem para menina34: nem sei o que se passa
- mensagem de menina34: disseste: problemas mais problemas
- mensagem de menina34: podes falar
- mensagem de menina34: faz bem
- mensagem de menina34: acredita em mim
- mensagem para menina34: eu sei
- mensagem para menina34: mas nem sei o que tenho
- mensagem de menina34: tenta
- mensagem para menina34: a minha vida deu uma volta enorme
- mensagem para menina34: só isso
- mensagem de menina34: continua
- mensagem de menina34: estou aqui a ouvir
- mensagem de menina34: lol
- mensagem de menina34: ou melhor a ler…
- mensagem para menina34: a minha vida deu uma volta enorme
- mensagem para menina34: só isso
- mensagem para menina34: conheci montes de gente aqui
- mensagem para menina34: e fui com quase todas para a cama
- mensagem de menina34: comigo não… lol…
- mensagem para menina34: deves ter sido a única
- mensagem para menina34: de resto devo ter andado com todas
- mensagem de menina34: e ???
- mensagem para menina34: e não sou assim
- mensagem para menina34: nunca fui assim
- mensagem para menina34: e hoje sinto-me como se tivesse batido contra uma parede
- mensagem para menina34: vejo a merda toda que tenho feito
- mensagem de menina34: tem calma
- mensagem de menina34: há dias assim
- mensagem para menina34: para piorar comecei a namorar
- mensagem para menina34: e nem a ela a tenho respeitado
- mensagem para menina34: olha
- mensagem para menina34: nem sei que pensar
- mensagem para menina34: sinto-me mal com o que tenho feito
- mensagem para menina34: mas continuo
- mensagem para menina34: como se fosse uma droga
- mensagem para menina34: um vício que não consigo largar
- mensagem de menina34: sabes
- mensagem de menina34: aqui tudo é diferente
- mensagem de menina34: sem barreiras
- mensagem de menina34: sem fronteiras
- mensagem de menina34: habitua-te
- mensagem de menina34: um dia um rapaz mais velho
- mensagem de menina34: disse-me aqui no chat
- mensagem de menina34: bem vinda ao mundo paralelo
- mensagem de menina34: e é isso miguel
- mensagem de menina34: bem vindo ao mundo paralelo
- mensagem de menina34: aqui não há regras
- mensagem de menina34: vale tudo
- mensagem de menina34: ou quase tudo
- mensagem de menina34: e tens e vais encontrar de tudo
- mensagem de menina34: mulheres perdidas
- mensagem de menina34: casadas
- mensagem de menina34: divorciadas
- mensagem de menina34: fartas da vida que têm
- mensagem de menina34: dos maridos
- mensagem de menina34: dos filhos
- mensagem de menina34: de tudo
- mensagem de menina34: e pior que isso
- mensagem de menina34: que vão com duas cantigas
- mensagem de menina34: numa loucura qualquer
- mensagem de menina34: apenas para mudarem a vida
- mensagem de menina34: nem que seja por um segundo
- mensagem de menina34: por um minuto
- mensagem de menina34: é o mundo paralelo meu querido
- mensagem de menina34: bem vindo
- mensagem para menina34: não tinha pensado nas coisas assim
- mensagem para menina34: mas tens razão
- mensagem para menina34: procura-se aqui a felicidade
- mensagem para menina34: sem olhar a meios
- mensagem para menina34: sem olhar a fins
- mensagem para menina34: mas ela não está aqui
- mensagem para menina34: esta merda é mesmo um mundo paralelo
- mensagem para menina34: aqui não há nada
- mensagem para menina34: nem pode haver
- mensagem de menina34: haver há
- mensagem de menina34: criam-se amizades
- mensagem de menina34: já ouvi falar de casamentos
- mensagem de menina34: lol
- mensagem para menina34: lol
- mensagem de menina34: mas não deixará de ser um mundo paralelo
- mensagem de menina34: para 99% do pessoal
- mensagem de menina34: tem calma
- mensagem de menina34: isso passa
- mensagem de menina34: vai passar
- mensagem para menina34: já não sei nada
- mensagem para menina34: sinto-me mal
- mensagem para menina34: deprimido
- mensagem para menina34: só tenho feito merda
- mensagem de menina34: tens feito
- mensagem de menina34: mas pensa assim
- mensagem de menina34: fizeste a dois
- mensagem de menina34: houve uma outra parte
- mensagem de menina34: havia mais alguém
- mensagem de menina34: não foste só tu a querer
- mensagem de menina34: mais alguém quis…
- mensagem para menina34: eu sei
- mensagem para menina34: mas isso não apaga a merda que fiz
- mensagem para menina34: os erro que cometi
- mensagem para menina34: queria conhecer alguém
- mensagem para menina34: uma mulher
- mensagem para menina34: uma companheira
- mensagem para menina34: casar
- mensagem para menina34: ter mais filhos
- mensagem para menina34: não peço muito
- mensagem para menina34: e faço exactamente o contrário
- mensagem para menina34: ando de cama em cama
- mensagem para menina34: de mulher em mulher
- mensagem para menina34: e traio a mulher que pode vir a ser mãe dos meus filhos
- mensagem para menina34: queres que me sinta bem?
- mensagem de menina34: tem calma
- mensagem de menina34: é pior morrer
- mensagem de menina34: estás vivo
- mensagem de menina34: estamos vivos
- mensagem de menina34: e isso é bom
- mensagem de menina34: muito bom
- mensagem de menina34: nós nem a isso sabemos dar valor
- mensagem de menina34: procuramos tudo
- mensagem de menina34: em todo lado
- mensagem de menina34: e o mais simples
- mensagem de menina34: o mais bonito
- mensagem de menina34: deixamos escapar entre os dedos
- mensagem de menina34: alegra-te rapaz
- mensagem de menina34: pára
- mensagem de menina34: e tenta descobrir o melhor para ti
- mensagem de menina34: e aprende a viver neste mundo paralelo
- mensagem de menina34: é só isso que te falta
- mensagem de menina34: viver neste mundo
- mensagem de menina34: saber sobreviver neste mundo paralelo
- mensagem de menina34: lol
- mensagem para menina34: lol
- mensagem para menina34: obrigado
- mensagem de menina34: ora essa
- mensagem de menina34: por quem sois
- mensagem de menina34: sempre disponível para o meu amigo
- mensagem para menina34: obrigado a sério
- mensagem de menina34: lol
- mensagem para menina34: lol
- mensagem de menina34: tens o meu número
- mensagem de menina34: se quiseres liga
- mensagem de menina34: beijo
- mensagem para menina34: beijo

Olhei as horas, desliguei o computador e enfiei-me na cama. A Isabel tinha razão tinha de saber viver neste mundo paralelo. Como se de duas vidas se tratasse. Como se dois eus existissem. E aprender a parar, a dizer não, a saber fazer escolhas. A saber o que era bom para mim e o que era menos bom ou mesmo mau para mim.
Senti fugir a ansiedade, desanuviar-se o nevoeiro e deitei-me bem comigo mesmo. Tudo ia mudar. Tinha de mudar.
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