sexta-feira, julho 07, 2006


nona parte

Meti um CD da Simone no computador e deixei tocar. No escuro do escritório, deixei as cores do écran inundarem a minha tristeza, perdi-me nas letras loucas e apaixonadas, na sensação que tudo estava a mudar. Louca e apaixonadamente, não me dava conta da mudança que a minha vida estava a tomar. Estranho, que eu detestava mudanças, sentia-me inebriado com a chegada de tal nevoeiro, de tal fantasia. Louca e apaixonada.
O voo em queda livre, com a cabeça a servir de leme deixava-me entusiasmado. Tudo na vida tem um sentido. Esta mudança também tem de ter. Há-de ter com toda a certeza.
O toque de mensagem no telemóvel parecia distante, distante demais. Mas despertou a curiosidade e corri para ler a mensagem.
”tenho um problem amanha não posso almoçar”
Recordei num ápice a conversa do dia anterior e o almoço combinado. Sem saber que dizer, agarrei no telemóvel e respondi:
”e que tal agora ? cha ou cafe ?”
O aparecer de mensagem enviada deixou-me nervoso, ansioso, mas afinal que se estava a passar ? Sem tempo para grandes devaneios e meio nervoso, abri o teclado para ler a resposta:
”ok onde nos encontramos ?”
Isso era o menos importante, claro que era o menos importante, depois da aceitação e de todo o nervoso miudinho em que me encontrava, nem pensei, e sugeri a minha casa ou a dela. Ideia parva, só podia. Como seria de esperar, sugeriu um local público e cheio de gente. Pois só podia, mas afinal de onde nos conhecíamos, de uma conversa rápida num chat.
Despertei para a incerteza do encontro. Para o medo do que poderia acontecer. Mas lá me vesti, sem pensar, enfiei umas calças de ganga azuis escuras e uma camisa azul da Sacoor. Não. Esta dá ar de betinho da linha. Um pólo da Gant. Boa. Não. Faz-me mais gordo. Eh pá. Estou a ficar gordo. Boa. Não. Merda, que vou vestir?
Depois de largos minutos decidi-me por t-shirt com a foto estampada da Ana e uma camisa azul clara. Arregacei as mangas e saí a correr.
Em dez minutos estava no Colombo a estacionar e a subir para a FNAC. Loucura tamanha esta. Um encontro com uma estranha, conhecida na noite anterior num chat. Só mesmo eu. Sim, dificilmente alguém faria isto. Bem, a menina34 também o estava a fazer. Deu-me vontade de fugir, com o aproximar ao Colombo e depois à FNAC o meu estômago dera a volta de tal maneira que tive de inverter o rumo e ir a correr à casa de banho.
Saí a pensar se deveria ir. Se tudo não passaria de uma loucura. Mas timidamente e de estômago às voltas lá fui.
Mecanicamente e quase que movido como um radar, dirigi a minha visão para o geral. Procurando uma beldade no meio da multidão. Uma mulher só, que despertasse a minha atenção. Na ansiedade da busca, passei pela secção do Top onde tínhamos combinado. Parei para voltar atrás e esbarrei em alguém que me seguia de perto. No meio das desculpas e meio atrapalhado, questionei a minha perseguidora.
- Menina34 ???
- Sim… és o nascido?
Perdido. Nervoso. Nem consegui dizer nada. Relia as mensagens que trocáramos e tentei num ápice encaixá-las na mulher que tinha à minha frente. Quase impossível. Num ápice senti ter feito asneira. Uma grande asneira.
Nervosos, trocámos algumas palavras de circunstância. Senti vontade de correr dali a sete pés. Mas, o convite do café e o apontar dela na direcção do mesmo, acalmou-me
Tantas vezes passara ali e nunca me sentara para tomar café. Ainda por cima com uma estranha. Uma completa estranha. Mais que isso. Eu sou doidoooooooo!
- Desiludido comigo? – perguntou-me.
Senti medo na pergunta. Era estranho, nem para ela tinha olhado como deve de ser, tinha sido um impacto negativo. Lá isso tinha. Mas tinha de não o deixar parecer.
- Não, nada. E tu estás comigo?

Sim senhor. Nervoso e um bom mentiroso. Era daqueles momentos em que o telefone podia tocar que dava imenso jeito. Levantar-me-ia, faria sinal de conversa urgente, afastar-me-ia um pouco e com ela distraída, fugia.
Ideia parva. Calma. Respira e age normalmente.
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