sexta-feira, julho 07, 2006

sexta parte

Acordei de manhã com uma velha sensação. Estou perdido, apetece-me voar, quero voar. Sair num ápice e estar longe daqui. Sem telefones. Impossível de localizar. O telefone mais uma vez interrompia o meu desejo de fugir.
Perdia-me na visão técnica de tudo o que rodeava. A vida continuava a ser uma sucessão de imagens. Carregada de números, de dúvidas, de sensações demasiado quantificáveis. Será que mais ninguém pensa como eu. Será falta de romantismo. Algo terá de ser. Esta visão distorcida deixa-me sem ar. Esta sucessão de momentos, de fotografias, de números, de sensações…
Tal filme a preto e branco, que num ápice se excita e se enche de cores. Será que mais ninguém pensa assim, será que mais ninguém se perde no meio de tudo.
- Simmmmmmmm…
- Estou… estás bom…
- Sim, quem fala…
- Sou eu a Cláudia, recordado?
No meio de tal turbilhão, perdi-me. As fotografias passavam, as sensações, os números… A vontade de ter a vida a preto e branco e encher-me de cores…
- Desculpe… mas não…
- Estivemos ontem os dois, com o Filipe… com a Isabel…
- Olá Cláudia, desculpa… Estava no meio de uma reunião…
Desculpa esfarrapada mas costumava resultar, os homens tinham sempre esta saída que ficava bem e que em geral impressionava.
- Começaste cedo, também acabei de chegar ao banco…
- Sim, começo sempre a esta hora… aliás antes até… já cheguei há imenso tempo… E tu como estás?
Estava com a sensação que me apanhara na mentira, numa pequena mentira mas apanhado… Recordava num segundo o dia anterior para disfarçar e a meter a pensar numa direcção completamente diferente, mas nada saía.
- Estou bem e tu…
- Também… a começar mais uma semana… Queres almoçar hoje?
- Era mesmo por isso que te ligava, o Filipe e a Isabel querem hoje companhia para jantar, mas estou com matérias em atraso e não me dá jeito, arranja uma desculpa para não ires, porque eles devem querer companhia, ou melhor a nossa companhia…
- Tudo bem, não te preocupes, eu arranjo uma desculpa…
- Obrigado. Beijinhos…
- De nada. Beijo.
Meti os pés fora da cama e nem acreditava. Tinha sido um fora escabroso. Convidara-a para almoçar e nada. Apenas o pedido para inventar uma desculpa, para não irmos jantar. Esta geração perde-se em tudo e sai-me a miss Direitinha… Só mesmo a mim.
Tomei o pequeno-almoço a voar, com o sorriso de sempre, algo diferente, mais alegre. Com a sensação que abrira a época da caça. Ou o início do campeonato de futebol. Não estava habituado a perder nem a levar foras, se bem que andasse arredado das lides tinha de voltar à carga…
Ao entrar no carro, soltei uma gargalhada. Recordava o telefonema. O pedido. E o sangue de homem a correr-me nas veias, como se brotasse num rio, tal afluente vermelho que iria causar cheia.
E perdi-me na ideia da caça, do campeonato e das lides, exactamente o que menos gostava no Filipe estava a encher-me, estava a despertar-me. Sensação boa esta. Doce e quente.
Deixei a minha condução calma e meti-me numa série de ultrapassagens, as fotografias corriam à minha frente. Os príncipes e princesas, o nevoeiro e a serra. Os filmes a preto e branco e vontade de colorir o mundo.
- Bom dia Judite…
- Bom dia engenheiro…
- Recados?
- Nada de urgente, duas chamadas do Porto e uma dos Açores, tem tudo anotado na secretária. Quer café?
- O Filipe chegou?
- Ainda não, quer que lhe ligue?
- Não deixe estar. O café só daqui a meia hora… Até já.
Perdi-me numa montanha de decisões, mas esperava ansiosamente o Filipe, e sem dar conta ansiava mais combinar o jantar, o desmarcado jantar que me apetecia com um doce na montra perante os olhos de uma criança.
De uma vontade louca de possuir o que me fugia entre os dedos. Aquele telefonema, a vontade de fugir ao jantar, estava a crescer invertidamente em mim. Sorria com este pensamento. A crescer invertidamente ? Mas que raio era isto, crescer invertidamente, estava era com uma vontade enorme de lhe mandar com o meu charme, de a fazer sentir que era interessantíssimo, e que ou me dava bola ou dava bola… nada mais era admitido, tinha de se apaixonar por mim, para aprender a não me dar foras…
Invertidamente, eu dava-lhe o invertidamente, nem imagina no que se meteu. As mulheres de facto são burras. Só querem fugir do que na realidade as pode fazer felizes. Arranjaria ela alguém mais interessante que eu.
- Olá maninho. Jantamos logo em minha casa, e nada de recusas…
- Tudo bem, Filipe queres que cozinhe?
- Não te preocupes, encomendo pizza…
- Às oito? Ou mais cedo?
- Oito pode ser…
Bela tentativa de recusa. Mas que se estava a passar comigo? Dava conta de uma loucura a aproximar-se e deixava-me ir.
Esquece. Que se lixe.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

bem...tens k editar livro com tuas memorias..lol deixei comentario longo em outro post..ve la se tens paciencia pa ler,pois com conversas tao interessantes k tens tido nos chats..nao sei nao lol

beijoka lunatica

segunda-feira, 10 julho, 2006  

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