oitava parte
No dia inteiro, não me lembrara da Ana, iria dedicar-lhe a noite, entrar nas conversas dela e nos jogos que tanto gostava de fazer. As sensações estranhas do dia, colocaram-na fora do meu horizonte e como sempre a D. Madalena salvara-me, levara-a à escola trouxera-a de volta, estariam as duas já ansiosas pela minha chegada.
Criar a Ana não tinha sido complicado, em todos estes anos, apenas as idas aos centros comerciais me tinham aborrecido. E parece que era metódico, mal chegávamos dava-lhe a vontade de ir à casa de banho. Como se fosse normal. Detestava a sensação de impotência de não poder entrar na casa de banho com ela, de pedir a uma mulher do mais estranho que se possa imaginar que fosse entrar e ma levasse.
Mas de facto era o único senão em vários anos. Todos os outros momentos me enchiam de tudo. Do amor que deixara de ter pela mãe, por uma relação que se fora perdendo e que saíra de tudo o que imaginava para mim.
Recordava um recorte de jornal, com uma anotação estranha:
A mulher faz sexo para ter mimos. O homem dá mimos para ter sexo.
De facto há homens e homens, mulheres e mulheres. O amor que julgava eterno foi-se desvanecendo, foi passando como uma nódoa que se julga impossível de tirar. Se julga é certo, mas as voltas da vida, tal máquina infernal tudo tira, tudo apaga. E foi apagando, hoje era quase complicado lembrar-me do rosto, dos momentos em que fazíamos amor. Quase impossível lembrar de algo, do que quer que fosse.
Mas a Ana compensava a angústia, a ausência de uma mulher. Compensava como quem diz… faltava muito, mesmo muito, mas conseguia sobreviver assim. E as ténues recordações do passado, afastavam e eliminavam a hipótese de me prender de novo a alguém.
- Olá princesa… o dia foi bom?
- Foi papá e o teu?
- Esse papá traz água no bico… algum pedido especial a fazer ao papai?
- Oh pai… papai é nas novelas.
- Achas? Não posso ser um papai brasileiro?
- Mas tu és português… não és brasileiro.
- E afinal o dia foi bom ou não???
- Foiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii… sabes a Rita já namora…
Fiquei inerte. Aquela frase veio tremer e abalar o resto do meu dia. Mas afinal quem é a Rita, de certeza uma amiga com vinte e poucos anos, só podia… ou seria uma coleguinha de escola…
- Olha lá. Quem é a Rita?
- Oh pai, a Rita é a menina que veio cá a casa nos meus anos, aquela loirinha.
- Mas essa Rita tem 10 anos…
- E depois…
E depois??? Foda-se!!! E depois não pode ser. Mas que lei é essa? Eu sou uma mente aberta, mas namorar só aos dezoito e depois de ver o gajo. E bem visto, muito bem visto. Bem, nem preciso de ver, o Filipe dá-lhe uma corrida que não vai esquecer e se o não fizer dou eu. Mas querem lá ver. A fedelha já tem ideias.
De facto, estas modernices deviam acabar. Começar a namorar aos dez anos. Estou a tentar ser moderno, mas assim é impossível, complicado, muito impossível e muito complicado. Não, não pode ser. Eu comecei aos dezasseis e o primeiro beijo foi aos dezassete. Por isso há que preservar a hereditariedade. E mais nada. Mas querem lá ver.
- Pai…
- Mas olha lá… tu já namoras?
- Oh pai, lá estás tu…
- Responde Ana.
- E se namorar…???
- Se namorares, acho que devia saber, aliás sempre combinamos isso, não foi?
Sem saber como, reagi por instinto, e tentei ser o colega de escola que partilha um segredo, um grande segredo, entrar no mundo dela, e não ser mais o pai ou rei distante que tantas vezes odiava ver nos filmes. O feitio de monstro das bolachas apoderara-se por momentos de mim, mas de facto a ideia de um genro com uma filha de dez anos quase me sufocava.
O abanar negativo da cabeça da D. Madalena confirmava a ausência de namorado e libertava o meu peito. Num abrir e fechar de olhos, tudo ficara estranho, no meio de um denso nevoeiro, no meio de medos que desconhecia. Mas que eram complicados de gerir. Muito complicados de gerir. De um dia para o outro, tudo mudara. Provavelmente estou a ficar velho. Deixei de achar piada a muitas coisas.
O toque do telefone aterrou vindo do nada, mas quem seria a estas horas. Silenciei sem ver quem me ligava e parei, esperando que o de casa não tocasse. Mas tocou.
- Estou sim, boa noite.
- Olá, sou a Cláudia, então não vieste?
- Não fui? Mas pediste para recusar. E recusei, é simples.
- Mas eles disseram que vinhas e vim. Estás ocupado.
- Estou…
- Muito
Do outro lado senti a menina nervosa, num estado de ansiedade descontrolado. Mas afinal que se estava a passar. Ligara com o cantar do galo a implorar para eu recusar o convite e agora estava ainda a questionar-me. Isto só a mim, só mesmo a mim.
- Tenho saudades tuas…
- Sau? Saudades? De quem? De mim?
- Vem até cá…
Algo se passava, a voz doce do outro lado estava a mexer comigo. De um estado de repulsa e pedido para não ir ao jantar, tinha passado para um estado de ansiedade e angústia. Como se não pudesse respirar sem mim. Sentia-o no ar. Sentia e perdia-me na imagem do filme a preto e branco…
- Desculpa Cláudia, tenho coisas para rever, fica para outro dia. Beijo.
- Beijo. És tonto.
Tonto??? Só me saem cromos. Dei um beijo na Ana e refugiei-me no escritório. Sentia-me em queda livre, no meu amado túnel que mais uma vez me levava para não sei onde.
No dia inteiro, não me lembrara da Ana, iria dedicar-lhe a noite, entrar nas conversas dela e nos jogos que tanto gostava de fazer. As sensações estranhas do dia, colocaram-na fora do meu horizonte e como sempre a D. Madalena salvara-me, levara-a à escola trouxera-a de volta, estariam as duas já ansiosas pela minha chegada.
Criar a Ana não tinha sido complicado, em todos estes anos, apenas as idas aos centros comerciais me tinham aborrecido. E parece que era metódico, mal chegávamos dava-lhe a vontade de ir à casa de banho. Como se fosse normal. Detestava a sensação de impotência de não poder entrar na casa de banho com ela, de pedir a uma mulher do mais estranho que se possa imaginar que fosse entrar e ma levasse.
Mas de facto era o único senão em vários anos. Todos os outros momentos me enchiam de tudo. Do amor que deixara de ter pela mãe, por uma relação que se fora perdendo e que saíra de tudo o que imaginava para mim.
Recordava um recorte de jornal, com uma anotação estranha:
A mulher faz sexo para ter mimos. O homem dá mimos para ter sexo.
De facto há homens e homens, mulheres e mulheres. O amor que julgava eterno foi-se desvanecendo, foi passando como uma nódoa que se julga impossível de tirar. Se julga é certo, mas as voltas da vida, tal máquina infernal tudo tira, tudo apaga. E foi apagando, hoje era quase complicado lembrar-me do rosto, dos momentos em que fazíamos amor. Quase impossível lembrar de algo, do que quer que fosse.
Mas a Ana compensava a angústia, a ausência de uma mulher. Compensava como quem diz… faltava muito, mesmo muito, mas conseguia sobreviver assim. E as ténues recordações do passado, afastavam e eliminavam a hipótese de me prender de novo a alguém.
- Olá princesa… o dia foi bom?
- Foi papá e o teu?
- Esse papá traz água no bico… algum pedido especial a fazer ao papai?
- Oh pai… papai é nas novelas.
- Achas? Não posso ser um papai brasileiro?
- Mas tu és português… não és brasileiro.
- E afinal o dia foi bom ou não???
- Foiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii… sabes a Rita já namora…
Fiquei inerte. Aquela frase veio tremer e abalar o resto do meu dia. Mas afinal quem é a Rita, de certeza uma amiga com vinte e poucos anos, só podia… ou seria uma coleguinha de escola…
- Olha lá. Quem é a Rita?
- Oh pai, a Rita é a menina que veio cá a casa nos meus anos, aquela loirinha.
- Mas essa Rita tem 10 anos…
- E depois…
E depois??? Foda-se!!! E depois não pode ser. Mas que lei é essa? Eu sou uma mente aberta, mas namorar só aos dezoito e depois de ver o gajo. E bem visto, muito bem visto. Bem, nem preciso de ver, o Filipe dá-lhe uma corrida que não vai esquecer e se o não fizer dou eu. Mas querem lá ver. A fedelha já tem ideias.
De facto, estas modernices deviam acabar. Começar a namorar aos dez anos. Estou a tentar ser moderno, mas assim é impossível, complicado, muito impossível e muito complicado. Não, não pode ser. Eu comecei aos dezasseis e o primeiro beijo foi aos dezassete. Por isso há que preservar a hereditariedade. E mais nada. Mas querem lá ver.
- Pai…
- Mas olha lá… tu já namoras?
- Oh pai, lá estás tu…
- Responde Ana.
- E se namorar…???
- Se namorares, acho que devia saber, aliás sempre combinamos isso, não foi?
Sem saber como, reagi por instinto, e tentei ser o colega de escola que partilha um segredo, um grande segredo, entrar no mundo dela, e não ser mais o pai ou rei distante que tantas vezes odiava ver nos filmes. O feitio de monstro das bolachas apoderara-se por momentos de mim, mas de facto a ideia de um genro com uma filha de dez anos quase me sufocava.
O abanar negativo da cabeça da D. Madalena confirmava a ausência de namorado e libertava o meu peito. Num abrir e fechar de olhos, tudo ficara estranho, no meio de um denso nevoeiro, no meio de medos que desconhecia. Mas que eram complicados de gerir. Muito complicados de gerir. De um dia para o outro, tudo mudara. Provavelmente estou a ficar velho. Deixei de achar piada a muitas coisas.
O toque do telefone aterrou vindo do nada, mas quem seria a estas horas. Silenciei sem ver quem me ligava e parei, esperando que o de casa não tocasse. Mas tocou.
- Estou sim, boa noite.
- Olá, sou a Cláudia, então não vieste?
- Não fui? Mas pediste para recusar. E recusei, é simples.
- Mas eles disseram que vinhas e vim. Estás ocupado.
- Estou…
- Muito
Do outro lado senti a menina nervosa, num estado de ansiedade descontrolado. Mas afinal que se estava a passar. Ligara com o cantar do galo a implorar para eu recusar o convite e agora estava ainda a questionar-me. Isto só a mim, só mesmo a mim.
- Tenho saudades tuas…
- Sau? Saudades? De quem? De mim?
- Vem até cá…
Algo se passava, a voz doce do outro lado estava a mexer comigo. De um estado de repulsa e pedido para não ir ao jantar, tinha passado para um estado de ansiedade e angústia. Como se não pudesse respirar sem mim. Sentia-o no ar. Sentia e perdia-me na imagem do filme a preto e branco…
- Desculpa Cláudia, tenho coisas para rever, fica para outro dia. Beijo.
- Beijo. És tonto.
Tonto??? Só me saem cromos. Dei um beijo na Ana e refugiei-me no escritório. Sentia-me em queda livre, no meu amado túnel que mais uma vez me levava para não sei onde.

2 Comments:
Estou a adorar. Parabéns, adorei a forma como escreves. Estou ansiosa para que continues e me des a possibilidade de saber mais. À medida que te vou lendo, so penso, quero mais... Mais... Mais... Tal como quem se delicia com algo que nunca esquece,por mais que o tempo passe, nunca esquece, e só deseja mais... mais...
adorei
um abraço
Eu tambem espero que continues...
beijinhos
Ana
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