sexta-feira, julho 07, 2006


quinta parte

Chegado a casa tinha um papel branco com letras redondinhas: Menino, fomos ao Colombo comer um hambúrguer, não se preocupe.
Sem almoço, sozinho e abandonado. O almoço resolvia-se num minuto. O sozinho e abandonado era fantástico. Um pedaço de dia para mim, uma tarde de domingo em casa e vontade de a aproveitar muito bem.
Nuns segundos abri uma destas novas modernices do pão sem côdea, meti-lhe fiambre, queijo, uma rodela de tomate, mostarda, e já tinha almoço. Abri a janela e deixei entrar o sol. Via o topo da serra de Sintra, com o mesmo encanto de sempre, o que me fascinara e trouxera para mais perto dela.
Não tinham sido mouros e mouras, príncipes e princesas, mas sim o nevoeiro, o denso e estranho nevoeiro que me trouxera, adorava chegar tarde e sentir o cinzento, um frio quente e sensual que me acompanhava nos últimos metros até casa, vindo do nada, do outro lado da serra.
Todos vinham à Periquita e partiam carregados de travesseiros, como se o mundo fosse acabar, devia ser do nevoeiro, sorri com este pensamento, mas algo seria, algo tinha de ser. Entristecia-me não saber respostas para tudo, e a visão da serra projectava-me num túnel, como se me unisse ao cume, na visão modernista de correr o universo num segundo, com as estrelas a passarem por mim. Esta ideia dava comigo em louco, como teria sido o princípio de tudo, como teria sido a criação de tudo, mas afinal o que era este tudo, este universo, não teríamos fronteiras, barreiras, limites…
Num ápice tudo passava em frente de mim, mas porque tem de ser tudo tão complicado. Levantei-me e fechei a janela, estava melancólico e não percebia o que sentir. Esta sensação de solidão não estava a ser boa. Apanhei as migalhas e fui depositá-las num pratinho que a D. Madalena tinha na janela, velho truque para a Ana comer em silêncio a contemplar os pássaros.
Esperei mas nada. Nunca tinha sorte com os pardalitos. Sorri e lá fui sentar-me no escritório. A pouca vontade de trabalhar deixou-me a olhar para o écran e lá entrei de novo no chat.
Que mais me iria acontecer. Sorri e deixei-me ir. Que se lixe.
Lá fui incógnito para o meio da confusão. Duzentos e trinta e um utilizadores. Mas mais ninguém tem nada para fazer num domingo de tarde.
Um alarme sonoro já conhecido despertou-me para o mundo.

- mensagem de menina34: oi
- mensagem para menina34: olá
- mensagem de menina34: ddtc
- mensagem para menina34: não te zangas se disser que não sei o que é isso
- mensagem de menina34: lol
- mensagem de menina34: és novo por aqui ?
- mensagem para menina34: sim sou
- mensagem de menina34: perguntava de onde teclas ?
- mensagem para menina34: estou em casa e tu
- mensagem de menina34: e lol significa que sorri
- mensagem de menina34: lol
- mensagem de menina34: também estou em casa
- mensagem de menina34: e a casa é onde ?
- mensagem para menina34: em Sintra e a tua onde fica ?
- mensagem de menina34: lx
- mensagem para menina34: Lisboa ?
- mensagem de menina34: lol
- mensagem de menina34: sim
- mensagem de menina34: que fazes na vida
- mensagem para menina34: empresário e tu ?
- mensagem de menina34: professora
- mensagem de menina34: idd
- mensagem para menina34: idd ?
- mensagem de menina34: desculpa que idade tens ?
- mensagem para menina34: 34 e tu ?
- mensagem de menina34: tb
- mensagem de menina34: também
- mensagem de menina34: lol
- mensagem para menina34: lol

Sem me dar conta, tinha acabado o meu curso de iniciação e trocado um nevoeiro cinzento por um interessante écran azul, a janela do quarto, por uma imensidão de janelas e todos os meus mouros, mouras, príncipes e princesas por multidão de amigos perdidos.
Perdi-me no tempo, na mais pura das seduções ou dos engates, apenas na incerteza de quem engatou quem. Mas tinha almoço marcado para a terça-feira seguinte. Parecia o Filipe, sedento de mais um corpo de mais uma mulher e estranhei-me. Dei comigo a imaginar esta mulher, divorciada, sem filhos, a viver sozinha em Lisboa, e tão doce, meiga sensual, atraente, inteligente… ALTO !!! PÁRA!!! PENSA!!! Mas nem a vi, aceitei tudo como sendo a mais pura das verdades, como se a conhecesse há anos, que estúpido sou, inocente, só mesmo eu. Nem sei quem é, como será. E se mentiu. Claro que mentiu. Não existe ninguém assim tão perfeita. Claro, divorciada… algum defeito terá, ou melhor, deve ter imensos. Sou mesmo burro, iria ao almoço e ninguém apareceria. Só mesmo eu. Burro, burro e mais burro. lol.
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