segunda parte
Acordei sem saber como tinha chegado à cama, ouvia os pássaros lá fora, os cães de quando em vez, ouvira a Dona Madalena chamar a Ana para o pequeno-almoço e recomendar o silêncio para eu descansar um pouco mais... sempre era sábado de manha.
Mas não me apeteceu, sentia ter algo importante a fazer e desci as escadas num ápice, engoli duas torradas, meio copo de leite e uns cereais misturados com iogurte, enquanto a Ana me contava as grandes aventuras que perdera na noite anterior e a Dona Madalena me informava das compras que fizera.
A D. Madalena, a mais fiel de todas as empregadas que tinha, sempre fora dona de casa, e com a morte do marido, ficara sem saber o que fazer, perdida, sem filhos, sem nunca ter trabalhado... em suma, a minha salvação. Mais eficaz que a melhor das esposas, mais amorosa que todas as mães, fazia-me sentir bem, adorava sentir que fazia tudo para que eu não tivesse preocupações, e não fossem estes relatórios exaustivos de prestações de contas, tudo seria perfeito.
Dei um beijo na Ana, e parei... tinha algo importante para fazer e não sabia bem o quê... seria com certeza algo do escritório. Fui ao jardim dar de comer aos cães e resolvi ir para o escritório.
O meu escritório de casa tem uma regra: NINGUÉM ENTRA. As limpezas só são feitas na minha presença. Uma paranóia como outra qualquer, mas sempre serviu para estar descansado e fora do mundo. Um canto decorado à minha maneira, com uma ampla secretária, dois sofás duplos com uma mesa de centro, três nus de um tal Faria que comprara numa loja em Massamá e muitos pequenos objectos que comprara nas imensas viagens que fazia.
Tinha esquecido completamente a compra do dia anterior e todas as magnificas ofertas que me haviam impingido. Mas, com uma empregada daquelas valera a pena. Que chato não a ter aqui para me ajudar a montar isto. Aliás, como vou eu montar isto. Recordei a aquela boca linda a dizer: Não se preocupe, basta liga cor com cor, vai ver que é fácil... Boa, mas que raio era isso da cor com cor. Abri a caixa maior, de onde tirei o monitor e ao abrir todas as outras fui enfiando com o lixo na primeira que abri. Nem todos os homens são desarrumados e fazem duma abertura de caixas uma lixeira. Fui rindo com este pensamento e depois de tudo aberto fiquei sem saber o que fazer. Mas que raio era isso da cor com cor. Bem, tentemos a melhor técnica, se entrar sem esforçar deve estar bem.
Como por magia tudo tinha encaixado, e para grande alegria, nenhuma peça sobrara. Afinal o Bill dos portões percebia disto e merecia todos os milhões que tinha. Faltava o momento final: Ligar e rezar para que não explodisse...
O telefone interrompeu este empolgante momento...
- Estou, Engenheiro...
- Sim diga. Bom dia...
- Bom dia, ligaram dos Açores e precisam da sua autorização para uns orçamentos...
- Eles que enviem por fax, que eu segunda olho e depois ligo...
- Já cá estão.
- Tudo bem Judite, mas antes de segunda-feira, não verei isso, eles que esperem...
- O seu sócio está desesperado e pede para o Engenheiro passar por cá... – gaguejou a Judite do outro lado.
- Ok, ok... dê-me meia hora... até já...
A Judite era a mais eficaz de todas as secretárias da empresa, de uma devoção extrema e a mulher que lá dentro me aparava todos os golpes, inclusive ficava com as culpas para que eu não fosse aborrecido. Já não se fazem mulheres assim.
Acabei por esquecer a instalação que fizera, esquecer de almoçar e sair tarde da empresa. Como sempre o Filipe, o meu sócio mais novo, tudo fizera para me ter até ao fim, ao ponto de mais uma vez irmos jantar ás Docas, mas que fascínio este, por um local que mais não é que um conjunto de armazéns velhos, junto ao Tejo. Não me importava de lá ir almoçar, mas jantar, tinha que ser obrigado. Ficava a doer-me a alma de imaginar que daqui a uns anos a Ana, a minha Ana, seria uma daquelas miúdas irritantes que por ali andavam.
- Tu já me viste aquela gaja? –questionou-me fascinado o Filipe.
- Sim reparei...
Mentira, nem tinha reparado. Mas de relance lá olhei e disse-lhe:
- Tás parvo... nem tem quinze anos...
- Fosses tu assim e não me escapavas. –respondeu com um ar aparvalhado.
- Tens cada coisa. Que merda de ideias são essas, tens trinta e dois anos, era altura de teres juízo, a miúda nem quinze anos tem...
- Queres uma aposta?
Já lhe conhecia aquele ar. Ia fazer merda. Arranjar mais uma miúda para uma noite, talvez o fim-de-semana. Mas que se lixe, desde que segunda-feira chegue cheio de energia.
O Filipe tinha sido meu colega de curso. Conhecera-lhe mais de cem namoradas, mas era o meu ídolo, bom aluno, trabalhador, assíduo. Ao meu contrário, dedicava-se a todas as causas de alma e coração, faltava-lhe apenas a capacidade de decidir e conseguir seguir para a frente. Mas complementávamo-nos. Conseguíamos trabalhar em equipa, eu o génio das ideias, ele o génio do trabalho. Era e sempre será o meu melhor amigo.
- Bem vai lá à caça, que eu vou para casa, já é tarde.
- És parvo!!! Não vês que ela tem uma amiga.
Este gajo repara em tudo. Já estou lixado.
- Vá fica vou precisar de ti. Quem fica com a amiga.
- Eh pá desenrasca-te, hoje devia ter ficado em casa e fui ajudar-te... por isso amanha-te com as duas.
- És mesmo sonsinho. Vá vai-te embora. Vá deixa-me desamparado e triste.
Nem pensei duas vezes. Disse-lhe para pagar e fugi a sete pés. Raramente me deixava fugir, e esta tinha sido uma dessas excepções. Mexi-lhe no cabelo, segredei-lhe para ter cuidado e fiz as Docas em passo apressado até ao estacionamento.
Acordei sem saber como tinha chegado à cama, ouvia os pássaros lá fora, os cães de quando em vez, ouvira a Dona Madalena chamar a Ana para o pequeno-almoço e recomendar o silêncio para eu descansar um pouco mais... sempre era sábado de manha.
Mas não me apeteceu, sentia ter algo importante a fazer e desci as escadas num ápice, engoli duas torradas, meio copo de leite e uns cereais misturados com iogurte, enquanto a Ana me contava as grandes aventuras que perdera na noite anterior e a Dona Madalena me informava das compras que fizera.
A D. Madalena, a mais fiel de todas as empregadas que tinha, sempre fora dona de casa, e com a morte do marido, ficara sem saber o que fazer, perdida, sem filhos, sem nunca ter trabalhado... em suma, a minha salvação. Mais eficaz que a melhor das esposas, mais amorosa que todas as mães, fazia-me sentir bem, adorava sentir que fazia tudo para que eu não tivesse preocupações, e não fossem estes relatórios exaustivos de prestações de contas, tudo seria perfeito.
Dei um beijo na Ana, e parei... tinha algo importante para fazer e não sabia bem o quê... seria com certeza algo do escritório. Fui ao jardim dar de comer aos cães e resolvi ir para o escritório.
O meu escritório de casa tem uma regra: NINGUÉM ENTRA. As limpezas só são feitas na minha presença. Uma paranóia como outra qualquer, mas sempre serviu para estar descansado e fora do mundo. Um canto decorado à minha maneira, com uma ampla secretária, dois sofás duplos com uma mesa de centro, três nus de um tal Faria que comprara numa loja em Massamá e muitos pequenos objectos que comprara nas imensas viagens que fazia.
Tinha esquecido completamente a compra do dia anterior e todas as magnificas ofertas que me haviam impingido. Mas, com uma empregada daquelas valera a pena. Que chato não a ter aqui para me ajudar a montar isto. Aliás, como vou eu montar isto. Recordei a aquela boca linda a dizer: Não se preocupe, basta liga cor com cor, vai ver que é fácil... Boa, mas que raio era isso da cor com cor. Abri a caixa maior, de onde tirei o monitor e ao abrir todas as outras fui enfiando com o lixo na primeira que abri. Nem todos os homens são desarrumados e fazem duma abertura de caixas uma lixeira. Fui rindo com este pensamento e depois de tudo aberto fiquei sem saber o que fazer. Mas que raio era isso da cor com cor. Bem, tentemos a melhor técnica, se entrar sem esforçar deve estar bem.
Como por magia tudo tinha encaixado, e para grande alegria, nenhuma peça sobrara. Afinal o Bill dos portões percebia disto e merecia todos os milhões que tinha. Faltava o momento final: Ligar e rezar para que não explodisse...
O telefone interrompeu este empolgante momento...
- Estou, Engenheiro...
- Sim diga. Bom dia...
- Bom dia, ligaram dos Açores e precisam da sua autorização para uns orçamentos...
- Eles que enviem por fax, que eu segunda olho e depois ligo...
- Já cá estão.
- Tudo bem Judite, mas antes de segunda-feira, não verei isso, eles que esperem...
- O seu sócio está desesperado e pede para o Engenheiro passar por cá... – gaguejou a Judite do outro lado.
- Ok, ok... dê-me meia hora... até já...
A Judite era a mais eficaz de todas as secretárias da empresa, de uma devoção extrema e a mulher que lá dentro me aparava todos os golpes, inclusive ficava com as culpas para que eu não fosse aborrecido. Já não se fazem mulheres assim.
Acabei por esquecer a instalação que fizera, esquecer de almoçar e sair tarde da empresa. Como sempre o Filipe, o meu sócio mais novo, tudo fizera para me ter até ao fim, ao ponto de mais uma vez irmos jantar ás Docas, mas que fascínio este, por um local que mais não é que um conjunto de armazéns velhos, junto ao Tejo. Não me importava de lá ir almoçar, mas jantar, tinha que ser obrigado. Ficava a doer-me a alma de imaginar que daqui a uns anos a Ana, a minha Ana, seria uma daquelas miúdas irritantes que por ali andavam.
- Tu já me viste aquela gaja? –questionou-me fascinado o Filipe.
- Sim reparei...
Mentira, nem tinha reparado. Mas de relance lá olhei e disse-lhe:
- Tás parvo... nem tem quinze anos...
- Fosses tu assim e não me escapavas. –respondeu com um ar aparvalhado.
- Tens cada coisa. Que merda de ideias são essas, tens trinta e dois anos, era altura de teres juízo, a miúda nem quinze anos tem...
- Queres uma aposta?
Já lhe conhecia aquele ar. Ia fazer merda. Arranjar mais uma miúda para uma noite, talvez o fim-de-semana. Mas que se lixe, desde que segunda-feira chegue cheio de energia.
O Filipe tinha sido meu colega de curso. Conhecera-lhe mais de cem namoradas, mas era o meu ídolo, bom aluno, trabalhador, assíduo. Ao meu contrário, dedicava-se a todas as causas de alma e coração, faltava-lhe apenas a capacidade de decidir e conseguir seguir para a frente. Mas complementávamo-nos. Conseguíamos trabalhar em equipa, eu o génio das ideias, ele o génio do trabalho. Era e sempre será o meu melhor amigo.
- Bem vai lá à caça, que eu vou para casa, já é tarde.
- És parvo!!! Não vês que ela tem uma amiga.
Este gajo repara em tudo. Já estou lixado.
- Vá fica vou precisar de ti. Quem fica com a amiga.
- Eh pá desenrasca-te, hoje devia ter ficado em casa e fui ajudar-te... por isso amanha-te com as duas.
- És mesmo sonsinho. Vá vai-te embora. Vá deixa-me desamparado e triste.
Nem pensei duas vezes. Disse-lhe para pagar e fugi a sete pés. Raramente me deixava fugir, e esta tinha sido uma dessas excepções. Mexi-lhe no cabelo, segredei-lhe para ter cuidado e fiz as Docas em passo apressado até ao estacionamento.

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