décima quinta parte
A ideia de os imaginar aos três na cama quase me enjoava. Tentei recordar o rosto da Cláudia mas nem isso conseguia. Seria difícil nos próximos tempos esquecer a Rute. Tinha sido bom, tinha mexido comigo, como poucas conseguiam fazer.
Essa ideia animou-me para me vingar do trio da vida airada. Vingar não seria o termo, digamos que recebê-los para que se sentissem mal. Boa, vou fazer um jantar de gala. Daqueles que se tem uma vez na vida. A ideia de as ver de frente para um monte de talheres, sem saber os que usar fez-me rir. Sim, era mesmo isso.
Com um pouco de velocidade a mais, num instante estava em casa. A desenfiar os sapatos e a enfiar os chinelos, abri a porta do frigorífico. Que iria fazer. Tirei quatro tomates, uma alface, camarões para cozer, natas, duas embalagens de tamboril congelado aos cubinhos e quatro medalhões de carne de vaca.
Estava decidido. De entrada camarões cozidos com molho cocktail, devidamente arranjados, num tomate sem polpa, e com a alface cortada fininha. De peixe, uns cubinho de tamboril em molho de tomate, salteados com amêndoa e nozes. E de carne, uns medalhões temperados com pimenta.
Desci à cave e trouxe para a cozinha duas garrafas de champanhe Moet & Chandon. Deixei mais duas no frigorífico da cave, não fosse o diabo tece-las. Subi e num ápice resolvi o problema em falta. Uma rápida mensagem para o Filipe a dizer:
”traz sobremesa”
Liguei as luzes do jardim e as da piscina e num instante deixei de pensar no que quer que fosse. Adorava cozinhar. E estando só na cozinha era tudo perfeito. O Filipe devolveu-me a mensagem.
”queres ainda mais do que estas duas princesas ???”
Fogo. Este gajo consegue ser parvo. Claro que quero. Depois da noite que tive ia estar com uma gaja que ele comeu. Só mesmo dele. Irritado lá respondi:
”deixa-te de merdas, achas que como os teus restos ???”
Tirei o miolo aos tomates e a ideia de não cortar o fundo dos deles para não terem aderência no prato agradava-me. Mas que se lixe, ainda sujavam o chão. E era que eu teria de limpar. Um novo toque de mensagem interrompeu as minhas ideias maquiavélicas:
”és mesmo parvo, acreditaste que comi as duas, tás a ficar velho mano, levo gelado, estamos aí dentro de meia hora”
Por instantes, deixei perder o olhar na serra, fitei as luzes do jardim e as da piscina e senti-me burro. Afinal não passara de uma brincadeira daquele gajo. E eu acreditei, pior que isso tinha sido frio e distante com a Cláudia, sem ela o merecer.
Do pouco que conheci dela devia ter percebido que era completamente diferente da Isabel. Mais responsável, mais adulta e a saber muito bem o que queria da vida. Sou mesmo parvo. Da ideia de ter um jantar idiota, passei à ideia de lhe dar um jantar de sonho. A água a ferver dos camarões apressou todas as ideias.
Entre uns pratos e outros fui colocar a mesa. Não abdiquei dos talheres todos, mas com um toque meigo dispus a mesa. Em redor de duas velas, coloquei pinhões, nozes e avelãs, fui buscar uns guardanapos de pano, que geometricamente coloquei ao centro dos pratos.
Liguei ao Filipe e como ainda tardavam dez minutos, abri duas latas de atum, escorri-as muito bem e misturei maionese. Um delicioso patê para entrada. Recordava a frase da minha ex-mulher: nem para cozinhar te ajeitas homem.
E fui sorrindo. Não era uma questão de me ajeitar. Era estar a desperdiçar qualidades, com alguém que não merecia. Por vezes as mulheres pensam que a maioria dos homens não sabem cozinhar, se é verdade para muitos, para outros é evitar repetir uma tarefa diária sem sentido. Sim, eu sei, podíamos repetir sexo e jogos de futebol vezes sem conta, numa tarde e até numa noite. Mas cozinhar, para nós tem de ter uma motivação. Para mim tem de ter. Não me ajeito a fazer uns ovos ou uns bifes com batatas fritas. Mas adoro fazer o que fiz hoje. E fazia-o mais vezes, ao fim do dia, é mais que um prazer, era um relaxar, que não conseguira na piscina ou no ténis. Era mandar fora o stress e produzir algo que em minutos via resultados.
O mais engraçado, era conseguir reproduzir receitas elaboradas, sem nunca as ter feito antes, e muitas vezes sem ter lido nalgum lugar. O apitar no portão da frente, despertou-me para as visitas. Assobiei aos cães para os fechar e abri o portão da rua e o da garagem. O Filipe era da casa, conhecia os cantos todos, em segundos, estaria no rés-do-chão.
Recordei as últimas conversas com a Cláudia, em especial a ultima e a forma como tinha reagido, fria e bruscamente. Respirei fundo e prometi a mim mesmo ser um cavalheiro. Afinal a miúda pagara uma factura que o Filipe provocara sem ter culpa nenhuma. Bem, não sabia bem de onde tinha vindo aquela das saudades. Mas tudo bem. Iria ser um bom menino.
- Grande maninho, conta lá o que cozinhaste. – exclamou o Filipe no mesmo espalhafato de sempre.
- O costume maninho, iscas e batata cozida. – retorqui-lhe eu. – Olá Isabel. Olá Cláudia.
- Olá Miguel. – respondeu-me a Cláudia, num misto de corada com envergonhada.
- Olá Miguel, onde podemos colocar os casacos ? – questionou-me a Isabel, como se fosse mulher do Filipe.
- No hall de entrada, desculpa terem entrado pela garagem, mas depois dessa porta tens um cabide.
- Leva o meu. – pediu-lhe a Cláudia. – Queres o gelado onde Miguel ?
- Traz para a cozinha, mas antes deixa mostrar a sala e a mesa de jantar.
Num misto de espanto, deixei-a contemplar a mesa e os toques aqui e ali de propositadamente tinha feito. Senti-a insegura pela complexidade da mesa, e facilmente percebi que a imensidão de talheres a confundia. Mas nada disse.
- O Filipe disse que não passavas sem gelado de limão, gosto estranho. – perguntou num misto de dúvida e incerteza, não querendo dar parte de fraca.
- Não é nada de especial, habituei-me a intervalar o prato de peixe e carne com uma bola de gelado de limão. Uma mariquice como outra qualquer. Nada de especial. – comentei sorrindo.
- Por mim tudo bem, mas olha que lá em casa, só fazemos um prato e só tens dois talheres.
Sem saber se havia de comentar, inverti o sentido, e lá respondi sem a fazer sentir mal. Sentia-me culpado e não a queria fazer sentir mal.
- É apenas uma mariquice. Como a de comer de vez em quando com mais talheres que o normal. Mas se não souberes como fazer faz como eu: Começa com os talheres de fora e vais continuando sempre com os de fora.
- Ainda bem que dizes, também me costumo perder. – disse corando. – Para dizer a verdade nunca vi tantos talheres juntos.
- Não te preocupes, é simples.
Era aquela frontalidade que me tinha agradado nela, não se imiscuía de dizer o que pensava. Nem sabia como tinha acreditado na história do Filipe. Enfim, os homens tem destas coisas e destes devaneios e vindo do Filipe era bem possível.
- Vamos para a mesa ? - perguntei eu com a bandeja dos tomates decorada a preceito.
- Sim vamos. - responderam o Filipe e a Isabel, já sentados e a trocarem mimos num dos sofás da sala.
- Que preferes beber Filipe.
- O que quiseres maninho. Estou contigo.
- Uma do champanhe francês ?
- Sim, boa ideia.
- Eu bebo só um gole, fico logo toda corada e com calores. – disse a Cláudia sorrindo.
- Para afogares as saudades bebe dois. - disse-lhe eu ao passar por ela para me sentar.
- És tonto. – retorquiu ela num tom de voz que me alegrou, e que me era familiar.
Entre todas as baboseiras do Filipe, lá fiquei a saber as aventuras do último jantar. A confusão na encomenda das pizzas que os obrigou a comer três iguais. E o facto de a Cláudia ter contado aos dois que tinha saudades minhas. E a obrigatoriedade de depois ter de me ligar.
Entre aventuras e baboseiras do Filipe, terminámos de jantar e era quase uma da manha. A Cláudia ajudou-me a levantar a mesa, e entre pratos e copos, pediu desculpa pelo telefonema idiota que fizera.
- Acabei por entrar no jogo deles, e estava um pouco bebida. – disse mais uma vez corada. – Estou desculpada ?
- Claro que estás. Afinal não havia razão para estares com saudades pois não?
- Haver havia ? Mas não interessa.
- Se havia, podes dizer. Somos dois adultos.
Senti-a tremer, e sabia que a minha última frase a ia fazer responder. Estava, mais atiradiço, mais provocador. Não era assim, mas sentia-me mudado. Fizera-me bem estar com a Rute.
- És agradável. Foste muito agradável nos momentos que estivemos juntos. E muito diferente dos colegas de faculdade ou dos colegas do banco com que me dou. Não és um homem muito bonito, mas não és nada de deitar fora. Aliás deixa-me dizer-te que era com um homem como tu que gostava de passar o resto dos meus dias.
- Nem sei que dizer. – disse eu meio perdido. – Mas continua.
- Era isso. Quando te disse que tive saudades tuas, não menti, nem me fiz de fácil. Quando quero uma coisa luto por ela. E quero lutar por ti.
- Tens consciência que não nos conhecemos. Que se não me falha a memória estivemos duas vezes juntos?
- Sim eu sei. Achas-me nova demais. E completamente desenquadrada de ti.
- Não disse nada disso. Acho-te inteligente, bonita, sensual. Mas também e acho nova demais para mim. Não te vou negar esse facto.
- Que queres fazer depois da minha confidência ?
- Para já, que pares de tremer. Já disseste tudo. Da minha parte nem sei que te dizer. Sabes que tenho uma filha. Que ao ficares comigo ou a teres algo comigo que isso me transforma num caso atípico. Num iríamos casar pela igreja por exemplo.
- Sim eu sei. – respondeu-me meio triste. – Apenas te disse o que sentia.
- Tudo bem. Vem cá, deixa-me abraçar-te.
Encostou-se a mim e envolvia-a nos meus braços. Sentia-a anichar-se como a Ana fazia e respirei fundo. Estes últimos dias, estas últimas horas tinham sido mesmo uma aventura.
Ao fundo a serra estava já meio escondida no meio do meu amigo. E eu na minha cozinha com uma miúda dez anos mais nova que eu. Isto está giro.
- Miguel como tens quartos para todos podíamos cá dormir ? – gritou o Filipe da sala. – Que achas ?
- Por mim tudo bem. – respondi-lhe eu da cozinha e abraçando a Cláudia para não me fugir dos braços. – Que achas Cláudia, dormem cá todos ?
- Dormes comigo ? – disse ela a medo e corando mais uma vez.
- Muito coras tu rapariga. E tu queres dormir comigo ? Olha que estou velho e cansado. – disse-lhe eu sorrindo.
- Sim durmo.
A ideia de os imaginar aos três na cama quase me enjoava. Tentei recordar o rosto da Cláudia mas nem isso conseguia. Seria difícil nos próximos tempos esquecer a Rute. Tinha sido bom, tinha mexido comigo, como poucas conseguiam fazer.
Essa ideia animou-me para me vingar do trio da vida airada. Vingar não seria o termo, digamos que recebê-los para que se sentissem mal. Boa, vou fazer um jantar de gala. Daqueles que se tem uma vez na vida. A ideia de as ver de frente para um monte de talheres, sem saber os que usar fez-me rir. Sim, era mesmo isso.
Com um pouco de velocidade a mais, num instante estava em casa. A desenfiar os sapatos e a enfiar os chinelos, abri a porta do frigorífico. Que iria fazer. Tirei quatro tomates, uma alface, camarões para cozer, natas, duas embalagens de tamboril congelado aos cubinhos e quatro medalhões de carne de vaca.
Estava decidido. De entrada camarões cozidos com molho cocktail, devidamente arranjados, num tomate sem polpa, e com a alface cortada fininha. De peixe, uns cubinho de tamboril em molho de tomate, salteados com amêndoa e nozes. E de carne, uns medalhões temperados com pimenta.
Desci à cave e trouxe para a cozinha duas garrafas de champanhe Moet & Chandon. Deixei mais duas no frigorífico da cave, não fosse o diabo tece-las. Subi e num ápice resolvi o problema em falta. Uma rápida mensagem para o Filipe a dizer:
”traz sobremesa”
Liguei as luzes do jardim e as da piscina e num instante deixei de pensar no que quer que fosse. Adorava cozinhar. E estando só na cozinha era tudo perfeito. O Filipe devolveu-me a mensagem.
”queres ainda mais do que estas duas princesas ???”
Fogo. Este gajo consegue ser parvo. Claro que quero. Depois da noite que tive ia estar com uma gaja que ele comeu. Só mesmo dele. Irritado lá respondi:
”deixa-te de merdas, achas que como os teus restos ???”
Tirei o miolo aos tomates e a ideia de não cortar o fundo dos deles para não terem aderência no prato agradava-me. Mas que se lixe, ainda sujavam o chão. E era que eu teria de limpar. Um novo toque de mensagem interrompeu as minhas ideias maquiavélicas:
”és mesmo parvo, acreditaste que comi as duas, tás a ficar velho mano, levo gelado, estamos aí dentro de meia hora”
Por instantes, deixei perder o olhar na serra, fitei as luzes do jardim e as da piscina e senti-me burro. Afinal não passara de uma brincadeira daquele gajo. E eu acreditei, pior que isso tinha sido frio e distante com a Cláudia, sem ela o merecer.
Do pouco que conheci dela devia ter percebido que era completamente diferente da Isabel. Mais responsável, mais adulta e a saber muito bem o que queria da vida. Sou mesmo parvo. Da ideia de ter um jantar idiota, passei à ideia de lhe dar um jantar de sonho. A água a ferver dos camarões apressou todas as ideias.
Entre uns pratos e outros fui colocar a mesa. Não abdiquei dos talheres todos, mas com um toque meigo dispus a mesa. Em redor de duas velas, coloquei pinhões, nozes e avelãs, fui buscar uns guardanapos de pano, que geometricamente coloquei ao centro dos pratos.
Liguei ao Filipe e como ainda tardavam dez minutos, abri duas latas de atum, escorri-as muito bem e misturei maionese. Um delicioso patê para entrada. Recordava a frase da minha ex-mulher: nem para cozinhar te ajeitas homem.
E fui sorrindo. Não era uma questão de me ajeitar. Era estar a desperdiçar qualidades, com alguém que não merecia. Por vezes as mulheres pensam que a maioria dos homens não sabem cozinhar, se é verdade para muitos, para outros é evitar repetir uma tarefa diária sem sentido. Sim, eu sei, podíamos repetir sexo e jogos de futebol vezes sem conta, numa tarde e até numa noite. Mas cozinhar, para nós tem de ter uma motivação. Para mim tem de ter. Não me ajeito a fazer uns ovos ou uns bifes com batatas fritas. Mas adoro fazer o que fiz hoje. E fazia-o mais vezes, ao fim do dia, é mais que um prazer, era um relaxar, que não conseguira na piscina ou no ténis. Era mandar fora o stress e produzir algo que em minutos via resultados.
O mais engraçado, era conseguir reproduzir receitas elaboradas, sem nunca as ter feito antes, e muitas vezes sem ter lido nalgum lugar. O apitar no portão da frente, despertou-me para as visitas. Assobiei aos cães para os fechar e abri o portão da rua e o da garagem. O Filipe era da casa, conhecia os cantos todos, em segundos, estaria no rés-do-chão.
Recordei as últimas conversas com a Cláudia, em especial a ultima e a forma como tinha reagido, fria e bruscamente. Respirei fundo e prometi a mim mesmo ser um cavalheiro. Afinal a miúda pagara uma factura que o Filipe provocara sem ter culpa nenhuma. Bem, não sabia bem de onde tinha vindo aquela das saudades. Mas tudo bem. Iria ser um bom menino.
- Grande maninho, conta lá o que cozinhaste. – exclamou o Filipe no mesmo espalhafato de sempre.
- O costume maninho, iscas e batata cozida. – retorqui-lhe eu. – Olá Isabel. Olá Cláudia.
- Olá Miguel. – respondeu-me a Cláudia, num misto de corada com envergonhada.
- Olá Miguel, onde podemos colocar os casacos ? – questionou-me a Isabel, como se fosse mulher do Filipe.
- No hall de entrada, desculpa terem entrado pela garagem, mas depois dessa porta tens um cabide.
- Leva o meu. – pediu-lhe a Cláudia. – Queres o gelado onde Miguel ?
- Traz para a cozinha, mas antes deixa mostrar a sala e a mesa de jantar.
Num misto de espanto, deixei-a contemplar a mesa e os toques aqui e ali de propositadamente tinha feito. Senti-a insegura pela complexidade da mesa, e facilmente percebi que a imensidão de talheres a confundia. Mas nada disse.
- O Filipe disse que não passavas sem gelado de limão, gosto estranho. – perguntou num misto de dúvida e incerteza, não querendo dar parte de fraca.
- Não é nada de especial, habituei-me a intervalar o prato de peixe e carne com uma bola de gelado de limão. Uma mariquice como outra qualquer. Nada de especial. – comentei sorrindo.
- Por mim tudo bem, mas olha que lá em casa, só fazemos um prato e só tens dois talheres.
Sem saber se havia de comentar, inverti o sentido, e lá respondi sem a fazer sentir mal. Sentia-me culpado e não a queria fazer sentir mal.
- É apenas uma mariquice. Como a de comer de vez em quando com mais talheres que o normal. Mas se não souberes como fazer faz como eu: Começa com os talheres de fora e vais continuando sempre com os de fora.
- Ainda bem que dizes, também me costumo perder. – disse corando. – Para dizer a verdade nunca vi tantos talheres juntos.
- Não te preocupes, é simples.
Era aquela frontalidade que me tinha agradado nela, não se imiscuía de dizer o que pensava. Nem sabia como tinha acreditado na história do Filipe. Enfim, os homens tem destas coisas e destes devaneios e vindo do Filipe era bem possível.
- Vamos para a mesa ? - perguntei eu com a bandeja dos tomates decorada a preceito.
- Sim vamos. - responderam o Filipe e a Isabel, já sentados e a trocarem mimos num dos sofás da sala.
- Que preferes beber Filipe.
- O que quiseres maninho. Estou contigo.
- Uma do champanhe francês ?
- Sim, boa ideia.
- Eu bebo só um gole, fico logo toda corada e com calores. – disse a Cláudia sorrindo.
- Para afogares as saudades bebe dois. - disse-lhe eu ao passar por ela para me sentar.
- És tonto. – retorquiu ela num tom de voz que me alegrou, e que me era familiar.
Entre todas as baboseiras do Filipe, lá fiquei a saber as aventuras do último jantar. A confusão na encomenda das pizzas que os obrigou a comer três iguais. E o facto de a Cláudia ter contado aos dois que tinha saudades minhas. E a obrigatoriedade de depois ter de me ligar.
Entre aventuras e baboseiras do Filipe, terminámos de jantar e era quase uma da manha. A Cláudia ajudou-me a levantar a mesa, e entre pratos e copos, pediu desculpa pelo telefonema idiota que fizera.
- Acabei por entrar no jogo deles, e estava um pouco bebida. – disse mais uma vez corada. – Estou desculpada ?
- Claro que estás. Afinal não havia razão para estares com saudades pois não?
- Haver havia ? Mas não interessa.
- Se havia, podes dizer. Somos dois adultos.
Senti-a tremer, e sabia que a minha última frase a ia fazer responder. Estava, mais atiradiço, mais provocador. Não era assim, mas sentia-me mudado. Fizera-me bem estar com a Rute.
- És agradável. Foste muito agradável nos momentos que estivemos juntos. E muito diferente dos colegas de faculdade ou dos colegas do banco com que me dou. Não és um homem muito bonito, mas não és nada de deitar fora. Aliás deixa-me dizer-te que era com um homem como tu que gostava de passar o resto dos meus dias.
- Nem sei que dizer. – disse eu meio perdido. – Mas continua.
- Era isso. Quando te disse que tive saudades tuas, não menti, nem me fiz de fácil. Quando quero uma coisa luto por ela. E quero lutar por ti.
- Tens consciência que não nos conhecemos. Que se não me falha a memória estivemos duas vezes juntos?
- Sim eu sei. Achas-me nova demais. E completamente desenquadrada de ti.
- Não disse nada disso. Acho-te inteligente, bonita, sensual. Mas também e acho nova demais para mim. Não te vou negar esse facto.
- Que queres fazer depois da minha confidência ?
- Para já, que pares de tremer. Já disseste tudo. Da minha parte nem sei que te dizer. Sabes que tenho uma filha. Que ao ficares comigo ou a teres algo comigo que isso me transforma num caso atípico. Num iríamos casar pela igreja por exemplo.
- Sim eu sei. – respondeu-me meio triste. – Apenas te disse o que sentia.
- Tudo bem. Vem cá, deixa-me abraçar-te.
Encostou-se a mim e envolvia-a nos meus braços. Sentia-a anichar-se como a Ana fazia e respirei fundo. Estes últimos dias, estas últimas horas tinham sido mesmo uma aventura.
Ao fundo a serra estava já meio escondida no meio do meu amigo. E eu na minha cozinha com uma miúda dez anos mais nova que eu. Isto está giro.
- Miguel como tens quartos para todos podíamos cá dormir ? – gritou o Filipe da sala. – Que achas ?
- Por mim tudo bem. – respondi-lhe eu da cozinha e abraçando a Cláudia para não me fugir dos braços. – Que achas Cláudia, dormem cá todos ?
- Dormes comigo ? – disse ela a medo e corando mais uma vez.
- Muito coras tu rapariga. E tu queres dormir comigo ? Olha que estou velho e cansado. – disse-lhe eu sorrindo.
- Sim durmo.

1 Comments:
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