segunda-feira, julho 10, 2006

décima quarta parte

Eram quase quatro da tarde. Senti um corpo enrolado a mim. E sem abrir os olhos enrosquei-me mais. Sentia-me quente. Aconchegado. E acima de tudo contente por ela não ter acordado e saído a meio da noite ou a meio da manha.
O sol entrava já por entre o cortinado, tímido como o meu nevoeiro, mas ia entrando. Sentia o corpo dela quente e húmido. Os seios encostados ao meu peito, quase colavam. Queria não me mexer, ficar assim para o resto da vida. Olhei o rosto dela. Calmo. Desanuviado.
Pensei em tudo o que pensava. No meu túnel. Que agora não fazia sentido. Tentei voltar atrás no tempo, mas não conseguia voltar sequer à noite anterior. Só mesmo aquele sol, tímido como o meu nevoeiro, me despertava, me deixava pensativo em tudo o que se passara.
Recordei as vezes que chamava a atenção ao Filipe, e sorri. Estava a fazer pior que ele. Trocáramos duas, três frases no máximo, e entráramos com um estranho num quarto. Por momentos pensei se tudo aquilo que me dissera seria verdade. Se seria separada, se estaria só e abandonada. Uma mulher destas, não poderia estar só e abandonada. Era bom demais para ser verdade.

Rodei na cama e afastei-a ligeiramente. Ficámos de frente e podia agora observá-la só com as pernas tapadas pelo lençol. Peitos firmes, mas de mamilos escuros, fizeram-me equacionar se já teria sido mãe. Olhei a barriga, mas nem estrias nem sinal de uma costura de cesariana. Engraçado, não sabia nada dela. Apenas o que me dissera.
E podia ter mentido. Aliás o mais fácil seria ter mentido. Não sabia quem teria deste lado, quem poderia ser eu. O mesmo pensei eu, seria lógico que ela pensasse o mesmo. O nervoso verdade seja dita passou-lhe depressa. Muito depressa. Que raio de mulher vem assim para um quarto de hotel com um estranho. Eu podia ser ou estar mal intencionado. E que faria ela. Que poderia ela fazer.
Tudo isto navegava na minha cabeça. Lembrando velhos amigos que por momentos abandonara. Que por momentos conseguira abandonar. Passei-lhe a mão no cabelo, na expectativa do que faria ou se iria acordar. Estava a sentir fome e eram quase cinco da tarde.
- Bom dia princesa. Grande sono.
- Bom dia meu príncipe. Fazia muito tempo que não dormia assim.
- Tens fome ? – perguntei, na expectativa que respondesse afirmativamente.
- Que horas são ?
- Quase cinco da tarde.
- Sim já tenho alguma… para dizer a verdade, comia este mundo e mais umas coisitas. – disse sorrindo.
- Podemos tomar um banho e ir em direcção ao Guincho, queres ?
- Sim, é uma boa ideia. Quem toma banho primeiro.
- Podes ir tu.
No momento em que se ia levantar, agarrei-lhe o braço suavemente, e deitei-a por cima de mim, beijei-a suavemente e envolvia-a em mim. O beijo demorado depressa se transformou em mais uma cena erótica. Sentia o peito dela caído sobre mim e isso excitava-me. Esta mulher mexia comigo.
A segunda cena erótica terminou no duche, depois de lhe lavar as costas e de lhe dar a toalha, saiu e terminei eu o duche. Estava estourado mas sentia-me nas nuvens. A fome não me deixou estar mais tempo. Mas ainda saboreei o duche quente por minutos.
O bater da porta estremeceu-me. Como que uma bomba ecoou nos meu ouvidos. Fechei a água, enrolei-me na toalha e saí para o quarto. Como que por magia tinha desaparecido. Olhei em pormenor e nada. Tinha ido embora.

Em cima da cama reparei numa das folhas de carta do hotel rabiscada com uma ou duas frases:
”sou casada, não me procures mais, desculpa e adeus”
Por momentos sorri. Sim, era casada mas estava separada. Mas depressa percebi. Claro que não era separada. Provavelmente traíra o marido mais uma vez. Provavelmente tudo o que dissera no chat era verdade. Pelo menos a parte de andar com este e com aquele.
Por momentos senti-me usado. Sujo. Deixei cair a toalha e voltei ao duche. A água na cara fizera-me esquecer tudo por momentos, mas depressa recordei tudo. Merda de aventura esta.
Uma gaja casada que dá umas por fora. Tempos modernos estes. Sorri e fui-me vestindo lentamente. Abri a janela de par em par e deixei entrar o ar. Fazia-me falta o ar, em especial este do mar. Deixei-me estar sentado mais uns momentos e agarrei no telemóvel e na carteira e desci. No elevador lembrei-me que teria de pagar duas noites, mas isso não era o mais importante. À parte tudo o resto, tinha sido muito bom. E ela mexera mesmo comigo.
Dirigi-me à recepção, e para meu espanto as duas noites estavam pagas. Ainda perguntei se tinha sido a senhora que saíra que pagara, mas o empregado não conseguia confirmar isso. Tinha a ideia que sim, mas não confirmava. Uma senhora tinha sido. Mas a que saíra do meu quarto não confirmava.
Mas claro, só podia ter sido ela, quem mais iria pagar um quarto assim. Sorri e pensei que menos-mal, tivera uma grande noite e de borla. Do mal, o menos. Ao entrar no carro a fome despertou-me. Liguei o carro e pensei por onde ir. Um toque de mensagem cortou-me as ideias. Era do Filipe:
”jantar em tua casa levo companhia”
Este gajo é sempre o mesmo, rodei o volante e saí na direcção de Sintra. Que raio, depois disto tudo, ainda tinha de ir fazer jantar. Uma nova mensagem travou a minha irritabilidade. Mais uma mensagem do Filipe:
”companhia para os dois”
Ainda melhor, teria de fazer comer para quatro. Este gajo só tinha saídas destas. Vindo no nada lembrava-se de cada uma. E ainda por cima deveriam ser as duas malucas que tinha comido. As meninas Cláudia e Isabel. O trio da vida airada. Estava eu tão distante desse mundo agora. Merda. Merda. Merda.

1 Comments:

Blogger Blue Angel said...

A vida é feita de momentos que nos transportam para a felicidade ou para a dor...outros passam e nem marcam deixam. Muitas vezes apenas um minuto na vida vale mais do que horas e dias de existência.
Beijo
Ps

terça-feira, 11 julho, 2006  

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