sábado, julho 08, 2006

décima primeira parte

- Bom dia Judite.
- Bom dia Sr. Engenheiro. Quer a agenda?
- Comecemos por um café bem forte.
- Não devia trabalhar até tão tarde. Faz-lhe mal.
- Tem razão. Mas traga o café. Já passa.
Belo dia. Com uma agenda destas e sem vontade nenhuma de trabalhar. Não valia a pena inventar. Era para cumprir a agenda toda. Logo dormiria mais cedo. Senti-me estranho. Cansado e algo mais. Mas sem saber o que era o algo mais. Fui-me perdendo nos papéis e deixei correr a manhã.
O café despertara-me, e já ninguém diria que não dormira. Senti-me mais fresco e sem sono. Valia a Judite e os seus cafés milagrosos. O toque de mensagem no telemóvel parou o ritmo, equacionei se deveria ler, mas foi mais forte que eu…
”desculpa ter-te decepcionado”
Era da Rute, cliquei para responder, mas antes de enviar apaguei a resposta. Iria desaparecer senão respondesse. Era melhor assim. Não respondi e apaguei o número. Assim, perderia o contacto e perdia a hipótese de lhe responder. Era o melhor. Tinha de ser o melhor. E era com toda a certeza o mais justo.
Virei-me para a secretária e mergulhei de cabeça, a toda a velocidade, sem freio, sem capacete, sem medo. Raio de acontecimentos estes.
- Bom dia maninho.
- Bom dia Filipe.
- Não sabes o que perdeste. És mesmo um betinho. Tou com soninho. Quero a mamã. Dormiu bem, dormiu?
- Reli estes relatórios dos Açores e tu? Que te entreteste a fazer?
- Eu comi as duas. As duas ouviste bem?
Sem reagir exteriormente, senti o meu estômago às voltas, numa ansiedade desenfreada. Difícil de explicar, como se fosse traído, como se me tivesse cortado. Sentia e não queria sentir, virei-me para a janela e disse-lhe algo entre dentes.
Chamei a Judite e pedi os supostos relatórios, enfiei-lhos nas mãos e disse-lhe: Tens meia hora para os ler. Tentou evitar, mas fui bruto e corri com ele da sala. Fechei a porta, e encostei-me por dentro. Sentia-me frio. Magoado e triste.
Olhei para todo aquele trabalho. Recusava pensar mais, sentia-me oco, longe, senti uma vontade enorme de fugir, mas fiquei. Passavam mil imagens à minha frente, e sentia-me triste sem saber porquê. Pedi à Judite para encomendar uma pizza, e organizei-me para não sair.
Corri uma série de processos e decisão atrás de decisão fui esquecendo os acontecimentos recentes, os daquela manhã, os da noite anterior, e por momentos, até o nome dela esquecera.
- Senhor Engenheiro?
- Sim. Diga Judite…
- A sua filha na linha três.
- Obrigado. Pode passar.
Nestas confusões todas, esquecera a minha Ana. Voltava depressa à realidade, sabia que a voz dela me ia trazer paz. Muita Paz.
- Tou filhota. Bom dia.
- Tou pai. Olha, posso ir com a mãe à Madeira?
- Podes. Quando é a viagem?
- Na sexta…
- Na próxima sexta???
- Simmmmmmmmm… Paizinho deixa lá…
Bingo. Aquela frase, e a forma do pedido desarmavam-me. Concordei e liguei de seguida para casa. Recordara que a Dona Madalena me havia pedido uns dias para ir a Castelo Branco ver a irmã. E era a altura ideal. Ficaria quatro dias sozinho. Detestava semanas com feriados a meio, mas este vinha a calhar, sentia-me cansado. Estranhamente cansado.
Devia haver algo que substituísse a gravata. Menos apertado e mais prático. Será que não inventam nada. Tantas invenções, tantas descobertas e ainda temos de andar de gravata. Ao menos a pizza estava a saber-me bem, era dos poucos almoços que gostava de fazer sozinho. Uma pizza e eu. A vontade enorme de comer, e passadas três fatias a vontade enorme de atirar com a última fatia contra a parede e nunca mais comer pizza.
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